Separado de seu diretor espiritual, ordenado a deixar San Giovanni Rotondo e impedido de confessar, Padre Pio permaneceu fiel à Igreja.

Padre Pio foi separado de seu diretor espiritual, recebeu a ordem de deixar o convento onde vivia e chegou a ser impedido de confessar e celebrar a Missa diante dos fiéis.
Em meio a acusações injustas, difamações e calúnias, Padre Pio sofreu, chorou e nem sempre compreendeu as decisões recebidas.
Ainda assim, não se revoltou contra seus superiores nem permitiu que seus filhos espirituais se colocassem contra eles.
Assim como Jesus rezou por aqueles que o perseguiam, Padre Pio rezou por seus acusadores e permaneceu fiel à Igreja.
Três episódios mostram como essa obediência permaneceu firme quando foi duramente provada.
1. Quando foi separado de seu diretor espiritual — 1922
Em 2 de junho de 1922, o Santo Ofício determinou diversas restrições ao ministério de Padre Pio.
Entre elas, estavam:
- não mostrar os estigmas nem permitir que fossem beijados;
- celebrar a Missa sem horário fixo e, de preferência, em privado;
- não abençoar as multidões;
- receber outro diretor espiritual e interromper toda comunicação, inclusive por cartas, com Padre Benedetto de San Marco in Lamis.
Essa última determinação foi particularmente dolorosa.
Em uma carta de 1912, Padre Pio referiu-se a Padre Benedetto como:
“Um pai generoso, que me ofereceu sua mão protetora e se dignou chamar-me seu filho.”
Na mesma carta, confessou que não poder abrir-lhe a alma significava perder o “único conforto” que ainda lhe restava.
A ordem foi cumprida com rigor. Padre Pio e Padre Benedetto interromperam toda comunicação e nunca mais se encontraram.
Padre Benedetto morreu em 1942, vinte anos depois da separação.
Ao mesmo tempo em que os estigmas de Padre Pio se tornavam conhecidos e surgiam relatos de milagres, acumulavam-se denúncias, acusações e pareceres médicos contraditórios.
As autoridades da Igreja decidiram investigar o caso e limitar a exposição pública do frade.
Padre Pio cumpriu cada uma das determinações.
Um relato conta que um médico de Chicago atravessou os Estados Unidos de trem, passou vários dias viajando de navio e ainda percorreu parte da Itália para examinar os estigmas.
Quando finalmente chegou a San Giovanni Rotondo, Padre Pio não mostrou as marcas.
“Que pena que fez essa longa viagem, mas, como religioso, tenho de obedecer.”
O médico voltou aos Estados Unidos sem ter visto os estigmas. Entretanto, reconheceu:
“Isso me impressionou mais do que ver os estigmas.”
2. Quando recebeu a ordem de deixar San Giovanni Rotondo — 1923
Em 30 de julho de 1923, Padre Pio recebeu a ordem de deixar San Giovanni Rotondo e seguir para o convento de Cingoli, pertencente à província capuchinha de Ancona.
A medida significaria abandonar o convento onde vivia desde 1916, afastar-se de seus filhos espirituais e deixar o lugar onde exercia seu ministério.
Ao receber a notícia, Padre Pio abaixou a cabeça e respondeu ao superior:
“Eis-me à sua disposição; partamos imediatamente. Quando estou com o superior, estou com Deus.”
A população, porém, reagiu. Formaram-se protestos e grupos de vigilância ao redor do convento. O clima tornou-se tão tenso que as autoridades temeram graves tumultos caso tentassem retirar Padre Pio da cidade.
O próprio frade ficou preocupado com as consequências daquela agitação.
Em 12 de agosto, escreveu ao prefeito Francesco Morcaldi.
Na carta, pediu que a população não impedisse a execução da ordem.
Declarou que a vontade de seus superiores era, para ele, a vontade de Deus, “à qual obedecerei cegamente”.
Padre Pio demonstrou seu carinho pelo povo de San Giovanni Rotondo, mas não permitiu que esse afeto fosse usado contra seus superiores.
Pediu que a decisão fosse respeitada e chegou a oferecer sobre si qualquer sofrimento necessário para evitar acontecimentos graves na cidade.
No dia 17 de agosto, diante do risco para a segurança pública, as próprias autoridades eclesiásticas suspenderam a transferência.
Padre Pio estava pronto para deixar o lugar onde desejava viver e morrer. Sua obediência havia sido decidida antes mesmo de saber se a transferência realmente aconteceria.
3. Quando foi impedido de confessar e celebrar publicamente — 1931
Essa foi provavelmente uma das provas mais dolorosas de sua vida sacerdotal.
Em 23 de maio de 1931, o Santo Ofício determinou que Padre Pio fosse privado de praticamente todo o exercício público do ministério.
