O Inimigo Que Vivia Dentro Dela: O Diálogo Esquecido de Santa Catarina de Gênova

Um texto quase esquecido revela a batalha que ela travou consigo mesma antes de poder escrever sobre o fogo que purifica as almas.

Nove anos antes de morrer, Catarina de Gênova ficou sem ninguém que a compreendesse. Seu confessor, o único que conseguia acompanhar o que se passava em sua alma, esteve muitas vezes ausente. 

 

Ela ficou sozinha diante de Deus, sem conselho, sem apoio humano, carregando uma doença que os médicos daquele tempo não sabiam explicar. Foi nesse silêncio que nasceu um dos textos mais originais e mais esquecidos de toda a mística católica.

 

Chama-se Diálogo entre a Alma, o Corpo, o Amor Próprio, o Espírito, a Humanidade e Nosso Senhor Jesus Cristo

 

Poucos ouviram falar dele. O Tratado do Purgatório ficou famoso, foi traduzido, comentado, citado por Papas. O Diálogo permaneceu na sombra. E, no entanto, é nele que Catarina revela o verdadeiro campo de batalha que precedeu tudo o que ela escreveu sobre o fogo purificador.

 

Um tribunal dentro do peito

 

O texto não é um tratado comum. É uma cena. Catarina divide a própria interioridade em personagens que discutem entre si diante de Deus. A Alma. O Corpo. O Espírito. A Humanidade

 

E, no centro de tudo, o Amor Próprio, apresentado como um inimigo com voz própria, capaz de argumentar, de resistir, de se defender.

 

Essa construção não é um recurso literário vazio. É a forma mais honesta que Catarina encontrou para mostrar algo que toda alma cristã experimenta e raramente nomeia. 

 

Dentro de cada um de nós existe uma parte que negocia com Deus, que pede exceções, que quer ser purificada sem perder nada de si mesma. Catarina deu nome a essa parte. Chamou de amor próprio.

 

O que é, exatamente, esse inimigo

 

Amor próprio, na linguagem de Catarina, não é vaidade nem orgulho no sentido comum. É algo mais difícil de detectar. É o apego residual a si mesmo que sobrevive mesmo depois da conversão, mesmo depois da confissão sincera, mesmo depois de anos de penitência.

 

Ela mesma viveu isso na própria carne. Depois do golpe de amor que recebeu ainda jovem, diante do confessor, chorando, repetindo Oh, Amor, não mais pecados, Catarina não se tornou perfeita da noite para o dia. Passou anos sendo desmontada por dentro, camada após camada, e o Diálogo é o relato dessa demolição.

 

O Espírito, nesse texto, representa o que em Catarina já pertencia inteiramente a Deus. A Humanidade representa o que ainda restava de fragilidade, de medo, de resistência natural ao sofrimento. E entre os dois, o Amor Próprio insiste, argumenta, tenta convencer a Alma de que já basta, de que já é suficiente, de que pode parar ali.

 

Por que isso importa mais do que parece

 

Existe uma tentação espiritual comum, quase universal, de achar que basta estar em graça para estar pronto diante de Deus. Catarina desmonta essa ideia com uma lucidez rara. Não basta não pecar. É preciso que nada em nós ainda negocie com o pecado, nem em pensamento, nem em desejo escondido, nem em pequenas reservas de conforto próprio.

 

O Diálogo descreve essa purificação em três livros, narrando, segundo os primeiros compiladores de sua obra, a sequência das operações divinas pelas quais Nosso Senhor a conduziu das imperfeições do primeiro estado até a mais alta perfeição. Não foi um caminho rápido. Não foi indolor. Foi, palavra por palavra, uma guerra.

 

A vitória que não é da Alma sozinha

 

Há algo profundamente católico nessa história que merece ser dito com clareza. Catarina não venceu o amor próprio pela força de vontade. Ela mesma reconhecia que, apesar dos tormentos excessivos que sofria no próprio corpo, sentia o espírito cheio de coragem, e confessava não conseguir sequer dizer que estava sofrendo, porque parecia nadar em uma alegria contínua que não conseguia exprimir. Isso não vem de esforço humano. Vem de graça.

 

É a Santíssima Virgem quem melhor ensina esse caminho. Ninguém amou a Deus sem reservas como Nossa Senhora. Nela não houve jamais uma sombra de amor próprio a negociar espaço com a vontade divina. 

 

Foi assim, inteira, que ela disse sim. E é a essa mesma entrega inteira que Catarina foi conduzida, através de anos de fogo interior, até morrer, em 15 de setembro de 1510, cantando com voz doce as últimas palavras de Cristo na cruz.

 

O que fica para quem lê isso hoje

 

Ninguém precisa esperar uma visão mística para reconhecer o próprio amor próprio agindo. Ele aparece nas pequenas negociações do dia a dia, no pecado que se justifica, na oração que se abrevia, na caridade que se mede. Catarina não escreveu esse Diálogo para ser admirada. Escreveu para que outros reconhecessem, em si mesmos, a mesma voz que ela precisou silenciar.

 

As almas do Purgatório já não podem travar essa guerra. Já não podem negociar, nem pedir, nem lutar por si mesmas. Tudo o que ainda falta purificar nelas depende inteiramente de quem ainda está vivo e pode oferecer, em nome delas, o que elas não podem mais oferecer por si.

 

É exatamente esse o propósito da Liga de Resgate das Almas do Purgatório. Cada colaborador que sustenta Missas semanais oferecidas por essas almas é um sufrágio concreto para quem já não tem voz própria diante de Deus. 

 

Se você quer fazer parte dessa obra de caridade, pode se tornar colaborador da Liga agora e garantir que sua intenção seja lembrada em cada Missa oferecida pelas almas.

 

Se este texto tocou algo em você, vale indicar para você o Seriado Vozes do Purgatório, no Canal Regina Fidei, com episódios que aprofundam o que a Igreja ensina sobre essas almas e o dever de rezar por elas.

 

Que Nossa Senhora, que jamais conheceu a negociação interior do amor próprio, interceda por cada alma que ainda luta contra si mesma. E que Padre Pio, que tantas vezes chamou o Purgatório de seu apostolado predileto e dizia rezar mais pelas almas de lá do que pelos vivos, junte sua intercessão à da Virgem por cada alma que já não pode lutar e espera, em silêncio, pela nossa oração. 

 

Acompanhe os próximos conteúdos sobre Santa Catarina de Gênova e sobre as Almas do Purgatório em breve no Canal Regina Fidei no YouTube. Faça sua inscrição e ative o sininho para ser avisado.

 

 

Fontes consultadas: Vita mirabile et Dottrina de la Beata Caterinetta da Genova (edição de 1551); Dialogo tra anima, corpo, amor proprio, spirito, umanità e Dio, atribuído a Santa Catarina de Gênova; Alexandre Maineri, Vida de Santa Catharina Fiescha Adorna de Genova (tradução portuguesa, 1790); catequese de Bento XVI sobre Santa Catarina de Gênova; Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 1030 a 1032.

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