Minha Hipocrisia

A pobreza radical de Nóbrega, a batina rasgada e o lenço que escondia do governador

 

O governador estava a caminho. Nóbrega olhou para si mesmo. A batina, remendada tantas vezes que já não tinha cor definida. As mãos calejadas. E o pescoço. Sem camisa. Mais uma vez sem camisa.

Pegou o lenço. Enrolou-o com cuidado ao redor do pescoço, de modo que parecesse, à distância, que havia uma camisa por baixo da batina. O governador chegou. Cumprimentou o padre. Não percebeu nada.

Nóbrega esperou o visitante ir embora. Então olhou para o lenço e disse, com o humor seco de quem já não se ilude sobre si mesmo: ‘minha hipocrisia’.

Essa cena não é anedota. É retrato de um homem que levou a pobreza evangélica a um ponto que poucos dos seus contemporâneos ousaram chegar.

Nóbrega tinha nascido em família nobre. Seu pai era desembargador. Poderia ter vivido com conforto, com serviçais, com as conveniências que a sua posição social garantia. Escolheu não ter nada. E manteve essa escolha até morrer.

A batina era sempre a mesma. Remendada, costurada, emendada de novo. Quando chovia, a batina molhada pesava demais para um corpo que nos últimos anos estava constantemente doente. Nos dias de chuva, Nóbrega não aceitava cavalo. Não aceitava ser carregado. Ia a pé.

Seus aposentos eram de pobreza total. Não havia decoração, não havia móveis além do estritamente necessário. As cartas que escreveu ao longo da vida foram redigidas num quarto que os biógrafos descreveram como austero ao ponto de parecer cela de penitência.

A pobreza de Nóbrega não era masoquismo. Tinha uma lógica espiritual precisa.

Como provincial jesuíta no Brasil, Nóbrega tinha autoridade sobre todos os membros da missão. Era o superior. Podia, com alguma justificativa, usar mais recursos do que os outros. Recusou. Porque sabia que a autoridade espiritual não se funda no poder visível, mas na coerência entre o que se prega e o que se vive.

Um homem que pregava a um índio que não tinha nada precisava chegar a esse índio sem nada. Qualquer excesso visível criava uma distância que as palavras não conseguiam fechar. Nóbrega entendeu isso antes de desembarcar em Salvador. E viveu essa coerência até o fim.

O lenço ao pescoço era a única concessão. E mesmo nessa concessão havia autoconsciência: ele próprio a chamava de hipocrisia, com uma ironia que revela um homem de oração profunda, capaz de se olhar sem ilusões.

O corpo de Nóbrega foi se deteriorando ao longo dos anos no Brasil. O clima, as viagens constantes, as noites em locais sem condições, a alimentação precária foram deixando marcas. Nos últimos anos de vida, estava frequentemente enfermo. Havia períodos em que mal conseguia caminhar.

Mas continuava escrevendo. Continuava recebendo companheiros. Continuava administrando a missão. As últimas horas antes de morrer, em 18 de outubro de 1570, com apenas 53 anos de idade, foram dedicadas a escrever sugestões à Companhia de Jesus. Um homem agonizante, com a morte a horas de distância, preocupado em deixar orientações para os que viriam depois.

Não pediu comida melhor. Não pediu um quarto maior. Não pediu que fossem buscar um médico mais qualificado. Pediu papel e tinta.

Padre Pio usou durante décadas o mesmo hábito remendado. Os frades que viviam com ele em San Giovanni Rotondo contaram que ele resistia a qualquer substituição do hábito enquanto ainda havia como costurá-lo. Não por avareza. Por coerência. Um homem que pregava o desprendimento das coisas do mundo não podia apegar-se nem ao conforto de uma roupa nova.

O paralelo com Nóbrega é exato. Os dois viveram a pobreza não como obrigação de regra, mas como convicção de que o pregador é a primeira mensagem que o ouvinte recebe. Se o pregador cheira a luxo, a mensagem cheira a mentira.

O lenço que Nóbrega chamou de ‘minha hipocrisia’ é, talvez, o detalhe mais humano de toda a sua biografia. Porque revela um homem que tinha senso de humor sobre os próprios limites, mas não os usava como desculpa. Fazia o que podia, com o que tinha, e sabia a diferença entre o que era necessário e o que era vaidade.

Esse é o tipo de santidade que não cabe numa estátua dourada. Cabe numa batina rasgada e num lenço enrolado ao pescoço numa tarde quente do Brasil colonial.

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