A CARTA EM QUE PADRE PIO DISSE ESTAR “DOENTE DE AMOR” POR DEUS

Em 30 de janeiro de 1915, Padre Pio escreveu ao Padre Agostino descrevendo uma experiência interior tão intensa que recorreu à linguagem da doença, do fogo e do martírio. A carta revela um aspecto pouco conhecido de sua vida mística: a alegria e o sofrimento podiam coexistir no mesmo amor.

 

Pietrelcina, 30 de janeiro de 1915.

 

Padre Pio escreve ao Padre Agostino da San Marco in Lamis e tenta colocar em palavras algo que, para ele, parecia atingir a alma e o corpo ao mesmo tempo.

 

Fala de fogo.

 

Fala de um coração tomado por chamas que se tornavam cada vez mais fortes.

 

Fala de suspiros, de sofrimento e, ao mesmo tempo, de uma doçura tão intensa que o deixava inteiramente voltado para Deus.

 

Então usa uma expressão inesperada:

 

“Estou doente, e doente do coração.”

 

Pouco depois, explica a natureza dessa doença. Era, segundo suas próprias palavras, uma alma que Deus havia feito “adoecer de seu amor”.

 

É uma das páginas mais impressionantes do Epistolario.

 

O FOGO QUE NÃO O CONSUMIA

 

A linguagem do fogo aparece várias vezes na correspondência de Padre Pio.

 

Na carta de 30 de janeiro de 1915, porém, ela assume uma intensidade especial.

 

Ele descreve o coração e as entranhas como tomados por um fogo crescente. O sofrimento lhe parecia extremo, mas vinha acompanhado de uma suavidade igualmente extraordinária.

 

Dor e alegria, martírio e doçura, desejo de Deus e incapacidade de expressar plenamente o que acontecia coexistiam.

 

O leitor moderno pode estranhar esse vocabulário. Mas os grandes autores espirituais da Igreja conhecem também outra dimensão: o amor pode aumentar o desejo, e o desejo pode doer justamente porque ainda não possui plenamente aquilo que ama.

 

Padre Pio não escrevia um tratado. Tentava explicar seu próprio estado interior a quem o dirigia.

 

“DOENTE DO CORAÇÃO”

 

A expressão é forte porque parece física. E, em parte, era.

 

Padre Pio afirma que seu corpo também participava daquele estado, mas o centro da carta é espiritual.

 

Ele não descreve uma doença cardíaca no sentido médico. Utiliza a linguagem da enfermidade para dizer que o amor de Deus o havia tomado de tal maneira que já não conseguia viver aquela intensidade como algo neutro.

 

O amor se tornou necessidade.

 

Desejo.

 

Fogo.

 

Esse modo de falar pode soar excessivo até lembrarmos que o cristianismo sempre utilizou a linguagem do amor para falar da relação entre Deus e a alma.

 

Nos Evangelhos, Cristo pede um amor total.

 

Na tradição espiritual, a união com Deus é frequentemente descrita com linguagem nupcial, de sede, fome, ferida e fogo.

 

Padre Pio entra nessa mesma tradição, mas com a força de quem não está apenas citando uma imagem.

 

Ele diz estar vivendo aquilo.

 

O DESEJO DE ESTAR COM DEUS

 

Há um ponto da carta que exige cuidado.

 

Padre Pio manifesta desejo de que aquela tensão termine e de estar definitivamente com Deus.

 

Lida fora do contexto, uma frase assim poderia parecer simples desejo de morrer.

 

Mas a lógica espiritual da carta é outra.

 

Ele não está desprezando a vida criada por Deus, nem apresentando a morte como fuga voluntária. Está expressando, com a linguagem radical dos místicos, o desejo de união plena com Aquele que ama.

 

O cristão não busca a morte, mas sabe que esta vida não é o destino final. A esperança cristã deseja a visão de Deus sem desprezar os deveres presentes.

 

Padre Pio permaneceu vivendo, obedecendo, celebrando a Missa, confessando, rezando e servindo durante mais de meio século depois daquela carta.

 

A intensidade da linguagem não o retirou da realidade.

 

Pelo contrário, sua vida se tornou cada vez mais ocupada com as almas.

 

QUANDO O AMOR DE DEUS DEIXA DE SER IDEIA

 

Talvez seja aqui que a carta mais nos provoque.

 

Para muitos de nós, o amor de Deus permanece facilmente no campo das afirmações corretas.

 

Sabemos que devemos amar a Deus.

 

Dizemos que O amamos.

 

Rezamos.

 

Frequentamos a Missa.

 

Cumprimos deveres religiosos.

 

Padre Pio, nessa carta, fala de algo muito diferente de uma ideia correta.

 

Fala de uma realidade que o invade.

