Durante poucas horas, a Igreja oferece aos fiéis a indulgência plenária da Porciúncula. Mas recebê-la exige mais do que entrar em uma igreja e recitar algumas orações.

Há graças que Deus coloca diante de nós e que, por ignorância ou indiferença, deixamos passar.
O Perdão de Assis é uma delas.
Todos os anos, entre o meio-dia de 1º de agosto e a meia-noite de 2 de agosto, os católicos podem receber a indulgência plenária conhecida como Indulgência da Porciúncula. A graça nasceu do desejo ardente de São Francisco de Assis de conduzir as almas de volta a Deus.
Não se trata de uma devoção reservada aos franciscanos. Também não é preciso viajar até Assis, na Itália.
A indulgência pode ser recebida pelos fiéis que, devidamente preparados, visitarem uma igreja paroquial ou franciscana e cumprirem as condições determinadas pela Igreja.
Mas é preciso compreender o que está em jogo.
A culpa pode ser perdoada, mas as feridas do pecado permanecem
Muitos católicos confundem indulgência com absolvição sacramental.
A confissão perdoa a culpa dos pecados quando existe arrependimento sincero. A indulgência diz respeito à pena temporal ainda devida pelos pecados cuja culpa já foi perdoada.
Todo pecado deixa consequências.
Uma palavra cruel pode ser confessada, mas talvez tenha ferido profundamente uma pessoa. Um vício abandonado pode ter deixado hábitos desordenados. Uma injustiça perdoada por Deus ainda exige reparação.
O pecado não desaparece da história como se nada tivesse acontecido.
A indulgência é uma aplicação dos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo e dos santos, concedida pela Igreja ao fiel devidamente disposto. Ela manifesta a realidade da Comunhão dos Santos e a generosidade da misericórdia divina.
Não é uma licença para pecar. Não é uma fórmula automática. Não é uma maneira de enganar a justiça de Deus.
É uma graça oferecida ao pecador arrependido, que deseja romper sinceramente com o mal e voltar para a amizade plena com o Senhor.
O pedido que São Francisco fez por amor às almas
A tradição do Perdão de Assis remonta ao ano de 1216.
São Francisco encontrava-se em oração na pequena igreja da Porciúncula quando teria contemplado Nosso Senhor Jesus Cristo e a Santíssima Virgem cercados de anjos.
Perguntado sobre qual graça desejava, o santo não pediu riqueza, saúde, prestígio ou alívio para as próprias dores.
Pediu misericórdia para os pecadores.
Desejava que aqueles que entrassem naquela igreja arrependidos e confessados recebessem um perdão amplo. Nosso Senhor teria determinado que Francisco apresentasse o pedido ao seu vigário na Terra.
O santo procurou então o Papa Honório III.
Quando o Pontífice perguntou por quantos anos desejava a indulgência, Francisco respondeu com uma frase que atravessou os séculos:
“Não peço anos, mas almas.”
A aprovação foi concedida, e São Francisco anunciou ao povo reunido em Assis seu grande desejo: conduzir todos ao Paraíso.
Eis o coração dessa devoção.
São Francisco sabia que a vida passa. Sabia que o pecado mata a alma. Sabia que o Céu e o inferno são realidades eternas.
Por isso, não tratava a conversão como assunto secundário.
Como receber o Perdão de Assis
Para obter a indulgência plenária, o fiel deve visitar devotamente uma igreja paroquial ou franciscana no período determinado. Durante a visita, deve rezar o Pai-Nosso e o Credo.
Também devem ser cumpridas as condições habituais para uma indulgência plenária:
Confissão sacramental, realizada em período próximo à obra indulgenciada.
Comunhão eucarística, recebida com as devidas disposições.
Oração pelas intenções do Santo Padre, podendo-se rezar um Pai-Nosso e uma Ave-Maria ou outra oração apropriada.
Desapego de todo pecado, inclusive do pecado venial.
Uma única confissão pode servir para várias indulgências plenárias, mas são necessárias uma Comunhão e uma oração pelas intenções do Papa para cada indulgência que se deseja receber. Em regra, só se pode lucrar uma indulgência plenária por dia.
A indulgência pode ser aplicada à própria alma ou oferecida, como sufrágio, por uma alma do Purgatório.
Essa possibilidade deveria tocar especialmente aqueles que perderam pais, avós, filhos, irmãos ou amigos.
Talvez não possamos mais conversar com nossos mortos. Não podemos abraçá-los nem reparar pessoalmente certas omissões. Podemos, porém, rezar por eles, oferecer sacrifícios, mandar celebrar Santas Missas e aplicar indulgências em seu favor.
A caridade não termina no túmulo.
O ponto mais exigente não aparece nas mãos, mas no coração
É relativamente simples entrar em uma igreja, recitar o Credo e rezar um Pai-Nosso.
O combate começa quando a Igreja pede desapego de todo pecado.
Isso significa não conservar deliberadamente afeição por uma ofensa a Deus, ainda que se trate de pecado venial.
O fiel pode estar fraco. Pode temer cair novamente. Pode conhecer a própria miséria. O que não pode é desejar permanecer no pecado.
Quem alimenta o rancor e se recusa a perdoar precisa lutar contra essa resistência. Quem mantém uma situação moralmente desordenada deve tomar a decisão de abandoná-la. Quem vive afastado dos sacramentos deve regressar.
A indulgência não foi dada para acomodar consciências.
Ela foi dada para ajudar a purificá-las.
Quando falta o pleno desapego do pecado, a indulgência não é plenária, mas parcial. Deus vê com clareza aquilo que tentamos esconder até de nós mesmos.
Não deixe o dia 2 de agosto passar como uma data qualquer
Antes de ir à igreja, faça um exame de consciência.
Procure um sacerdote e faça uma confissão íntegra. Não esconda pecados por vergonha. Não apresente desculpas. Chame cada falta pelo nome.
Receba Nosso Senhor Jesus Cristo na Sagrada Comunhão com reverência.
Visite uma igreja paroquial ou franciscana. Reze o Credo, o Pai-Nosso e pelas intenções do Papa. Ofereça a indulgência pela própria alma ou por um fiel falecido.
Acima de tudo, peça a graça de odiar o pecado e amar verdadeiramente a Deus.
O Perdão de Assis recorda uma verdade esquecida: nossa vida caminha para a eternidade.
São Francisco não pediu anos.
Pediu almas.
No dia 2 de agosto, uma dessas almas pode ser a sua.
Oração
Meu Deus, concedei-me sincero arrependimento dos meus pecados. Pela intercessão de Nossa Senhora dos Anjos e de São Francisco de Assis, purificai minha alma, fortalecei minha vontade e conduzi-me pelo caminho da salvação. Amém.




