A Mulher que Recebeu as Chagas de Cristo em Uma Casa Pobre de Ohio

Ela era esposa de um alcoólatra, vivia perto do lixão da cidade e carregava um tumor de dezoito quilos. Foi ali, no fundo da miséria, que Cristo escolheu marcar seu corpo com as próprias feridas.

 

Por trinta anos, uma casa simples na periferia de Canton, Ohio, recebeu filas de peregrinos. Ninguém ia até lá por turismo. Iam porque, dentro daquelas paredes, uma mulher comum havia recebido o que poucos santos na história da Igreja receberam: as chagas visíveis de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Rhoda Wise nasceu em 1888, filha de um pedreiro, criada numa família protestante. A vida não foi generosa com ela. Perdeu o primeiro marido seis meses depois do casamento. Casou de novo com um homem alcoólatra. Adotou duas filhas, uma delas morreu ainda bebê. Viveu em sete endereços diferentes, sempre à beira da pobreza.

 

E então veio a doença. Um cisto ovariano de dezoito quilos. Infecções graves depois da cirurgia. Um ferimento no pé que os médicos declararam incurável. Rhoda passou anos sem conseguir dormir, quase sem conseguir andar.

 

Uma conversão nascida da dor

 

Foi hospitalizada por freiras católicas, e ali, entre uma cirurgia e outra, aprendeu a rezar o terço. Aproximou-se de Santa Teresinha do Menino Jesus, cuja espiritualidade simples falava diretamente ao seu sofrimento. Converteu-se ao catolicismo.

 

Em 28 de maio de 1939, algo mudou. Rhoda relatou uma cura súbita e inexplicável do câncer que a consumia, e da ferida que os médicos já haviam desistido de tratar. A notícia correu pela vizinhança. Centenas de pessoas começaram a procurar sua casa, semana após semana, pedindo oração.

 

Mas o mais impressionante ainda estava por vir. A partir de 1942, Rhoda começou a receber visitas de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Santa Teresinha de Lisieux. E, por dois anos e meio, todos os dias entre meio-dia e três da tarde, as chagas de Cristo se manifestavam visivelmente em suas mãos e em seus pés.

 

Era, segundo o testemunho de quem viu, sangue real, ferida real, dor real, na hora exata em que a Igreja recorda a Paixão.

 

A amizade com a Madre Angélica

 

Entre os que atravessaram a porta daquela casa estava uma freira ainda desconhecida, que sofria de um mal estomacal grave. Chamava-se Madre Angélica. Ela atribuiu sua cura à intercessão de Rhoda Wise, e as duas construíram uma amizade que durou até a morte de Rhoda, em 1948.

 

Anos depois, já fundadora da EWTN, a maior rede católica de televisão do mundo, a Madre Angélica jamais deixou de falar sobre a mulher que a marcou tão profundamente. Foi ela quem, mais tarde, recebeu a casa de Rhoda como herança e a manteve viva como espaço de oração.

 

Quando Rhoda morreu, mais de quatorze mil pessoas passaram por seu velório em dois dias. A casa continuou recebendo peregrinos décadas depois, muitos relatando curas atribuídas à sua intercessão até hoje.

 

Onde está a causa agora

 

Em 2016, a Diocese de Youngstown abriu oficialmente o processo de canonização e declarou Rhoda Wise Serva de Deus, o primeiro degrau do caminho para os altares. Neste mês de julho, a causa avançou um passo decisivo. A postuladora responsável entregou ao Dicastério para as Causas dos Santos, no Vaticano, a positio, o dossiê completo que reúne toda a documentação sobre a vida, as virtudes e a fama de santidade de Rhoda.

 

Agora, teólogos e historiadores vão examinar esse material. Se o parecer for favorável, caberá ao Papa decidir se ela recebe o título de Venerável, o passo seguinte antes da beatificação.

 

É importante dizer com clareza o que isso significa, e o que ainda não significa. A Igreja está estudando com seriedade a vida de Rhoda Wise. Isso é fato. Mas ela ainda não é beata, e muito menos santa

 

A Igreja também ainda não se pronunciou de forma definitiva sobre a natureza sobrenatural dos estigmas ou das curas atribuídas a ela. O processo existe exatamente para isso, para examinar com rigor o que a fé popular já reconhece há décadas.

 

O que essa história ensina

 

Rhoda Wise não nasceu em berço de santidade. Nasceu numa família pobre, protestante, marcada por perdas e doenças. Foi justamente ali, no lugar mais baixo, que Cristo escolheu se manifestar.

 

Isso é coerente com a lógica de todo o Evangelho. Deus não busca os fortes, busca os que sofrem e ainda assim confiam. Rhoda ofereceu sua dor, como vítima unida à Paixão de Cristo, e dessa oferta nasceram décadas de graças para milhares de pessoas que nunca a conheceram pessoalmente.

 

Nossa Senhora, que esteve ao pé da cruz vendo o corpo de seu Filho ferido, certamente acompanhou de perto essa alma que aceitou levar as mesmas chagas em seu próprio corpo. Que ela interceda para que a causa de Rhoda avance, e para que cada um de nós aprenda a oferecer o próprio sofrimento com a mesma confiança.

 

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