O BISPO QUE FICOU COM O CORAÇÃO TRISTE

Dom Adair José Guimarães disse o que todo pastor deveria dizer. Que o casamento se realiza diante do altar. Que Eucaristia e matrimônio são coesos. Que o casal que ora junto não se separa.

Era o 14 de agosto, memória de São Maximiliano Maria Kolbe. Em Niquelândia, no coração de Goiás, mais de 400 mil romeiros haviam acampado nos arredores do Santuário de Nossa Senhora d’Abadia do Muquém para a 278ª edição de uma das mais antigas romarias do Brasil. Dom Adair José Guimarães, bispo de Formosa, celebrava a Missa.

 

Em determinado momento da homilia, falando sobre o matrimônio, ele disse algo que a imprensa secular tratou como polêmica e que os católicos deveriam tratar como obviamente verdadeiro:

 

“O casamento se realiza na frente do altar. Quando vejo esses jovens, sobretudo da classe alta, pedindo para casar em clube, na beira da praia, do lago, eu já fico com o coração triste. Não sabem o que é o casamento. Ninguém pode casar fora do altar. Eucaristia e matrimônio é coeso.

 

Isso virou notícia porque um bispo católico disse o que a Igreja Católica ensina. Em 2026, isso já é suficiente para gerar manchete.

 

O QUE DOM ADAIR DISSE, E POR QUÊ ESTÁ CERTO

 

O matrimônio cristão não é uma cerimônia com elementos religiosos opcionais. É um sacramento. E os sacramentos têm forma, matéria e ministro. 

 

O ministro do matrimônio, na Igreja latina, são os próprios nubentes, que se conferem mutuamente o sacramento na presença do sacerdote e das testemunhas. 

 

Mas isso acontece dentro do contexto da celebração litúrgica, preferencialmente dentro da Missa, diante do altar onde o próprio Cristo se oferece ao Pai.

 

A ligação que Dom Adair apontou entre Eucaristia e matrimônio está na doutrina. O matrimônio é uma imagem da aliança de Cristo com a Sua Igreja. Cristo não Se une à Sua esposa em qualquer lugar. Ele Se entrega no altar.

 

Quem escolhe casar na praia ou no clube não está apenas fazendo uma preferência estética. Está sinalizando, talvez sem perceber, que o elemento central de seu casamento é o cenário, não o sacramento.

 

A HISTÓRIA QUE ELE CONTOU

 

Durante a homilia, Dom Adair narrou algo que ouviu de uma mulher que conheceu numa palestra. Ela havia sofrido um acidente e ficara paralisada da cintura para baixo há 18 anos. Disse ao marido: “Se você quiser arrumar outras mulheres para te satisfazer, eu aceito. Porque eu não posso te servir.”

 

O marido chorou. E respondeu: “Eu te prometi, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, ser fiel.”

 

Dom Adair concluiu: “Ele vive seu celibato, sua castidade. É um homem santo, talvez mais santo do que nós, padres.”

 

Esse homem não foi casado na praia. Não foi casado com fotógrafo cinematográfico e decoração floral importada. Foi casado diante do altar, com uma promessa que ele decidiu levar a sério. 

 

E 18 anos depois, numa cadeira ao lado de uma mulher que não pode mais lhe dar o que o mundo chama de satisfação, ele permanece fiel.

 

Essa é a diferença entre um casamento que tem Deus no centro e um casamento que tem o cenário no centro.

 

O QUE OS NÚMEROS DIZEM

 

Não é necessário recorrer à sociologia para entender o que Dom Adair viu. Mas os números confirmam o que ele intuiu pastoralmente.

 

Casais que praticam a fé juntos, que frequentam a Missa, que rezam o Rosário, que recebem os sacramentos, apresentam taxas de divórcio significativamente menores do que a média da população. 

 

Não porque sejam mais simpáticos ou mais bonitos. Porque têm uma âncora que o sentimento não oferece: uma aliança feita diante de Deus, testemunhada pela Igreja, ratificada pelo próprio Cristo.

 

Dom Adair disse isso com mais força: “O casal que vai à Missa todo domingo, que ora, que recita seu Terço, nunca se separa. O casal que adora Jesus na Eucaristia, que ama Nossa Senhora, nunca se separa. Venha o que vier.”

 

“Venha o que vier” inclui o acidente que paralisa. Inclui a doença que tira a beleza. Inclui a crise que devasta as finanças. Inclui os filhos que chegam com dificuldades. Inclui tudo o que o dia do casamento ainda não mostrou, e que o amor romântico, sozinho, não tem força para suportar.

 

O PROBLEMA QUE ELE NOMEOU

 

Dom Adair não criticou os jovens por maldade ou por ser “ultraconservador”, como a imprensa apressou-se a enquadrá-lo. Ele ficou com o coração triste.

 

Existe uma diferença entre indignação e tristeza. A indignação reage ao erro. A tristeza vê a pessoa por trás do erro, o que ela está perdendo sem saber.

 

Esses jovens que escolhem casar na praia não são maus. São jovens que nunca foram catequizados sobre o que o matrimônio realmente é

 

Que cresceram numa cultura onde o casamento é um evento social com componente emocional, e não um sacramento com dimensão eterna

 

Que aprenderam a pensar no dia do casamento como o dia mais bonito da vida, sem aprender que o casamento em si é o compromisso mais sério que um ser humano pode assumir depois do batismo.

 

Dom Adair chorou por dentro por eles. E disse em voz alta o que muitos pastores preferem guardar para si para não incomodar.

 

CASAL QUE ORA JUNTO, NÃO SE SEPARA

 

Padre Pio confessava durante horas todos os dias durante décadas. Conhecia a alma humana como poucos santos da história moderna. E sabia, pelo que via no confessionário, que os casamentos que sobrevivem são os casamentos que têm oração.

 

Não oração como performance devota. Oração como reconhecimento diário de que o amor conjugal não se sustenta apenas pelas próprias forças. Que precisa de Deus no centro para resistir ao que a vida inevitavelmente traz.

 

Se o seu casamento está passando por dificuldades, ou se você conhece um casal que está sofrendo, a recomendação mais antiga e mais eficaz continua sendo a mesma: Missa, Rosário, confissão, oração em família.

 

Não é misticismo. É experiência de dois mil anos de Igreja.

 

REZEMOS PELOS CASAMENTOS E PELAS ALMAS

 

Se você tem alguém que perdeu o casamento, que morreu sem se reconciliar, que partiu com dívidas espirituais que nunca quitou, inscreva-o na Liga de Resgate das Almas do Purgatório. Uma Missa semanal é oferecida pelos falecidos inscritos. A misericórdia de Deus alcança o que o tempo não permitiu.

 

Virgem Maria, que presenciaste as bodas de Caná e intercedeste pelo casal que ficou sem vinho, rogai por todos os casamentos que estão secando por dentro e precisam de um milagre.

 

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