Cinco lições de Fulton Sheen no dia de sua beatificação

Um dos maiores evangelizadores católicos do século XX será elevado hoje às honras dos altares

Hoje, 24 de setembro de 2026, a Igreja elevará às honras dos altares Dom Fulton John Sheen. A Missa de beatificação será celebrada pelo cardeal Luis Antonio Tagle, representante do papa Leão XIV, em Saint Louis, nos Estados Unidos.

Embora ainda seja pouco conhecido por muitos brasileiros, Fulton Sheen foi um dos maiores evangelizadores católicos do século XX. Seus programas de rádio e televisão alcançaram milhões de pessoas, seus livros foram traduzidos em diversos idiomas e suas conferências conduziram inúmeras almas à conversão.

Entretanto, reduzi-lo a um comunicador talentoso seria perder de vista o verdadeiro fundamento de seu apostolado. Fulton Sheen foi, antes de tudo, um sacerdote profundamente unido a Cristo, fiel à doutrina católica e convencido de que a grande crise do mundo moderno era, acima de tudo, espiritual.

No dia de sua beatificação, recordemos cinco grandes lições deixadas por ele.

 

1 – A verdade não muda para acompanhar o espírito do mundo

Fulton John Sheen nasceu em 8 de maio de 1895, no estado de Illinois, e foi ordenado sacerdote em 1919. Depois de aprofundar seus estudos de Filosofia e Teologia, tornou-se professor da Universidade Católica da América, em Washington.

Percebendo que os novos meios de comunicação poderiam servir à evangelização, começou a pregar pelo rádio e, posteriormente, pela televisão. Entrava nas casas de milhões de pessoas para falar de Deus, da alma, da família, do pecado, da conversão e da vida eterna.

Seu programa televisivo, Life Is Worth Living — Vale a pena viver — estreou em 1952. Diante das câmeras, Sheen aparecia com suas vestes episcopais e utilizava apenas um quadro-negro para explicar questões profundas da fé e da existência humana.

Em pouco tempo, tornou-se uma das personalidades mais conhecidas da televisão norte-americana. A televisão, porém, era apenas o instrumento. O centro de seu apostolado era a verdade que anunciava.

Sheen modernizou os meios, mas não modificou a mensagem. Para ele, a Igreja deveria conhecer o mundo moderno para evangelizá-lo, e não para ser absorvida por ele. Compreendia que a verdade não se torna falsa porque poucos a aceitam, assim como o erro não se transforma em verdade por ter sido aprovado pela maioria. Uma votação pode estabelecer uma lei humana, mas não pode modificar a lei de Deus.

Em um texto publicado em 1936, escreveu:

“A tolerância aplica-se às pessoas, mas nunca à verdade. A intolerância aplica-se à verdade, mas nunca às pessoas. Tolerância para com os que erram; intolerância para com o erro.”

As pessoas devem ser sempre tratadas com respeito, paciência e caridade. Amar alguém, entretanto, não significa aprovar todas as suas escolhas. Esse ensinamento é particularmente necessário numa época em que qualquer discordância moral pode ser interpretada como rejeição ou falta de misericórdia.

Fulton Sheen mostra que é possível amar sinceramente aquele que erra sem declarar verdadeiro aquilo que é falso ou bom aquilo que é moralmente mau. A caridade sem verdade degenera em sentimentalismo; a verdade sem caridade pode transformar-se em dureza. O cristão deve conservar a firmeza da verdade e a delicadeza do amor.

 

2 – A verdadeira misericórdia conduz à conversão

Outra advertência de Fulton Sheen diz respeito à falsa compaixão: uma piedade puramente sentimental que procura eliminar todo sofrimento imediato, mas não conduz o homem ao seu verdadeiro bem.

A verdadeira compaixão socorre aquele que sofre porque deseja sua salvação. A falsa compaixão, para evitar qualquer desconforto, pode deixá-lo prisioneiro do erro e do pecado.

Isso acontece quando o aborto é apresentado como solução compassiva para a mulher em dificuldades; quando a eutanásia é oferecida como resposta ao sofrimento dos doentes; ou quando as exigências morais do Evangelho são abandonadas em nome do acolhimento.

A falsa misericórdia diz: “Não existe pecado; você não precisa mudar”. A misericórdia de Cristo, ao contrário, perdoa o pecador e o chama a começar uma vida nova.

Jesus acolheu os pecadores, sentou-se à mesa com eles, tocou os doentes e defendeu os desprezados. Mas nenhum encontro verdadeiro com Jesus Cristo deixava a pessoa exatamente como estava.

Fulton Sheen não apresentava a religião como um tribunal frio, mas também não a reduzia à aprovação incondicional de todas as condutas. O perdão cristão pressupõe que existe algo a ser perdoado, e a misericórdia torna-se verdadeiramente libertadora quando rompe as cadeias do pecado.

