Padre Pio: o homem que obrigou o século das máquinas a olhar para o Calvário

No dia de sua festa, uma homenagem a um santo que tornou visível aquilo que o homem moderno preferia esquecer.

Hoje a Igreja celebra São Pio de Pietrelcina. Para mim, esta data não pode ser apenas a lembrança piedosa de um santo admirável. 

Ela traz uma pergunta que se torna mais insistente quanto mais se conhece sua vida: por que Padre Pio? Por que justamente no século XX? E por que, mais de meio século depois de sua morte, sua presença continua tão viva para milhões de católicos?

Não pretendo decifrar os desígnios de Deus. A Providência não cabe em nossas fórmulas. Mas os santos aparecem dentro da História, e a vida deles pode lançar uma luz particular sobre as necessidades do tempo em que viveram.

Padre Pio atravessou o coração do século XX, um século fascinado pelo progresso e, ao mesmo tempo, ferido por guerras, totalitarismos, perseguições, crises espirituais e uma crescente secularização. Foi uma época capaz de colocar nas mãos do homem poderes que as gerações anteriores nem sequer imaginavam.

E foi também uma época em que muitos começaram a agir como se Deus, a alma, o pecado e a eternidade fossem assuntos de um passado superado.

É nesse cenário que a figura de Padre Pio se torna impressionante.

No momento em que o homem moderno se habituava a confiar apenas no que podia medir, calcular e controlar, uma pequena cidade do sul da Itália tornou-se destino de multidões atraídas por um frade capuchinho. 

Padre Pio não apresentou ao mundo uma teoria nova. A força de sua mensagem vinha de realidades antigas e essencialmente católicas: o altar, o confessionário, o Rosário, a penitência, a obediência, a Cruz.

Durante décadas, seu próprio corpo carregou os estigmas da Paixão. Sua jornada girava em torno da Santa Missa, da oração e do sacramento da Confissão.

João Paulo II, ao canonizá-lo, resumiu sua vida a partir da Cruz e recordou que o sofrimento aceito por amor pode transformar-se em caminho de santidade. Paulo VI, falando sobre a extraordinária atração que Padre Pio exercia, apontou para algo muito simples: era um homem de oração e sofrimento, um sacerdote que celebrava a Missa humildemente e passava longas horas ouvindo confissões.

Talvez seja exatamente aqui que começamos a compreender por que Padre Pio fala com tanta força ao homem contemporâneo.

Os sinais extraordinários de sua vida jamais deveriam nos fazer perder de vista o essencial. As chagas apontavam para Jesus Crucificado. O confessionário apontava para a realidade do pecado e para a grandeza da misericórdia.

A Missa apontava para o Sacrifício do Calvário tornado sacramentalmente presente. Sua obediência apontava para uma santidade que não nasce da vontade de fazer tudo à própria maneira. Sua vida de oração lembrava que a Igreja não se sustenta apenas por estruturas, planos e iniciativas humanas.

Padre Pio levava Deus a sério.

E porque levava Deus a sério, levava o pecado a sério. Levava a Confissão a sério. Levava a Eucaristia a sério. Levava a salvação das almas a sério.

Talvez este seja um dos choques mais profundos entre Padre Pio e a nossa época.

Hoje carregamos no bolso acesso a uma quantidade de informação que nenhuma geração anterior possuiu. Conseguimos respostas em segundos, atravessamos oceanos em horas, prolongamos a vida, comunicamo-nos instantaneamente e desenvolvemos tecnologias que parecem deslocar todos os limites.

Entretanto, nenhuma tecnologia consegue responder por nós às perguntas decisivas: para que vivo? O que faço com a minha culpa? Como atravesso o sofrimento? O que acontece depois da morte? Em que estado está a minha alma diante de Deus?

Padre Pio nos obriga a voltar a essas perguntas.

Poucos anos depois de sua morte, Paulo VI usaria a famosa imagem da “fumaça de Satanás” para descrever a dúvida, a incerteza, a inquietação e a perda de confiança que percebia dentro da própria Igreja. 

«Tenho a sensação de que, por alguma fissura, entrou a fumaça de Satanás no templo de Deus.»  

A frase costuma ser repetida isoladamente, mas o contexto a torna ainda mais séria: o Papa falava de uma crise espiritual, de uma consciência que começava a duvidar justamente onde deveria procurar luz.

Padre Pio atravessou esse tempo com uma resposta que não dependia de modismos. Dependia de fé, oração, Confissão, Eucaristia, sacrifício, obediência e amor às almas.

