Em 13 de fevereiro de 1913, Padre Pio escreveu ao Padre Agostino sobre vinte e dois dias de ataques violentos e, no mesmo texto, registrou a resposta que dizia receber de Jesus: a prova não seria inútil, e a cruz deveria ensiná-lo a amar.

Pietrelcina, 13 de fevereiro de 1913.
Padre Pio tinha 25 anos. Ainda faltavam mais de cinco anos para os estigmas visíveis de setembro de 1918. Longe das multidões que mais tarde chegariam a San Giovanni Rotondo, ele vivia grande parte daquele período em sua cidade natal, com a saúde frágil e sob direção espiritual constante.
Foi nesse contexto que escreveu ao Padre Agostino da San Marco in Lamis uma das cartas mais impressionantes de seu Epistolario.
Segundo o relato que o próprio Padre Pio fez ao diretor espiritual, havia vinte e dois dias que sofria sucessivos ataques atribuídos por ele aos demônios. Disse que seu corpo estava coberto de marcas das pancadas e que, em algumas ocasiões, chegavam a arrancar-lhe a camisa antes de golpeá-lo.
A descrição é dura. Mas o centro da carta não está na violência.
Está na pergunta que surge por trás dela: por que Deus permitia aquilo?
A RESPOSTA QUE PADRE PIO DISSE TER RECEBIDO
Padre Pio escreve que, em meio àquela provação, Jesus o tranquilizava.
A formulação conservada no Epistolario é decisiva: “Não temas, eu te farei sofrer, mas te darei também a força.”
Depois vem a explicação. Padre Pio afirma que aquela prova deveria purificá-lo, prová-lo e ensiná-lo a permanecer fiel sob a cruz. No mesmo trecho aparece uma das frases mais conhecidas de sua correspondência: “Sob a cruz aprende-se a amar.”
Padre Pio não apresenta o sofrimento como uma força autônoma. Também não descreve o demônio como alguém que age sem limites. Toda a narrativa permanece subordinada à Providência de Deus.
O Catecismo ensina que o poder de Satanás é limitado: ele continua sendo criatura e sua ação, embora possa produzir graves danos, não escapa à Providência divina.
Para Padre Pio, portanto, o mal que o atacava não tinha a última palavra.
A última palavra continuava sendo de Deus.
VINTE E DOIS DIAS DE COMBATE
É fácil transformar uma carta assim em espetáculo.
Padre Pio faz exatamente o contrário.
Ele não escreve para impressionar curiosos. Escreve ao sacerdote que o dirigia. Expõe o que estava acontecendo porque queria ser orientado, corrigido e sustentado.
Ao longo de sua correspondência, Padre Pio submeteu experiências extraordinárias ao discernimento de seus diretores. Ele não tomou o fenômeno extraordinário como licença para dispensar orientação ou obediência.
Na carta de 13 de fevereiro, o sofrimento físico aparece ligado a uma prova espiritual mais profunda: permanecer fiel quando não há consolo, quando o corpo sofre e quando a alma se encontra sob pressão.
O texto se torna, por isso, surpreendentemente próximo de quem nunca viveu nada extraordinário.
Pouquíssimas pessoas poderão dizer que passaram pelo que Padre Pio descreveu. Mas todo cristão conhece, em alguma medida, a experiência da tentação, do cansaço, da aflição e da sensação de que uma prova dura mais do que deveria.
É justamente aí que a frase ganha força:
“Não temas.”
DEUS NÃO PROMETEU AUSÊNCIA DE PROVAS
Há um erro espiritual muito comum: imaginar que, se Deus nos ama, removerá imediatamente tudo aquilo que nos faz sofrer.
A carta de Padre Pio aponta em outra direção.
Segundo aquilo que ele registrou, a promessa recebida não era: “Nada acontecerá com você.”
Era: haverá sofrimento, e haverá força.
A diferença é enorme.
A vida dos santos não foi construída pela ausência de combate. Foi construída pela fidelidade dentro do combate.
