O novo filme transforma o poema do retorno, da fidelidade e da restauração da ordem em uma reflexão contemporânea sobre os traumas da guerra

Lançado nos cinemas brasileiros em 16 de julho de 2026, A Odisseia, de Christopher Nolan, rapidamente se tornou um dos grandes acontecimentos cinematográficos do ano.
O sucesso comercial, porém, não encerra a discussão sobre o filme. Ao adaptar uma das obras fundadoras da cultura ocidental, um diretor assume uma responsabilidade maior do que simplesmente produzir um espetáculo grandioso.
A questão não é exigir que o cinema reproduza cada verso de Homero. Toda adaptação precisa selecionar episódios, condensar personagens e encontrar uma linguagem própria. O problema começa quando o prestígio de um clássico é utilizado apenas como ponto de partida para contar uma história diferente daquela que conferiu sentido à obra original.
Essa é a principal crítica apresentada por Roberto Marchesini, psicoterapeuta, escritor e colaborador do jornal italiano La Nuova Bussola Quotidiana. Em sua análise, Nolan teria conservado os nomes, as aventuras e a aparência exterior da epopeia, mas deixado escapar aquilo que realmente move o poema de Homero.
Por que um católico deveria se interessar por Homero?
A Odisseia nasceu muitos séculos antes de Cristo. Não é uma obra cristã e seu universo religioso pertence ao mundo pagão da Grécia antiga.
Mesmo assim, os grandes clássicos gregos ajudaram a formar a cultura ocidental na qual o cristianismo se desenvolveu. Ao longo dos séculos, pensadores cristãos reconheceram nessas obras reflexões importantes sobre virtude, prudência, justiça, fidelidade, família, autoridade e destino.
A Igreja nunca precisou aceitar todos os elementos da cultura pagã para reconhecer aquilo que nela havia de verdadeiro, belo e humanamente valioso.
Por isso, a maneira como uma obra como a Odisseia é apresentada ao público não é uma questão cultural sem importância. Quando seus temas centrais são alterados para se ajustarem às preocupações contemporâneas, perde-se também parte da compreensão que o Ocidente recebeu sobre o lar, a fidelidade e a restauração da ordem.
Uma Grécia com a aparência de outro mundo
Segundo Marchesini, os problemas da adaptação começam na própria reconstrução visual.
Os figurinos, as armaduras e a caracterização dos personagens não ajudariam o espectador a entrar no universo mediterrâneo da Antiguidade. Roupas de inspiração medieval, guerreiros gregos usando calças e soldados remando em mar aberto cobertos por elmos e armaduras contribuiriam para criar uma ambientação pouco coerente.
Não se trata de exigir uma reprodução arqueológica perfeita. A liberdade artística faz parte do cinema.
Entretanto, essa liberdade precisa ajudar a revelar o mundo da obra, e não substituí-lo por um cenário genérico de superprodução.
A fotografia também se afastaria da luminosidade e das cores associadas ao Mediterrâneo. Nolan constrói um universo escuro, pesado e constantemente ameaçador, mais próximo da atmosfera habitual de seus filmes do que da paisagem em que nasceu a epopeia homérica.
O resultado é visualmente grandioso, mas nem sempre permite que o espectador reconheça o mundo de Homero.
Quando tudo precisa parecer decisivo
Marchesini também critica a montagem agitada e o uso quase permanente da trilha sonora para criar tensão.
Nolan parece não permitir que a narrativa respire. Cada cena precisa transmitir perigo, urgência ou grandiosidade.
Essa intensidade contínua pode produzir o efeito contrário ao desejado. Quando tudo é apresentado como extraordinário, poucos momentos conseguem ser verdadeiramente extraordinários.
Os diálogos também não teriam a força esperada de uma adaptação de Homero. Em vez de revelar a inteligência dos personagens ou aprofundar os acontecimentos, muitas falas serviriam apenas para explicar aquilo que a imagem já mostra.
O problema se torna mais evidente na transformação do próprio Ulisses.
O que aconteceu com a inteligência de Ulisses?
O Ulisses de Homero é conhecido principalmente por sua inteligência, prudência e capacidade de superar obstáculos por meio da astúcia.
Ele não vence porque é o guerreiro mais forte. Vence porque observa, calcula, suporta e sabe esperar.
Na leitura atribuída a Nolan, essa característica seria substituída pelo sofrimento psicológico. Ulisses deixa de ser principalmente o homem engenhoso que procura regressar à sua pátria e se transforma num veterano atormentado pela guerra.
O sofrimento provocado pelo conflito de Troia está presente em Homero. Ulisses carrega perdas, lamenta seus companheiros e enfrenta consequências dolorosas.
Contudo, ele não é definido somente por aquilo que sofreu.
Ulisses é definido pelo lugar para o qual deseja voltar.
Essa diferença é decisiva. O trauma olha para aquilo que ficou para trás. O retorno aponta para o bem que ainda precisa ser recuperado.
A Odisseia é o poema do retorno
A crítica mais importante não está nos figurinos, no elenco ou nos efeitos visuais. Está na compreensão do sentido da obra.
