O Homem que Veio Antes de Anchieta

A história esquecida do jesuíta que fundou o Brasil e plantou a semente que Padre Pio viria regar séculos depois

 

Em 29 de março de 1549, um navio ancorou na Baía de Todos os Santos. Da embarcação desceu um padre português de trinta e um anos, magro, filho de magistrado, bacharel em direito canônico por Coimbra. 

Ele era gago

E era o homem que viria a fundar cidades, defender índios, criar escolas e escrever a primeira obra literária do Brasil. Chamava-se Manuel da Nóbrega.

Não havia ainda nenhum Anchieta no Brasil. 

Anchieta chegaria quatro anos depois, em 1553, jovem noviço de dezoito anos, na segunda armada. Nóbrega já estava aqui. Já havia fundado a missão. Já havia erguido a primeira igreja. Já havia escrito ao rei pedindo um bispo. Já havia colocado os pés na selva onde nenhum jesuíta havia pisado antes.

E, no entanto, o Brasil quase não sabe o seu nome.

Há uma injustiça histórica que poucos percebem. 

O nome de Anchieta está em estradas, praças, universidades e municípios por todo o país. 

O nome de Nóbrega mal aparece numa rodovia no interior de São Paulo. Anchieta foi beatificado em 1980 e canonizado em 2014. Nóbrega morreu em 1570 e até hoje aguarda o reconhecimento formal da Igreja, apesar de ter sido chamado pelo Papa João XXIII de ‘o maior Bandeirante de Deus no Brasil’.

Isso não diminui Anchieta. Os dois eram amigos e trabalhavam juntos. 

O que é injusto é o apagamento de Nóbrega. Porque sem Nóbrega, não há missão. Sem Nóbrega, não há colégio em Piratininga. Sem Nóbrega, Anchieta chega ao Brasil sem estrutura, sem plano e possivelmente sem futuro.

O Papa Pio XII foi claro: Nóbrega é o fundador real da cidade de São Paulo. Não como figura secundária. Como o homem que escolheu o local, desenhou o plano, conduziu a expedição e celebrou a primeira missa no planalto de Piratininga, em 25 de janeiro de 1554.

Nóbrega nasceu em 18 de outubro de 1517, em Sanfins do Douro, no norte de Portugal. Filho de família nobre, estudou em Porto, Salamanca e Coimbra. 

Tinha talento intelectual fora do comum. Seus mestres o chamavam de ‘doutíssimo’. Foi aprovado para lecionar na Universidade, mas a gagueira impediu a nomeação, não uma vez, mas duas.

Entrou para a Companhia de Jesus em 1544. Cinco anos depois, o rei Dom João III escolheu pessoalmente quem lideraria a primeira missão jesuítica às Américas. A escolha recaiu sobre Nóbrega.

Em 1 de fevereiro de 1549, a armada de Tomé de Sousa partiu de Lisboa. Nóbrega viajava com cinco outros jesuítas. Tinha apenas uma certeza: o que estava diante deles ninguém havia tentado antes.

O que Nóbrega fez nos vinte e um anos que passou no Brasil é difícil de resumir sem cair no exagero. Mas os fatos falam por si.

Colaborou na fundação de Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. Criou a primeira escola do país. Escreveu os ‘Diálogos sobre a Conversão do Gentio’, considerado o primeiro texto em prosa da literatura brasileira. 

Lutou contra a escravização dos índios quando quase ninguém na colônia entendia isso como problema. Convenceu portugueses a atravessarem a Serra do Mar e penetrarem no sertão. Solicitou ao rei a criação do primeiro bispado do Brasil.

E fez tudo isso sendo gago. 

A mesma gagueira que o impediu de ser professor da Universidade de Coimbra desaparecia quando pregava. Seus contemporâneos descreveram o fenômeno com espanto: o homem que tropeçava nas palavras na vida cotidiana tornava-se outro diante de uma congregação. Havia ali algo que não era apenas habilidade adquirida.

Séculos depois, em San Giovanni Rotondo, um frade capuchinho com chagas nas mãos enfrentava o peso de um corpo que cedia à dor. Mas na Missa, na confissão, no confessionário, o sofrimento dobrava-se diante de algo maior. Padre Pio e Nóbrega nunca se encontraram no tempo. Mas os dois conheceram o que significa ser instrumento de Deus com as próprias limitações ainda visíveis, e não apesar delas.

Nóbrega morreu em 18 de outubro de 1570, exatamente no dia em que completava 53 anos. Os cronistas jesuítas registraram que ele próprio havia previsto a data. Estava no Rio de Janeiro, no colégio que ajudara a erguer. Não morrendo como herói reconhecido, mas como religioso que havia dado tudo e não pedido nada em troca.

Nos próximos artigos desta série, vamos rever o que Nóbrega construiu cidade por cidade, alma por alma. Porque quem não conhece Nóbrega não conhece completamente o Brasil. 

E quem não conhece o Brasil não conhece toda a extensão do que a fé católica foi capaz de realizar neste continente.

Padre Pio costumava dizer que a missão de uma alma não termina com a morte. Talvez a de Nóbrega também não. Quem sabe ele ainda intercede por este Brasil que ajudou a construir e que insiste em não lembrar o seu nome. 

Brevemente, uma série de vídeos sobre Padre Manuel da Nóbrega no Canal Regina Fidei no YouTube. Inscreva-se e ative o sininho para ser avisado.

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