A Transfiguração do Senhor: a luz que nos sustenta nas horas difíceis

No alto do Monte Tabor, Jesus permitiu que Pedro, Tiago e João contemplassem sua glória. Pouco tempo depois, eles O veriam preso, humilhado e crucificado.

 

No dia 6 de agosto, a Igreja celebra a Festa da Transfiguração do Senhor, um dos episódios mais luminosos do Evangelho.

Jesus escolheu Pedro, Tiago e João e subiu com eles a um monte para rezar. Eram o primeiro Papa e os dois irmãos chamados por Ele de “filhos do trovão”.

Mais tarde, os mesmos três seriam convidados a permanecer perto do Senhor durante sua agonia no Horto das Oliveiras.

Enquanto Jesus rezava, “seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou branca e resplandecente” (Lc 9,29). São Mateus acrescenta que seu rosto brilhou como o sol e suas vestes se tornaram brancas como a luz.

Naquele momento, os Apóstolos contemplaram a glória que pertencia a Cristo. A humanidade de Nosso Senhor, habitualmente humilde e acessível aos olhos dos homens, manifestou por alguns instantes o esplendor de sua divindade.

Ao lado de Jesus apareceram Moisés e Elias. Moisés representava a Lei; Elias, os Profetas.

Então Pedro exclamou:

“Senhor, é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias” (Mt 17,4).

São Lucas observa que Pedro não sabia o que estava dizendo. Maravilhado com a beleza daquela visão, desejava permanecer no monte e prolongar aquele instante de felicidade.

Santo Agostinho compreende o desejo do Apóstolo. Pedro havia encontrado no Tabor a solidão, a paz e o próprio Cristo como alimento de sua alma. Por que deveria voltar às fadigas, aos conflitos e às dores da vida?

A resposta veio do Céu. Uma nuvem luminosa os envolveu e a voz do Pai declarou:

“Este é o meu Filho amado, em quem pus toda a minha complacência. Escutai-O” (Mt 17,5).

Pedro desejava três tendas. O Pai, porém, mostrou-lhe que tudo se reúne em Cristo. A Lei e os Profetas falavam d’Ele e encontravam n’Ele seu pleno cumprimento. Moisés e Elias desapareceram, e os discípulos viram somente Jesus.

A Igreja nas vestes luminosas de Cristo

Santo Agostinho oferece ainda uma interpretação muito bela das vestes resplandecentes do Senhor: elas representam a Igreja.

Uma roupa cai quando não é sustentada por quem a veste. Do mesmo modo, a Igreja recebe de Cristo sua firmeza, sua unidade e sua beleza. Ela não brilha por uma perfeição própria de seus membros, mas porque está unida Àquele que é a verdadeira luz.

Mesmo quando os pecados dos homens parecem cobri-la de manchas, Cristo continua santificando sua Igreja. O Senhor não abandona sua Esposa. Ele a sustenta, purifica e ilumina ao longo da história.

A brancura das vestes também recorda as palavras do profeta Isaías: ainda que os pecados sejam vermelhos como o escarlate, Deus pode torná-los brancos como a neve.

A Transfiguração, portanto, manifesta a glória de Cristo e também aquilo que Ele deseja realizar em sua Igreja e em cada alma fiel.

Uma majestade impossível de descrever

Ao comentar a Transfiguração, Plinio Corrêa de Oliveira [1908–1995] chama a atenção para a riqueza da fisionomia de Nosso Senhor no Tabor.

Jesus Cristo manifestava uma serenidade perfeita, uma afabilidade irresistível e, ao mesmo tempo, uma majestade capaz de encher os Apóstolos de admiração e santo temor.

Em sua Pessoa, qualidades que aos homens parecem opostas estavam presentes em plena harmonia.

Nosso Senhor era manso sem perder sua força; majestoso sem deixar de ser acessível; infinitamente superior e, ao mesmo tempo, cheio de bondade.

A Transfiguração revela, assim, algo da personalidade insondável de Jesus Cristo. Diante d’Ele, a alma se sente atraída, elevada, reverente e profundamente amada.

A luz do Tabor prepara os Apóstolos

A visão gloriosa preparou Pedro, Tiago e João para acompanhar mais de perto a agonia de Jesus Cristo. 

Eles O haviam visto brilhar como o sol. Em breve O veriam suar sangue.

Tinham contemplado suas vestes luminosas. Depois O veriam despojado, flagelado e coberto com um manto de escárnio.

Tinham ouvido a voz do Pai proclamar que Jesus era seu Filho amado. Durante a Paixão, escutariam a multidão exigir sua crucifixão.

São Leão Magno ensina que a Transfiguração fortaleceu a fé dos Apóstolos diante do escândalo da Cruz. Eles deveriam recordar a glória contemplada no monte quando vissem o Senhor humilhado no Calvário.

Recordar as melhores horas

Essa verdade alcança diretamente nossa vida espiritual.

Deus nos concede momentos em que sua presença parece particularmente clara.

Uma comunhão recebida com fervor, uma confissão que devolve a paz, uma oração atendida, uma graça inesperada, uma dificuldade superada ou uma certeza interior de que Ele está perto.

São pequenos momentos de Tabor.