A Odisseia não é apenas a história de um soldado que tenta sobreviver depois de uma guerra. É o poema do retorno.
Ulisses atravessa mares, enfrenta monstros, resiste a seduções e perde companheiros porque deseja voltar para casa.
Ítaca não é somente um lugar no mapa. Representa o lar, a família, a autoridade legítima, a memória e a ordem que precisam ser restauradas depois do caos.
Enquanto Ulisses está ausente, sua casa é ocupada por homens que consomem seus bens, desrespeitam sua autoridade e pressionam Penélope a abandonar a fidelidade ao marido.
Penélope não é apenas uma mulher que espera. Sua fidelidade preserva a casa.
Telêmaco não é apenas o filho de um guerreiro ausente. Ele precisa amadurecer, reconhecer sua responsabilidade e ocupar seu lugar como herdeiro.
O retorno de Ulisses permite que cada pessoa e cada coisa reencontrem seu lugar.
Essa visão possui uma profundidade que também pode ser compreendida por um leitor cristão. A desordem não é vencida pela fuga, mas pelo retorno àquilo que é verdadeiro. O lar precisa ser recuperado, a fidelidade precisa ser confirmada e a justiça precisa ser restaurada.
Um final que muda o sentido de Ítaca
A alteração mais significativa apareceria no desfecho.
Depois de enfrentar os pretendentes que haviam ocupado sua casa, Ulisses entra num confronto individual com Antínoo. Segundo Marchesini, a cena se aproxima mais de um duelo de western do que de uma epopeia grega.
Em seguida, Ulisses e Penélope aparecem navegando juntos em direção ao horizonte.
A imagem pode ser emocionante, mas modifica profundamente o sentido do retorno.
Na obra de Homero, Ulisses não passa anos tentando voltar para Ítaca apenas para abandoná-la depois de reencontrar a esposa. Ele regressa para recuperar sua casa, restabelecer sua autoridade e restaurar a ordem quebrada durante sua ausência.
Ítaca não é uma prisão da qual Ulisses e Penélope precisam escapar. É o lugar ao qual eles pertencem.
Ao trocar a permanência pelo abandono, a restauração pela partida e a ordem reencontrada por uma imagem sentimental de libertação, o filme altera o centro da epopeia.
Quando a visão do diretor substitui o clássico
Toda adaptação cinematográfica apresenta a visão de seu diretor. Isso é inevitável e pode produzir obras extraordinárias.
O problema surge quando o cineasta deixa de dialogar com o texto original e passa a utilizá-lo apenas como suporte para suas próprias preocupações.
Na análise de Marchesini, Nolan parece mais interessado em falar sobre guerra, trauma, violência e destruição das civilizações do que em compreender o retorno de Ulisses.
Esses temas poderiam produzir uma reflexão válida. Contudo, quando ocupam o lugar daquilo que sustenta a obra, a adaptação deixa de ajudar o público a descobrir Homero.
Ela passa a substituir Homero.
As imagens que podem substituir a memória
Existe ainda uma consequência cultural importante.
Para milhões de espectadores, o filme será o primeiro contato com Ulisses, Penélope, Circe, Polifemo e os pretendentes. Muitos talvez nunca leiam a obra original.
O cinema possui enorme poder para construir imagens duradouras. Quando um personagem literário recebe o rosto de um ator e um mundo é representado na tela, torna-se difícil separar a adaptação da obra que a inspirou.
Por isso, uma adaptação não desaparece simplesmente quando deixa os cinemas. Ela continua formando a memória do público.
O risco é que muitos passem a identificar a Odisseia apenas com a história sombria de um guerreiro traumatizado, esquecendo que Homero escreveu sobre a busca pelo lar, a fidelidade de uma esposa, o amadurecimento de um filho e a restauração de uma ordem ameaçada.
É preciso voltar a Homero
Christopher Nolan pode ter criado uma grande produção inspirada nos personagens e nas aventuras da Odisseia. Isso não significa necessariamente que tenha preservado o verdadeiro sentido da epopeia.
Pela análise de Roberto Marchesini, o diretor conservou a aparência do poema, mas alterou aquilo que lhe conferia unidade e profundidade.
A Odisseia, porém, não precisa ser corrigida para se tornar atual.
O desejo de voltar para casa, a necessidade de permanecer fiel, a responsabilidade de proteger a família e o esforço para reconstruir a ordem depois do caos continuam sendo profundamente humanos.
O filme pode provocar debates e despertar a curiosidade de novos leitores. Mas nenhuma adaptação substitui o contato com a obra original.
Para conhecer verdadeiramente Ulisses, Penélope, Telêmaco e o sentido do retorno a Ítaca, ainda é necessário voltar a Homero.
Nota editorial: Este artigo foi elaborado a partir da análise de Roberto Marchesini publicada no jornal italiano La Nuova Bussola Quotidiana, com adaptação, desenvolvimento e comentários editoriais da Associação Regina Fidei.




