Dois santos, um século de distância, a mesma batalha pelas almas. E uma pergunta que nos desacomoda: quando foi a última vez que você se confessou com verdadeiro arrependimento?

Havia um advogado em Paris. Homem de mundo, de ideias formadas, não o tipo que se deixa impressionar facilmente. Alguém o convenceu a visitar um simples padre de aldeia no interior da França. Ele foi. Voltou diferente. Quando seus amigos perguntaram o que havia visto naquele curé de campagne, ele respondeu com quatro palavras: “Vi Deus num homem.”
Essa cena aconteceu no século XIX, em Ars, na França. Décadas depois, a mesma cena se repetiu, com outras roupas e outro nome, em San Giovanni Rotondo, na Itália.
São João Maria Vianney morreu em 4 de agosto de 1859. Padre Pio morreu em 1968. Um século os separa. Mas quem contempla as duas vidas tem a impressão de estar diante de um único retrato pintado duas vezes por Deus, como se o Senhor quisesse insistir numa lição que o homem teimava em esquecer.
O que fazia as multidões viajar dias para vê-los
Nenhum dos dois buscou celebridade. O Curé d’Ars queria ser um humilde padre de aldeia. Padre Pio sonhava com um pequeno convento onde pudesse ser ignorado. Deus tinha outros planos.
Depois de um período de apostolado difícil, o confessionário do Curé d’Ars começou a atrair fiéis de toda a França. Com Padre Pio não foi diferente: suas primeiras direções espirituais foram feitas por escrito, porque os superiores reconheciam nele um dom extraordinário de conduzir almas, mas ele ainda era jovem demais. De carta em carta, de confissão em confissão, dezenas de milhares de pessoas fizeram dias de viagem só para encontrá-lo.
A razão era simples e desconcertante: quem saía do confessionário deles saía marcado. Não porque houvessem ouvido um grande orador. Não porque tivessem encontrado um dignitário. Saíam marcados porque tinham encontrado um homem de Deus, e através dele, o próprio Deus.
O mundo de hoje fascina-se com celebridades, palhetas, líderes empresariais, estadistas. Mas esses chamados condutores de homens conduzem as almas em direção a Deus? Deus escolhe os humildes. “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.”
16 horas no confessionário
Se há uma semelhança que atravessa tudo o mais entre esses dois sacerdotes, é esta: passaram a vida no confessionário.
O Curé d’Ars podia confessar 16 horas por dia. Padre Pio ficava frequentemente 12 a 15 horas sem interrupção. Imagine o que isso exige de atenção, de paciência, de capacidade de adaptar-se a cada temperamento, a cada situação, a cada ferida diferente.
Imagine a fadiga. Nenhum dos dois via os penitentes como um fardo.
Padre Pio dizia que nas conversas era um amigo, na Missa era a vítima, e no confessionário era o juiz. Mas acrescentava imediatamente: “O confessionário é o tribunal da misericórdia.” Você conhece algo mais belo do que isso? O lugar onde se julga é o lugar onde se acolhe. Onde se condena o pecado é onde se salva o pecador.
O Curé d’Ars repetia: “Não é o pecador que volta a Deus. É Deus que corre em direção ao pecador.”
Ambos sabiam que o diabo teme uma boa confissão mais do que qualquer outra coisa. Cada confissão sincera é uma derrota para o inferno. Cada conversão é uma vitória de Nosso Senhor Jesus Cristo.
O dom de ler nas consciências
Incontáveis testemunhos narram a mesma coisa: esses dois sacerdotes liam as consciências antes mesmo que os penitentes abrissem a boca.
O Curé d’Ars recordava pecados esquecidos há anos. Padre Pio fazia o mesmo.
Houve quem entrasse no confessionário com a intenção de esconder um pecado mortal. Padre Pio olhava por alguns instantes e dizia, com calma: “Você veio aqui para enganar o bom Deus? Volte quando quiser realmente se converter.” O homem saiu abalado. Após horas de reflexão e oração, voltou chorando, e confessou a vida inteira. Disse depois que aquela confissão havia mudado sua existência.
Uma mulher chegou ao Curé d’Ars convicta de ter feito uma boa confissão, esperando a absolvição. O santo perguntou-lhe com suavidade: “E aquele pecado que você voluntariamente esqueceu?” Ela irrompeu em soluços. Ninguém podia conhecer aquele segredo. Fez finalmente uma confissão completa e encontrou a paz.
Esse dom não era para esmagar. Era para salvar. A humilhação era medicinal. Como disse Padre Pio a um penitente que tentou justificar um pecado escondido em várias confissões com outros padres: “Quando você pecou, não tinha vergonha de ofender a Deus?”
Os combates contra o demônio
Ambos os santos travaram combates físicos contra o demônio que poucos ousariam descrever hoje em dia.
O Curé d’Ars chamava o diabo de “o grampinho”. Padre Pio chamava-o de “o cossaco”, “o barbudo”, “a velha barba azul”, tratando-o com desdém. Mas as noites eram assustadoras.
O leito do Curé d’Ars foi sacudido. Seu quarto foi invadido por uma presença maléfica, seu colchão foi incendiado, e ainda se conserva em Ars o que restou desse leito queimado, causando uma impressão profundamente desagradável. Na cela de Padre Pio, os confrades do convento ouviam explosões ensurdecedoras que vinham sempre do mesmo quarto. Às vezes o ouviam gritar. Na manhã seguinte, seu rosto trazia as marcas dos golpes recebidos.
