São Luís não considerava a coroa um privilégio, mas uma missão de Deus. Enfrentou a guerra para defender os cristãos do Oriente e libertar os lugares santificados pela vida, Paixão e Ressurreição de Nosso Senhor.

Um menino preparado para uma grande missão
Em 25 de abril de 1214, nasceu Luís, na cidade de Poissy, situada nas proximidades de Paris.
Seus pais, o futuro rei Luís VIII da França e Branca de Castela, tiveram papel decisivo em sua formação, especialmente sua mãe, conhecida pela firmeza e pela profunda fé.
Luís foi batizado na igreja de Notre-Dame de Poissy e, durante toda a vida, conservou especial veneração pelo lugar onde havia recebido o Batismo.
Em 1226, quando tinha apenas 12 anos, seu pai morreu. O menino herdou o trono da França e foi coroado rei, passando a ser chamado Luís IX. Como ainda era menor de idade, sua mãe assumiu a regência e enfrentou nobres que ameaçavam a autoridade da Coroa.
Branca sabia, porém, que o filho estava sendo preparado para muito mais do que governar um reino. Ensinou-lhe que a primeira obrigação de um rei cristão era permanecer fiel a Deus e conduzir seus súditos com justiça.
Ela tinha sempre presente a advertência do Evangelho:
“Pois que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8,36)
Por isso, uma das recomendações que a tradição atribui à rainha ficou famosa: Branca dizia preferir ver o filho morto a saber que ele havia cometido um pecado mortal.
Junto com essa sólida formação moral e religiosa, o príncipe estudou as Sagradas Escrituras, o latim, as leis e outros conhecimentos necessários ao exercício de suas responsabilidades.
Luís deveria governar um reino temporal, mas sem perder de vista o Reino dos Céus.
Um rei diante da Paixão de Cristo
A devoção de Luís à Paixão de Nosso Senhor ocupou um lugar central em sua vida.
Em 1239, ele recebeu uma das relíquias mais veneradas da cristandade: a Coroa de Espinhos. Quando ela chegou à França, o rei foi recebê-la pessoalmente.
Descalço e vestido com uma túnica simples, carregou em procissão a relíquia que recordava os sofrimentos suportados por Cristo antes da Crucificação.
Depois, mandou construir em Paris a Sainte-Chapelle, destinada a guardar a Coroa de Espinhos e outras relíquias relacionadas à Paixão.
A veneração por essas relíquias ajuda a compreender o lugar que Jerusalém ocupava em sua vida espiritual. Ali estavam o Calvário e o Santo Sepulcro: os lugares em que Nosso Senhor morreu, foi sepultado e ressuscitou.
Naquele tempo, porém, Jerusalém havia voltado ao domínio muçulmano. Em 1244, a cidade foi invadida, sua população cristã sofreu violentamente e o Santo Sepulcro ficou novamente fora do alcance dos reinos cristãos.
Para Luís, não se tratava de uma notícia distante. Os cristãos do Oriente pediam auxílio, e os lugares santificados pela presença de Cristo estavam ameaçados. O rei decidiu que não permaneceria indiferente.
O voto de partir para a Cruzada
No final de 1244, Luís adoeceu gravemente. Seu estado se tornou tão preocupante que muitos acreditaram que estivesse prestes a morrer.
Durante a enfermidade, fez o voto de tomar a cruz caso recuperasse a saúde. Quando melhorou, manteve sua promessa e começou a preparar uma grande expedição.
Não era uma decisão simples. Partir significava deixar a França, atravessar o Mediterrâneo, enfrentar um poderoso inimigo e colocar a própria vida em risco.
Luís, entretanto, considerava que seu dever de rei cristão não terminava nas fronteiras da França. Queria socorrer os fiéis do Oriente e abrir caminho para que Jerusalém e o Santo Sepulcro voltassem a ser protegidos pelos cristãos.
Durante alguns anos, reuniu soldados, navios, provisões e os recursos necessários para a expedição. Finalmente, em 1248, partiu à frente daquela que ficaria conhecida como Sétima Cruzada.
Por que a Cruzada seguiu para o Egito?
Embora o objetivo maior fosse recuperar Jerusalém, o exército de São Luís não avançou diretamente sobre a Cidade Santa.
O Egito era, naquele momento, o principal centro do poder muçulmano na região. Conquistá-lo ou enfraquecê-lo parecia o caminho mais seguro para negociar a libertação de Jerusalém e garantir a defesa dos territórios cristãos.
Depois de passar por Chipre, a expedição desembarcou no Egito, em 1249. Seu primeiro grande objetivo era a cidade de Damieta, estrategicamente situada junto ao rio Nilo.
A chegada dos cruzados foi bem-sucedida. São Luís desembarcou com seus homens e Damieta caiu em poder do exército cristão.
A vitória parecia abrir caminho para o avanço. O rei acreditava que aquele poderia ser o primeiro passo para chegar aos lugares santos. A situação, contudo, logo se tornou muito mais difícil.
A derrota e o cativeiro
O exército avançou pelo Egito, mas encontrou forte resistência nas proximidades de Mansurá. Os combates foram violentos, as decisões militares nem sempre foram prudentes e muitos cruzados perderam a vida.
Às perdas no campo de batalha somaram-se a fome e as doenças. Enfraquecido e cercado, o exército precisou recuar.