Há, porém, um risco quando contemplamos um santo tão extraordinário. Podemos admirá-lo de tal maneira que acabamos colocando-o a uma distância segura de nós mesmos. Padre Pio recebeu graças excepcionais. Nós, então, poderíamos concluir que sua vida pertence a uma categoria inacessível.

Seria uma conclusão confortável demais.

A Igreja nunca ensinou que a santidade é reservada a pessoas marcadas por fenômenos místicos. Existem santos escondidos em mosteiros, em paróquias, em famílias, em hospitais, em salas de aula e em escritórios. Existem santos contemplativos e homens de ação, sacerdotes e leigos, intelectuais e pessoas muito simples. Os dons extraordinários de Padre Pio não são aquilo que devemos tentar imitar.

O que está ao nosso alcance é a seriedade com que ele respondeu a Deus.

Podemos rezar. Podemos nos confessar. Podemos participar da Missa com maior fé. Podemos combater nossos pecados habituais. Podemos oferecer nossos sofrimentos unidos à Cruz de Jesus Cristo.

Podemos cumprir nossos deveres. Podemos praticar a caridade. Podemos defender a fé sem abandonar a humildade. Podemos pedir a graça da perseverança final. 

Por isso, quando me pergunto por que Padre Pio apareceu justamente no século XX, a resposta que encontro é esta: porque o nosso tempo precisava de uma testemunha extraordinariamente visível de realidades eternas que começava a esquecer.

Deus nunca deixou a Igreja sem santos. Muitos permaneceram quase desconhecidos do grande público. Padre Pio, ao contrário, tornou-se conhecido em toda parte. Seu confessionário atraiu multidões.

Sua Missa atraía peregrinos. Suas feridas provocaram exames, perguntas, devoção e controvérsias. Sua própria existência impedia que o sobrenatural fosse tratado apenas como uma abstração confortável.

Um homem ferido, escondido durante quase toda a vida em um convento do Gargano, obrigou o século das máquinas a voltar os olhos para o Calvário.

É difícil imaginar uma contradição mais eloquente.

Hoje, ao celebrar sua festa, quero fazer mais do que prestar uma homenagem. Quero pedir uma graça.

Padre Pio, ensine-nos a levar Deus a sério.

Ensine-nos a amar a Santa Missa, a procurar a Confissão sem desculpas, a rezar quando tudo parece escuro, a carregar a cruz sem revolta e a desejar verdadeiramente a salvação das almas. Ensine-nos a ser fiéis quando a fidelidade custa. Ensine-nos a conservar a fé quando o mundo inteiro parece dizer que aquilo em que acreditamos já não importa.

Não permita que sua festa se transforme apenas numa recordação piedosa de um santo do passado.

E, sobretudo, ensine-nos a ser mais de Nossa Senhora.  

Leve-nos para junto dAquela a quem a piedade católica invoca como Medianeira de todas as graças, para que aprendamos a viver sob seu olhar, a confiar em sua intercessão e a colocar em suas mãos tudo aquilo que ainda reservamos para nós mesmos. 

Que sejamos mais dEla, mais dóceis à sua voz, mais fiéis ao seu Rosário, mais prontos a seguir seu exemplo de humildade, pureza e abandono à vontade de Deus. E que Nossa Senhora nos obtenha a graça maior: pertencermos inteiramente a seu Divino Filho, sem reservas, sem cálculos e sem voltar atrás. 

Padre Pio não pertence apenas ao passado.

Enquanto o homem continuar precisando de perdão, enquanto existir sofrimento, enquanto houver pecado, enquanto houver almas que precisam voltar para Deus e enquanto a Cruz de Cristo permanecer no centro da História, a missão de Padre Pio continuará atual.

Talvez seja por isso que Deus o deu ao nosso tempo.

Para nos lembrar de coisas que nenhuma revolução, nenhuma ideologia, nenhum progresso e nenhuma tecnologia podem abolir:

Deus existe.

A alma existe.

O pecado existe.

A graça existe.

A Cruz existe.

E a eternidade existe.

Padre Pio continua sendo, para a nossa época, uma advertência e uma esperança. Uma advertência para um mundo tentado a viver como se Deus não existisse; uma esperança para todos aqueles que ainda querem levantar os olhos para o Calvário e encontrar, na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, o caminho de volta para Deus. 

Odair Gutirres
Presidente da Associação Regina Fidei

 

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