Um bispo que visitou San Giovanni Rotondo, não particularmente favorável a Padre Pio, foi hospedado no convento e avisado de que poderiam ocorrer manifestações ruidosas à noite. Respondeu que não levasse a sério esse tipo de coisa. Naquela noite, as pancadas foram tão violentas que de manhã cedo o bispo partiu sem avisar ninguém.
O Curé d’Ars, depois de uma noite especialmente violenta, anunciava com um sorriso: “O grampinho fez muito barulho esta noite. É sinal de que um grande pecador vai chegar em breve.” Horas depois, um homem muito afastado de Deus pedia para se confessar. Padre Pio dizia algo semelhante aos confrades: “Hoje o demônio vai perder muitas almas.”
O diabo detesta os sacerdotes que lhe arrancam as almas.
Exigentes com o pecado, compassivos com o pecador
Poder-se-ia pensar que eram duros, rigoristas. O espírito do mundo sugeriria isso imediatamente. Mas é preciso distinguir.
Eram exigentes? Sim. Rigorosos com a moral? Sim. Mas não eram severos no sentido dos calvinistas do século XVI, secos, amargos, como se tivessem engolido um copo de vinagre. O catolicismo coloca óleo nas relações. Há ternura, há amor. Mas isso não impede a firmeza quando uma linha não pode ser cruzada, porque cruzar essa linha pode custar a eternidade.
O Curé d’Ars dizia: “Se soubessem quanto Deus os ama.” Padre Pio repetia: “Tivestes muito caro a Nosso Senhor para que Ele vos abandone.” E ainda: “Esperai. Confiai. Nunca desespereis, mesmo quando tudo parece perdido.”
Por experiência, ambos sabiam que a misericórdia de Deus não tem limite e supera de longe todas as nossas misérias.
A Missa não era hábito
Para esses dois sacerdotes, a Missa não era uma rotina. Era o Calvário tornado presente.
Nosso Senhor Jesus Cristo na Última Ceia não disse “represente meu Corpo” nem “seja um símbolo do meu Corpo”. Disse: “Tomai e comei, isto é o meu Corpo.”
A cada Missa celebrada por um sacerdote que quer fazer o que a Igreja faz, opera-se a transubstanciação do pão no Corpo de Cristo e do vinho em Seu Sangue. O mesmo sacrifício do Calvário, não-sangrento, mas real.
A Missa é o maior tesouro da terra. Sem ela, onde estaríamos?
A pequena lamparina vermelha acesa diante do sacrário não é decoração. É sinal de que ali, sob as aparências de pão, está presente o Corpo de Cristo. O Curé d’Ars e Padre Pio celebravam a Missa com um recolhimento que comovia os presentes, porque sabiam o que estava diante deles.
O Rosário e a confiança absoluta em Nossa Senhora
Os dois tinham pela Santíssima Virgem uma confiança absoluta.
O Curé d’Ars recomendava o Rosário constantemente. Padre Pio dizia que o Rosário era “a arma do nosso tempo”. Quantos milagres começaram com um simples terço rezado com fé, quando estávamos desanimados, quando a família atravessava dificuldades, quando os filhos se afastavam de Deus.
Nossa Senhora abrirá as portas que julgamos fechadas. Isso não é piedade sentimental. É certeza aprendida por esses dois santos que A conheceram de perto.
Sofrer para salvar
Talvez seja esse o maior segredo de todos.
O Curé d’Ars vivia com menos do mínimo em alimentação e vestuário. Mas gastava tudo o que conseguia em ornamentos litúrgicos, porque queria que o culto a Deus fosse tão belo quanto possível. Padre Pio tinha a saúde tão destruída que o estômago não suportava quase nada. E carregou as chagas da Paixão durante 50 anos.
Para cada um deles, a cruz foi pesada. E foi amada, não por gosto da dor, porque nenhuma pessoa mentalmente sã tem gosto pela dor, mas por amor a Deus e ao próximo.
Uma doença aceita com amor pode salvar uma alma. Um sofrimento oferecido com sorriso pode obter uma conversão.
Que lição para nós, que buscamos evitar toda dificuldade.
Os peregrinos ainda chegam
Séculos depois da morte do Curé d’Ars, quase um século depois da morte de Padre Pio, os peregrinos continuam chegando a Ars e a San Giovanni Rotondo. Por quê?
Porque os santos não morrem. Continuam sua missão desde o Céu, de onde assistem às nossas provações, às provações de nossas famílias, e intercedem.
Quantas pessoas testemunham graças recebidas pela intercessão do Curé d’Ars. Quantas narram uma cura, uma conversão, uma paz reencontrada pela intercessão de Padre Pio.
Deus é vivo, amoroso, presente. E continua a agir por meio de seus santos.
O que eles nos dizem hoje
A mensagem é simples. Esses dois santos parecem nos dizer: não compliquemos nossa vida espiritual.
Confessei-vos regularmente. Assistei à Missa com fervor, no domingo por obrigação, e durante a semana quando possível. Rezai cada dia, ao menos num momento de paz. Recitai o terço. Aceitai as cruzes cotidianas, pequenas ou grandes. Amai Nosso Senhor do fundo do coração. E confiai na misericórdia de Jesus.
Não foram dados ao mundo para serem admirados de longe. Foram dados para serem imitados. Nosso Senhor no Evangelho diz-nos: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito.”
Nossas famílias precisam de santos. Nossas paróquias precisam de santos. Nosso mundo precisa de santos.
O próximo santo que Deus chama pode ser você.
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Que São João Maria Vianney e Padre Pio, apóstolo do Purgatório, intercedam por você e por sua família.