Isso não significa procurar sofrimento, desprezar tratamentos, recusar ajuda ou imaginar que toda dor tenha origem espiritual. Muito menos significa atribuir cada contrariedade ao demônio.
A própria tradição católica exige prudência e discernimento.
O que a carta mostra é algo mais sóbrio: quando uma prova não pode ser retirada, ela ainda pode ser vivida sem abandonar Deus.
E Padre Pio via nessa fidelidade uma escola de amor.
“SOB A CRUZ APRENDE-SE A AMAR”
Talvez esta seja a frase que deveríamos guardar.
A cruz, no cristianismo, não é venerada porque a dor seja boa em si mesma. É venerada porque nela Nosso Senhor amou até o fim.
Por isso Padre Pio podia associar cruz e amor sem transformar sofrimento em culto à dor.
O que vale diante de Deus não é simplesmente sofrer.
É amar quando custa.
É permanecer fiel quando seria mais fácil abandonar.
É continuar rezando quando a oração parece árida.
É recusar o pecado quando a tentação aperta.
É carregar uma obrigação quando ninguém vê.
É oferecer a Deus aquilo que não escolhemos, sem transformar a prova em revolta contra Ele.
Foi esse o sentido que Padre Pio encontrou na experiência narrada naquela carta.
O DEMÔNIO NÃO É O CENTRO DA HISTÓRIA
Há ainda outra lição importante.
O título desta carta poderia facilmente levar o leitor a pensar que o protagonista é o demônio.
Não é.
Padre Pio fala dos ataques, mas sua atenção permanece em Jesus.
É Jesus quem sustenta.
É Jesus quem limita.
É Jesus quem dá força.
É Jesus quem transforma a prova em ocasião de purificação e amor.
A própria Igreja, ao ensinar sobre a existência e a ação do Maligno, insiste ao mesmo tempo que seu poder não é infinito.
O cristão não vive fascinado pelo demônio.
Vive voltado para Cristo.
Isso também protege contra dois extremos muito comuns: negar por princípio toda realidade de combate espiritual ou, no extremo oposto, enxergar ação demoníaca em cada doença, conflito, frustração ou dificuldade cotidiana.
Padre Pio viveu experiências que ele próprio considerava extraordinárias. Nós não precisamos imitar as experiências.
Precisamos aprender a fidelidade.
O QUE ESTA CARTA PEDE DE NÓS
Mais de um século depois, a carta de 13 de fevereiro de 1913 continua exigente.
Ela nos pergunta o que fazemos quando Deus não remove imediatamente a cruz.
Reclamamos até perder a paz?
Abandonamos a oração?
Cedemos à tentação porque estamos cansados?
Ou pedimos a força necessária para atravessar aquilo que não conseguimos mudar?
Padre Pio não recebeu a explicação de todos os mistérios do sofrimento.
Recebeu, segundo sua própria carta, uma certeza suficiente para continuar:
Deus não o abandonaria.
É uma resposta pequena diante de uma dor grande.
Mas, para a vida cristã, muitas vezes é exatamente disso que precisamos.
Não conhecer antecipadamente cada razão.
Saber em Quem confiar.
Padre Pio, ensinai-nos a não fugir da cruz que Deus permite em nossa vida, a não procurar cruzes que Ele não pediu e a permanecer fiéis quando a prova chegar.
E, sobretudo, ensinai-nos aquilo que vós escrevestes ao vosso diretor espiritual:
a aprender a amar sob a cruz.
FONTES
PADRE PIO DA PIETRELCINA. Epistolario I. Carta ao Padre Agostino da San Marco in Lamis, Pietrelcina, 13 de fevereiro de 1913, p. 339.
Portale ufficiale di Padre Pio da Pietrelcina. “Padre Pio: La croce è la scuola dell’amore”, 10 abr. 2020.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 395: sobre os limites do poder de Satanás e a Providência divina.