Essas graças devem ser recebidas com gratidão e guardadas na memória. Elas podem tornar-se uma força preciosa quando chegarem as horas de sofrimento, aridez, incompreensão ou aparente abandono.

Plinio Corrêa de Oliveira resume essa lição em uma frase: “Nas piores horas, lembremo-nos das melhores, para podermos confiar no dia de amanhã.”

Quando tudo parece escuro, devemos recordar as ocasiões em que vimos claramente a ação de Deus. Ele não age em vão. Aquele que nos sustentou ontem não deixará de nos conduzir amanhã.

A lembrança das graças recebidas protege a alma contra o desânimo.

A fé não se apoia apenas naquilo que sentimos no presente, mas também na fidelidade que Deus já demonstrou ao longo de nossa vida.

“Desce, Pedro”

São Pedro queria permanecer no alto da montanha. Santo Agostinho, porém, coloca nos lábios do Senhor uma resposta enérgica: “Desce, Pedro.”

Pedro deveria descer, anunciar o Evangelho, trabalhar, suportar perseguições e dedicar-se à salvação das almas. O repouso definitivo viria mais tarde.

A luz recebida na oração deveria transformar-se em caridade, serviço e fidelidade.

Esse ensinamento vale também para nós. Deus nos atrai à oração para que saiamos dela mais dispostos a cumprir nossos deveres, suportar com paciência as dificuldades e fazer o bem aos outros.

A contemplação verdadeira não nos afasta da realidade. Ela nos dá forças para enfrentá-la. O cristão sobe ao monte para encontrar Cristo e desce para levá-Lo aos outros.

Padre Pio: do Calvário ao Tabor eterno

A vida de São Padre Pio também ajuda a compreender o mistério celebrado neste dia.

Ele recebeu graças extraordinárias e viveu uma profunda união com Deus, mas seu caminho espiritual passou constantemente pela Cruz. Durante muitos anos, ofereceu sofrimentos físicos e interiores pela salvação das almas.

Certa vez, um filho espiritual lhe disse que gostaria de permanecer sempre ao seu lado. Padre Pio respondeu que ele deveria permanecer sempre no Calvário.

Para Padre Pio, estar no Calvário significava permanecer unido a Jesus, oferecendo os sofrimentos por amor e pela salvação dos irmãos.

Ele escreveu que, aos pés da Cruz, as almas se revestem de luz, inflamam-se de amor e recebem asas para subir às mais altas regiões da vida espiritual.

Padre Pio ensinava que o amor alimentado pela Cruz é um amor verdadeiro e perseverante. A Cruz acolhida com Cristo purifica a alma e a prepara para o Tabor definitivo, a Jerusalém celeste.

A Transfiguração e o Calvário não são caminhos opostos. A mesma caridade divina resplandece no Tabor e se entrega inteiramente na Cruz.

A glória prometida

A Transfiguração anuncia também o destino daqueles que permanecem unidos a Jesus Cristo.

O Senhor mostrou em seu próprio Corpo glorioso aquilo que deseja comunicar aos seus filhos. A vida cristã caminha para a transformação completa do homem pela graça e para a ressurreição da carne.

As provações do presente não anulam essa promessa. A dor não é eterna. A injustiça não terá a última palavra. A fidelidade não será esquecida. Tudo o que for oferecido a Deus encontrará n’Ele seu pleno significado.

No Tabor, o Pai, o Filho e o Espírito Santo se manifestam: o Pai na voz, o Filho em sua humanidade glorificada e o Espírito Santo na nuvem luminosa.

E, depois que a voz cessou, os Apóstolos viram somente Jesus.

Essa é uma imagem de toda a vida cristã. Muitas coisas passam. As consolações passam, as dificuldades passam, as honras passam, os sofrimentos passam. Jesus Cristo permanece.

“Escutai-O”

A ordem pronunciada pelo Pai no Monte Tabor continua ressoando para toda a Igreja “Este é o meu Filho amado. Escutai-O.”

Escutar Jesus Cristo significa acolher suas palavras quando elas consolam e também quando exigem renúncia. Significa confiar n’Ele no Tabor e segui-Lo até o Calvário.

A Festa da Transfiguração nos convida a olhar para Jesus com admiração, reverência e confiança. Sua majestade fortalece nossa fé; sua serenidade devolve-nos a paz; sua luz mostra-nos o caminho.

Quando vierem as horas difíceis, recordemos as graças já recebidas.

Quando a escuridão parecer esconder tudo, recordemos a luz contemplada no monte. E quando o caminho da Cruz parecer pesado, recordemos que ele conduz à Ressurreição.

Quem permanece com Cristo durante a provação contemplará um dia, sem véus e sem fim, a glória que Pedro, Tiago e João viram durante alguns instantes no Monte Tabor.

Nas piores horas, lembremo-nos das melhores, para podermos confiar no dia de amanhã.

Fontes: Santo Agostinho, Sermão 78, sobre a Transfiguração do Senhor; Plinio Corrêa de Oliveira, conferência de 6 de agosto de 1965 sobre a Transfiguração, acervo Plinio Corrêa de Oliveira; Portal oficial de São Padre Pio, meditações sobre a Cruz e a vida espiritual.

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