As antigas coroas de contas e a devoção de Padre Pio ao Anjo da Guarda

Uma pequena coroa de contas passa devagar entre os dedos.
Um grão. Um Pai-Nosso. Outro grão. Um Gloria Patri.
Ninguém sabe quem a segurou. Pode ter sido uma religiosa num mosteiro. Pode ter sido uma mãe com um filho doente. Pode ter sido um homem tentado, numa noite sem sono.
Sabemos o que aquelas contas faziam. Elas colocavam os anjos na oração de pessoas comuns.
Hoje a Igreja continua a celebrar São Miguel, São Gabriel e São Rafael. Continua a festejar os Santos Anjos da Guarda, no dia 2 de outubro. Continua a ensinar, no Catecismo, que a existência dos anjos é verdade de fé e que a vida humana é cercada por sua proteção.
Mas fica uma pergunta.
Quando foi a última vez que você falou com o seu?
UMA ORAÇÃO NASCIDA NO SÉCULO XIII
A história dessas coroas começa longe, no mosteiro de Helfta, na Alemanha.
Ali viveu Santa Matilde de Hackeborn, entre 1241 e 1298. Bento XVI dedicou a ela a audiência geral de 29 de setembro de 2010 e a situou entre as grandes figuras do monaquismo alemão do século XIII.
Sua vida espiritual ficou registrada no Liber Specialis Gratiae, o Livro da Graça Especial. Quem o escreveu foram suas irmãs de hábito, que anotaram o que ela lhes confiava. Matilde só soube disso depois.
A tradição devocional atribui a ela uma prática simples em honra dos nove coros angélicos: nove Pai-Nosso, um para cada coro.
É preciso dizer com clareza o que temos aqui. A vida e a obra de Santa Matilde são documentadas. A ligação exata entre ela e os nove Pai-Nosso das coroas posteriores nos chegou por autores devocionais, e por isso a apresentamos como tradição, não como fato provado por documento do século XIII.
O centro da prática merece atenção. Não havia fórmula secreta. Havia o Pai-Nosso, a oração que o próprio Cristo ensinou.
Isso já mostra o que é uma devoção católica aos anjos. Ela passa pelos anjos e termina em Deus.
O QUE OS SÉCULOS DEIXARAM POR ESCRITO
Com o século XVII, os documentos ficam mais firmes.
Em 1648, o médico francês Lazare Meyssonnier publicou La Philosophie des Anges. A obra registra uma pequena coroa dos anjos, o chapelet des anges, associada ao jesuíta Paul de Barry.
Nos grãos maiores, o Gloria Patri. Nos menores, o Angele Dei. E os nove Pai-Nosso em lembrança dos nove coros.
Pouco antes, entre o fim do século XVI e o começo do XVII, o dominicano Serafino Razzi mencionava uma Corona de gli Angeli, de nove Ave-Marias com nove bênçãos.
São práticas parecidas, mas não idênticas, e não convém afirmar sem provas que uma gerou a outra. O conjunto já diz o bastante: durante séculos, católicos de países diferentes buscaram um jeito concreto de rezar com os anjos.
O número nove volta sempre. Vem da tradição dos nove coros angélicos.
E a forma da oração explica por que ela durou. A mão segura o grão. A boca reza. A memória acompanha. A atenção fica presa a uma verdade que o barulho da vida faz esquecer.
A ATENÇÃO É O BEM MAIS DISPUTADO DO NOSSO TEMPO
O telefone vibra. Chega uma mensagem. Chega outra. Uma notícia empurra a anterior.
As antigas devoções faziam o caminho oposto. Elas obrigavam a ficar.
Um Pai-Nosso inteiro. Uma Ave-Maria inteira. A oração ao Anjo da Guarda, do começo ao fim.
Rezar assim recoloca na cabeça o que a fé afirma. Deus existe. O mundo visível não é toda a realidade. Os anjos existem. A Providência nos acompanha.
Por isso as coroas antigas voltam a falar conosco. Elas eram remédio contra o esquecimento, e o esquecimento é o nosso problema.
O ANJO DE PADRE PIO
Poucos santos do século XX viveram tão perto do mundo angélico quanto Padre Pio.
Frei Alessio Parente, capuchinho que foi seu assistente pessoal, escreveu um livro inteiro sobre isso: Send Me Your Guardian Angel, publicado e distribuído pelo National Centre for Padre Pio, nos Estados Unidos. O tema é a relação do santo com o seu próprio Anjo da Guarda e com os anjos dos seus filhos espirituais.