Durante a retirada, em 1250, São Luís foi capturado com grande parte de seus homens.
O rei que saíra da França à frente de uma poderosa expedição tornou-se prisioneiro. Damieta teve de ser devolvida e uma grande soma foi exigida para sua libertação e a de seus soldados.
A Cruzada havia fracassado militarmente. São Luís não chegara a Jerusalém nem conseguira libertar o Santo Sepulcro.
Entretanto, a derrota não o levou a abandonar os cristãos do Oriente.
São Luís permanece na Terra Santa
Depois de ser libertado, Luís poderia ter retornado imediatamente à França. Sua mãe e seus conselheiros esperavam que ele reassumisse o governo do reino.
O rei, porém, tomou outra decisão: permaneceu durante aproximadamente quatro anos na Terra Santa.
Instalado principalmente em Acre, uma das mais importantes cidades cristãs da região, trabalhou para reparar os danos causados pela derrota. Auxiliou na libertação de prisioneiros, reorganizou as forças cristãs e procurou garantir a sobrevivência dos territórios que ainda permaneciam em poder dos cruzados.
Também mandou reforçar as defesas de cidades como Acre, Cesareia, Jafa e Sidon. Essas localidades eram fundamentais para sustentar a presença cristã e impedir que os últimos territórios do Reino de Jerusalém fossem perdidos.
Sem possuir tropas suficientes para tentar novamente a conquista da Cidade Santa, Luís empregou também a diplomacia.
Negociou com os diferentes governantes da região e procurou aproveitar as divisões entre eles para obter melhores condições para os cristãos.
Essa permanência mostra que sua participação na Cruzada não se limitou a uma expedição militar. Mesmo depois da derrota e do cativeiro, o rei permaneceu no Oriente para socorrer os cristãos e fortalecer tudo o que ainda pudesse servir à futura recuperação de Jerusalém.
Somente em 1254, depois de fazer o que estava ao seu alcance, regressou à França.
A fé presente também no governo
A mesma fé que levou São Luís à Terra Santa orientava a maneira como governava.
Jean de Joinville, que conviveu com ele durante anos e o acompanhou na Cruzada, deixou um testemunho precioso sobre sua vida. Ao começar a contar a história do rei, fez questão de recordar suas “santas palavras e bons ensinamentos”.
Certa vez, Luís perguntou a Joinville o que ele preferiria: sofrer de lepra ou cometer um pecado mortal. Joinville respondeu que preferiria cometer o pecado.
O rei o corrigiu, explicando que nenhuma doença do corpo poderia ser comparada à gravidade do pecado, que afasta a alma de Deus.
Essa preocupação com a salvação não o fazia esquecer seus deveres terrenos. Joinville conta que, muitas vezes, depois da Missa, o rei se dirigia ao bosque de Vincennes e se sentava junto a um carvalho.
Ali, seus súditos podiam apresentar suas causas. Luís ouvia as partes, mandava examinar cada caso e procurava corrigir pessoalmente as injustiças.
Para ele, servir a Deus significava também proteger os fracos, cuidar dos pobres e julgar com retidão.
Uma última Cruzada
A derrota no Egito e os anos passados na Terra Santa não apagaram em Luís o desejo de socorrer os cristãos do Oriente.
Em 1270, aos 56 anos, partiu novamente em Cruzada. Dessa vez, a expedição seguiu para Túnis, no norte da África. A campanha fazia parte de um projeto mais amplo, que deveria fortalecer a posição cristã no Mediterrâneo e favorecer uma futura ação em defesa da Terra Santa.
São Luís já não era o jovem rei que partira em 1248. Sabia perfeitamente quais eram os riscos da guerra, das doenças e das longas viagens. Mesmo assim, assumiu novamente a cruz.
Pouco depois da chegada a Túnis, uma grave enfermidade atingiu o exército. Luís também adoeceu e percebeu que sua vida se aproximava do fim.
O rei que atravessara o mar para servir à causa dos lugares santos não morreria em seu palácio, mas durante sua segunda Cruzada.
Antes de morrer, recebeu os últimos sacramentos e deixou ao filho recomendações sobre como deveria governar. Pediu-lhe que permanecesse fiel a Deus, protegesse a Igreja, praticasse a justiça e cuidasse dos pobres.
Em 25 de agosto de 1270, Luís IX morreu diante de Túnis.
O rei que não esqueceu o Santo Sepulcro
São Luís não conseguiu contemplar Jerusalém libertada. Não entrou como vencedor na Cidade Santa nem recuperou o Santo Sepulcro.
Sua vida, porém, ficou marcada pelo esforço de defender os cristãos do Oriente e preservar a esperança de que os lugares santificados pela Paixão e Ressurreição de Cristo voltassem um dia a ser livremente venerados pelos fiéis.
Ele enfrentou a guerra, a doença, a derrota e o cativeiro. Depois de libertado, permaneceu quatro anos na Terra Santa, fortalecendo as cidades cristãs. Anos mais tarde, mesmo conhecendo os perigos, partiu novamente em Cruzada e morreu durante a expedição.
Em 1297, apenas 27 anos depois de sua morte, o Papa Bonifácio VIII o canonizou.
Para Luís, a coroa foi um instrumento para servir a Deus, defender a Igreja e cumprir, até o fim, os deveres que havia recebido.
São Luís Rei, rogai por nós!