 

A santidade não se mede pela intensidade das sensações. Há santos que atravessaram longos períodos de aridez e almas fidelíssimas que jamais experimentaram algo semelhante. A medida é a caridade e a fidelidade à graça.

 

Mas a carta nos obriga a fazer uma pergunta simples:

 

Deus ocupa realmente o centro de nossos desejos?

 

Ou permanece apenas numa área respeitável de nossa vida, ao lado de tantas outras coisas que, na prática, desejamos mais?

 

A MISSA E O FOGO

 

O portal oficial de Padre Pio, ao comentar essa carta, aproxima a linguagem das chamas de outra passagem de sua correspondência, escrita em 1911.

 

Naquela ocasião, Padre Pio dizia sentir durante a Missa uma espécie de ardor que lhe tomava toda a pessoa, especialmente o rosto.

 

A associação ajuda a compreender sua espiritualidade. A Missa estava no centro de sua vida, e sua linguagem de amor, oferta, fogo e união converge para esse centro.

 

Isso impede uma leitura puramente emocional da carta. O amor de Padre Pio por Deus não se reduzia a sentimento interior. Tornava-se sacerdócio.

 

Missa.

 

Confissão.

 

Oração.

 

Obediência.

 

Sacrifício.

 

Serviço concreto às almas.

 

O AMOR QUE PRECISA VIRAR VIDA

 

A experiência descrita pertence à vida pessoal de Padre Pio e não deve ser imitada artificialmente. Mas o amor a Deus não é reservado aos místicos. É o primeiro mandamento.

 

E a pergunta que a carta deixa pode ser respondida por qualquer cristão.

 

O que fazemos com o amor que dizemos ter por Deus?

 

Ele muda nossas escolhas?

 

Faz-nos rezar quando não temos vontade?

 

Move-nos a abandonar um pecado?

 

Leva-nos a perdoar?

 

Faz-nos procurar a Missa com mais fé?

 

Torna-nos mais pacientes com as pessoas que Deus colocou ao nosso lado?

 

Faz-nos desejar a salvação das almas?

 

Se não produz nenhuma consequência, talvez o problema não esteja na ausência de chamas extraordinárias.

 

Talvez esteja na fraqueza do amor ordinário.

 

UMA DOENÇA QUE ERA VIDA

 

Padre Pio chamou aquilo de doença.

 

Mas era uma doença paradoxal.

 

Quanto mais o consumia, mais o orientava para Deus.

 

Quanto mais o fazia desejar o Céu, mais sua vida na terra se enchia de serviço.

 

Aquele jovem sacerdote de 1915 ainda teria pela frente décadas de trabalho, provações, perseguições, confissões, Missas e multidões.

 

A carta retrata alguém cujo centro interior já estava em outro lugar.

 

Talvez seja por isso que essas palavras ainda tenham força.

 

Elas mostram até onde pode chegar o amor de Deus numa alma.

 

E nos deixam uma pergunta muito mais modesta, mas muito mais urgente:

 

  • até onde deixamos esse amor chegar em nós?

 

Padre Pio, vós que dissestes estar doente de amor por Deus, alcançai-nos a graça de amá-Lo de verdade, sem procurar experiências extraordinárias, mas com fidelidade concreta, perseverança e desejo sincero de pertencer inteiramente a Ele.

 

FONTES

 

PADRE PIO DA PIETRELCINA. Epistolario I. Carta ao Padre Agostino da San Marco in Lamis, 30 de janeiro de 1915, p. 525.

 

Portale ufficiale di Padre Pio da Pietrelcina. “Padre Pio bruciava d’amore per Dio”, 20 fev. 2020.

 

Portale ufficiale di Padre Pio da Pietrelcina. Referência à carta de 8 de setembro de 1911, Epistolario I, p. 234, sobre o ardor sentido durante a Santa Missa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Inscreva-se grátis

para receber os melhores conteúdos e orações

Últimos Posts

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Inscreva-se grátis

para receber os melhores conteúdos e orações

Últimos Posts

Search

Para mais informações ligue:

Ligação gratuita


Atendimento: segunda a sexta, das 8:00 às 18:00.

A ligação é grátis para todo o Brasil.

INSCRIÇÃO REALIZADA

Se você gosta dos conteúdos da Regina Fidei e deseja manter esta obra na internet, por favor, faça uma doação simbólica.

Acesse esta página 100% segura 

Dependemos unicamente da generosidade de pessoas como você para continuar este trabalho de apostolado.

Sua pequena contribuição, aqui, será um combustível para estimular ainda mais os voluntários, religiosos e colaboradores que se dedicam fielmente a resgatar a Fé Católica.

Obrigado e conte com nossas orações.

Equipe de Conteúdo Apostólico
Associação Regina Fidei