Padre Pio recomendava a seus dirigidos que recorressem ao Anjo da Guarda. E entre os seus filhos espirituais se difundiu o conselho que ficou famoso: quando precisassem dele, que lhe enviassem o Anjo da Guarda.
Aqui vale a mesma honestidade das páginas anteriores. Muitos episódios extraordinários chegaram até nós por testemunhas e biógrafos, e cada um tem o peso da sua fonte. Mas há algo que não depende de nenhum episódio. A devoção ao Anjo da Guarda ocupou um lugar real na vida espiritual de Padre Pio, e quem viveu perto dele o testemunha.
Sua devoção a São Miguel também é conhecida. Em 1917, ele peregrinou ao santuário de São Miguel Arcanjo, no Monte Gargano. E recomendava a peregrinos e penitentes que recorressem à intercessão do Arcanjo.
Repare na data dessa história. Padre Pio morreu em 23 de setembro de 1968. Conheceu trens, automóveis, aviões, rádio e duas guerras mundiais.
Para ele, o Anjo da Guarda era um companheiro real, e ele o tratava assim.
A PERGUNTA QUE FICA
Muitos de nós aprendemos a oração do Santo Anjo ainda pequenos. Talvez ainda a saibamos de cor.
Mas quando foi a última vez que agradecemos a Deus por esse companheiro? Quando foi a última vez que recorremos a São Miguel numa tentação?
Dá para crer nos anjos com a cabeça e viver como se eles não existissem. As coroas antigas desfaziam essa distância.
DEVOÇÃO AOS ANJOS, SIM. MAS CATÓLICA
Hoje “anjo” virou palavra solta. Livrarias e redes sociais misturam anjos com energias, horóscopo, vibrações, técnicas de manifestação e mensagens que diriam vir do além. Nada disso tem relação com a fé da Igreja.
O Catecismo ensina que os anjos são criaturas espirituais, pessoais e imortais, dotadas de inteligência e vontade. Contemplam a Deus, servem a Deus e participam da missão de salvação. São criaturas de Deus, do começo ao fim.
A própria Santa Sé teve de lembrar isso. Em 2011, ao tratar da espiritualidade do Opus Angelorum, a Congregação para a Doutrina da Fé recordou a doutrina do Catecismo e a base da devoção: Sagrada Escritura, Tradição e Magistério. Deixou claro que teorias sobre nomes pessoais, grupos e funções dos anjos, vindas de supostas revelações privadas, são estranhas à Escritura e à Tradição.
Esse é o terreno seguro. Fora dele há dois erros. Um deles é esquecer os anjos, como se fossem enfeite de uma época antiga. O outro é buscar neles uma espiritualidade paralela ao Evangelho.
A fé católica recusa os dois.
NÃO CAMINHAMOS SOZINHOS
Imagine outra vez aquela coroa antiga. Seus grãos podem ter sumido há séculos. Aquilo que ela ajudava a lembrar continua de pé.
A Igreja ainda professa a fé nos santos anjos. São Miguel ainda é invocado. A oração ao Anjo da Guarda ainda é rezada em milhões de casas.
E Padre Pio continua dizendo ao homem de hoje o que os cristãos de outros séculos sabiam sem esforço: você não caminha só.
Hoje mesmo, antes de dormir, reze a oração ao seu Anjo da Guarda. Devagar. Do começo ao fim.
Ele já está ao seu lado.
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FONTES E REFERÊNCIAS
- Catecismo da Igreja Católica, §§ 328 a 336 e 350 a 352.
- Bento XVI, Audiência Geral de 29 de setembro de 2010, Santa Matilde de Hackeborn (vatican.va).
- Congregação para a Doutrina da Fé, Carta Circular de 2 de outubro de 2010 e Nota sobre o Opus Angelorum, 16 de março de 2011 (vatican.va).
- Decreto Litteris diei da Congregação para a Doutrina da Fé, 6 de junho de 1992, sobre o Opus Angelorum.
- Mechthild von Hackeborn, Liber Specialis Gratiae (Livro da Graça Especial).
- Lazare Meyssonnier, La Philosophie des Anges, Lyon, 1648.
- Serafino Razzi, referências à Corona de gli Angeli (fim do século XVI e início do XVII).
- Frei Alessio Parente, O.F.M. Cap., Send Me Your Guardian Angel, National Centre for Padre Pio.
- National Centre for Padre Pio, material sobre a devoção a São Miguel Arcanjo.
- Epistolário de Padre Pio, referências ao Anjo da Guarda.