Sem a verdade sobre o pecado, a Cruz torna-se incompreensível. Se o homem não necessita de redenção, a morte de Cristo perde seu significado. Quando reconhecemos nossa miséria, porém, o Calvário revela-se como a maior manifestação da misericórdia divina.

A Igreja, portanto, não ama menos quando chama o pecado pelo nome. Desde que o faça com humildade e caridade, age como mãe que não deseja a condenação de seus filhos, mas sua conversão e salvação.

 

3 – A paz da alma não nasce da negação do pecado

Em seu livro Peace of Soul — A paz da alma — Fulton Sheen analisou uma das grandes angústias do homem moderno: o desejo de eliminar o sentimento de culpa sem enfrentar aquilo que o produziu.

Sheen não desprezava a psicologia nem negava a existência de traumas, enfermidades emocionais ou sentimentos de culpa doentios. Reconhecia, porém, que também existe uma culpa moral verdadeira, nascida do mal livremente praticado.

Quando essa distinção é ignorada, todo remorso passa a ser tratado como problema psicológico, e a consciência deixa de ser considerada o lugar no qual o homem reconhece o bem e o mal.

Mas não se cura a consciência silenciando-a.

O homem pode justificar seus atos, culpar a sociedade, a educação, as circunstâncias ou outras pessoas. Embora esses fatores possam influenciar suas decisões e até diminuir sua responsabilidade, não eliminam automaticamente sua liberdade.

A paz verdadeira não nasce quando o homem se convence de que nunca pecou. Nasce quando reconhece humildemente sua falta, pede perdão e recebe a graça de recomeçar.

Aqui aparece toda a importância do sacramento da Confissão. No confessionário, o pecador não encontra apenas um conselheiro encarregado de confirmar suas escolhas. Encontra Jesus Cristo, que conhece a verdade de sua vida, perdoa seus pecados e lhe oferece uma existência renovada.

O mundo costuma dizer: “Aceite-se como está”. Cristo oferece algo muito maior: deixe-se transformar pela graça.

Para Fulton Sheen, a santidade não começa com a ilusão de nossa inocência, mas com o reconhecimento humilde de que necessitamos de um Salvador. Quando corretamente formada, a consciência é uma luz que mostra o caminho do arrependimento e conduz à paz que somente o perdão de Deus pode oferecer.

 

4 – A liberdade não consiste em obedecer a todos os desejos

Fulton Sheen combateu a ideia de que ser livre significa poder fazer tudo aquilo que se deseja. A liberdade cristã não é ausência de direção ou de limites: é a capacidade de escolher conscientemente o verdadeiro bem.

Um músico não se torna mais livre por ignorar as regras da música. É justamente o domínio dessas regras, alcançado mediante disciplina e esforço, que lhe permite tocar com liberdade.

Da mesma forma, uma pessoa dominada pela ira, pelo orgulho, pela sensualidade, pela inveja ou pela ambição não é verdadeiramente livre. Pode fazer aquilo que deseja em determinado momento, mas tornou-se escrava do próprio desejo.

A moral cristã não é um conjunto arbitrário de proibições destinadas a diminuir a felicidade humana. Os Mandamentos protegem os bens fundamentais sem os quais o homem acaba destruindo a si mesmo e aos outros.

Essa compreensão possui consequências importantes para o matrimônio. Em Three to Get Married — Três para se casar — Sheen recorda que o casamento cristão não envolve somente um homem e uma mulher: existe um terceiro, Deus.

Quando Deus é excluído, os esposos podem exigir um do outro uma felicidade absoluta que nenhuma criatura consegue proporcionar. O casamento corre então o risco de se transformar em um contrato mantido apenas enquanto oferece satisfação emocional.

Para Sheen, o matrimônio é uma aliança permanente, aberta à vida e orientada para a santificação dos esposos. Amar não é apenas sentir atração: é desejar o bem do outro, permanecer fiel, perdoar, perseverar e aprender a sacrificar-se.

A liberdade não consiste em manter para sempre todas as possibilidades abertas. Algumas das escolhas mais livres e nobres são justamente aquelas pelas quais alguém se compromete definitivamente: a fidelidade matrimonial, a vida religiosa, o sacerdócio e a entrega total a Deus.

 

5 – Não existe cristianismo sem a Cruz e sem a Eucaristia

Talvez a lição mais profunda de Fulton Sheen seja também uma das mais difíceis para o mundo contemporâneo: não existe verdadeiro cristianismo sem a Cruz.

A religião não é uma técnica para evitar todo sofrimento, aumentar a autoestima ou alcançar sucesso. Cristo não prometeu aos discípulos uma vida sem provações. Pediu-lhes que tomassem diariamente a cruz e o seguissem.

Isso não significa procurar o sofrimento nem permanecer passivamente diante de males que podem ser evitados. Significa reconhecer que o verdadeiro amor sempre exige renúncia, fidelidade e sacrifício.