A decisão chegou ao convento na noite de 9 de junho.
Ele não poderia mais atender confissões, orientar publicamente os fiéis nem celebrar a Missa diante do povo.
A única permissão conservada foi a de celebrar em uma pequena capela dentro do convento, com a presença apenas de um ajudante.
Depois das Vésperas, o superior, Padre Raffaele da Sant’Elia a Pianisi, chamou Padre Pio e leu a determinação.
Segundo o testemunho do próprio superior, Padre Pio levantou os olhos e respondeu:
“Seja feita a vontade de Deus!”
Em seguida, cobriu o rosto com as mãos, abaixou a cabeça e permaneceu em silêncio.
Padre Raffaele tentou consolá-lo. Pouco depois, Padre Pio voltou ao coro do convento e permaneceu em oração até depois da meia-noite.
Durante anos, Padre Pio havia passado longas horas no confessionário.
Homens e mulheres viajavam grandes distâncias para confessar os pecados, receber uma orientação e recomeçar a vida cristã.
De repente, a porta do confessionário se fechou.
Ao conversar com Padre Agostino, em julho daquele ano, Padre Pio explicou onde estava sua maior dor:
“É pelas almas que sinto a dor desta prova.”
Ele sofria por estar impedido de exercer o ministério ao qual havia entregado a vida.
Mesmo assim, nenhuma palavra de revolta contra a Igreja saiu de sua boca. Quando alguém criticava os responsáveis pela decisão, Padre Pio repreendia e recordava que era preciso reconhecer a vontade de Deus nos legítimos superiores.
Na manhã de 11 de junho, começou a celebrar na capela interna.
A porta era fechada para impedir a entrada de qualquer outra pessoa. O diário de Padre Agostino registra que Padre Pio seguia a determinação com extremo cuidado, sem procurar brechas para amenizá-la.
Durante mais de dois anos, sua vida ficou limitada à cela, à biblioteca, ao coro e à pequena capela do convento.
Em 16 de julho de 1933, voltou a celebrar publicamente. A autorização para ouvir confissões retornou aos poucos: primeiro as dos homens, em março de 1934, e depois as das mulheres, em maio daquele ano.
A obediência em nossa vida
Esses três episódios mostram que a obediência de Padre Pio não foi uma virtude abstrata. Ela atingiu justamente aquilo que lhe era mais caro: seus vínculos espirituais, o lugar onde desejava permanecer e o próprio exercício de seu ministério sacerdotal.
Obedecer quando existe concordância é relativamente simples. A verdadeira provação começa quando a ordem contraria os próprios desejos, desfaz planos e exige confiança sem oferecer todas as explicações.
Padre Pio viveu essa virtude de maneira extraordinária.
Ele não deixou de sofrer. Chorou, sentiu a ausência de seu diretor espiritual, temeu pela população de San Giovanni Rotondo e sofreu ao ver o confessionário fechado.
Ainda assim, recusou-se a transformar sua dor em revolta. Também não permitiu que seus filhos espirituais fossem colocados contra a Igreja em sua defesa.
As determinações recebidas, embora muito penosas, não lhe ordenavam nada contrário à lei de Deus. Eram medidas disciplinares dadas por autoridades legítimas, e ele decidiu recebê-las com espírito de fé.
A biografia publicada pelo Vaticano resume sua atitude afirmando que sua obediência foi “sobrenatural na intenção, universal na extensão e integral no cumprimento”.
Padre Pio obedeceu quando isso lhe custou a companhia de quem o havia formado.
Obedeceu quando precisou aceitar a possibilidade de deixar o lugar que amava.
Obedeceu quando lhe fecharam o confessionário e o afastaram dos fiéis.
Foi justamente quando mais doeu que sua obediência se tornou uma das maiores provas de sua santidade.
PIO DA PIETRELCINA. Epistolario I: Corrispondenza con i direttori spirituali (1910–1922). Organização de Melchiorre da Pobladura e Alessandro da Ripabottoni. San Giovanni Rotondo: Edizioni Padre Pio da Pietrelcina, 1995.
PORTALE UFFICIALE DI PADRE PIO DA PIETRELCINA. Le tremende prove sopportate da Padre Pio.
PORTALE UFFICIALE DI PADRE PIO DA PIETRELCINA. Comincia la segregazione di Padre Pio.
FONDAZIONE VOCE DI PADRE PIO. Padre Benedetto Nardella da San Marco in Lamis.
TELE RADIO PADRE PIO. Padre Pio modello di obbedienza.
OPERA PADRE PIO. “Le mie ossa siano composte in un tranquillo cantuccio di questa terra”.
COMUNIDADE OLHAR MISERICORDIOSO. Os exemplos de São Padre Pio. Fonte secundária utilizada para o relato do médico de Chicago.