Os pais sacrificam-se pelos filhos; os esposos, um pelo outro; o sacerdote renuncia a formar sua própria família para se entregar a Deus e às almas. Os santos renunciam a coisas legítimas para alcançar um bem maior.

Fulton Sheen não ensinava essa verdade somente com palavras. Desde sua ordenação, assumiu o compromisso de fazer diariamente uma Hora Santa diante do Santíssimo Sacramento. Conservou essa resolução durante toda a vida.

Nem as viagens, nem os programas de televisão, nem as conferências o fizeram abandonar essa prática. Sheen chamava esse período de oração de sua “hora de poder”.

Diante de Nosso Senhor, preparava sua inteligência, examinava a própria consciência e recebia forças para ensinar a verdade, mesmo quando ela contrariava as ideias dominantes. Antes de falar às multidões, Fulton Sheen colocava-se de joelhos diante do Sacrário.

Cultivava também profunda devoção a Nossa Senhora. Sua mãe o consagrou à Virgem Maria depois do Batismo, e ele renovou pessoalmente essa entrega no dia de sua Primeira Comunhão.

Em 1951, foi nomeado bispo auxiliar de Nova York. Posteriormente, tornou-se bispo de Rochester e, em 1969, recebeu de São Paulo VI o título pessoal de arcebispo. Faleceu em 9 de dezembro de 1979, aos 84 anos.

Sua vida demonstra que métodos, recursos e meios de comunicação podem ser úteis, mas jamais substituem a vida interior. A verdadeira renovação da Igreja começa diante do Santíssimo Sacramento, com almas dispostas à conversão e à santidade.

 

O milagre que abriu o caminho para a beatificação

A causa de beatificação e canonização de Fulton Sheen foi aberta em 2002. Dez anos depois, o papa Bento XVI reconheceu que ele havia vivido as virtudes cristãs em grau heroico e concedeu-lhe o título de venerável.

O milagre que permitiu sua beatificação ocorreu em setembro de 2010 e envolveu James Fulton Engstrom, um bebê que nasceu sem apresentar batimentos cardíacos ou respiração.

Enquanto os médicos tentavam reanimá-lo, seus pais, Bonnie e Travis Engstrom, e outras pessoas começaram a pedir insistentemente a intercessão de Fulton Sheen.

A criança permaneceu durante 61 minutos sem sinais vitais. Contra todas as expectativas médicas, seu coração voltou a bater. James sobreviveu e não apresentou as graves sequelas neurológicas esperadas depois de tanto tempo sem pulso.

O caso foi examinado por médicos, teólogos, bispos e cardeais da então chamada Congregação para as Causas dos Santos. Em 2019, o papa Francisco autorizou o decreto que reconheceu oficialmente o milagre atribuído à intercessão de Fulton Sheen.

Para uma futura canonização, será necessário o reconhecimento de outro milagre ocorrido por sua intercessão depois da beatificação.

 

Um mestre para nosso tempo

A beatificação de Fulton Sheen não é apenas uma homenagem a uma personalidade célebre do catolicismo norte-americano. A Igreja o apresenta aos fiéis como intercessor e exemplo de vida cristã.

Sheen foi um homem de seu tempo, mas não se deixou aprisionar pelas ideias dominantes. Utilizou os meios mais modernos à sua disposição sem modificar a verdade para torná-la moderna. Falou ao mundo sem pertencer ao mundo.

Seu pensamento também não pode ser reduzido às divisões políticas atuais. Denunciou o comunismo, o nazismo e o materialismo, mas criticou igualmente o egoísmo, a indiferença diante dos pobres e a transformação do dinheiro em ídolo. Defendeu a liberdade, mas advertiu que ela se destrói quando é separada da verdade. Pregou a misericórdia, mas jamais a confundiu com a aprovação do pecado.

Acima de tudo, ensinou que a crise da humanidade é espiritual. Quando o homem rejeita Deus, logo passa a atribuir valor absoluto ao prazer, ao dinheiro, ao Estado, à ideologia, à política ou a si mesmo. Esses falsos deuses prometem liberdade, mas terminam exigindo submissão.

Fulton Sheen apontou outro caminho: a verdade que não muda, a misericórdia que conduz à conversão, a liberdade orientada para o bem, o amor que aceita o sacrifício e a paz encontrada aos pés da Cruz.

Hoje, quando a Igreja passar a chamá-lo de Beato Fulton Sheen, não estaremos apenas recordando uma grande voz do passado.

Estaremos recebendo um mestre para o nosso tempo.

Beato Fulton Sheen, rogai por nós!


Fontes consultadas:
Fundação Arcebispo Fulton John Sheen; Diocese de Peoria; Arquidiocese de Saint Louis; Dicastério para as Causas dos Santos; Universidade Católica da América; Peace of Soul; Three to Get Married; textos e conferências de Fulton J. Sheen.

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