Presos e ameaçados, os três pastorinhos permaneceram fiéis a Nossa Senhora. Sua coragem nos ensina a enfrentar as provações com oração, a permanecer fiéis diante do medo e a oferecer nossos sofrimentos pela conversão dos pecadores.

Dentro de poucos dias, recordaremos um dos episódios mais dramáticos da história de Fátima: o dia em que os três pastorinhos foram impedidos de comparecer ao encontro marcado por Nossa Senhora.
Em 13 de agosto de 1917, uma multidão dirigiu-se à Cova da Iria esperando encontrar Lúcia, Francisco e Jacinta. Nossa Senhora havia aparecido às três crianças em maio, junho e julho. Em cada encontro, pedia que voltassem no dia 13 do mês seguinte.
Naquela segunda-feira de agosto, porém, os pastorinhos não chegaram à Cova da Iria. Uma autoridade civil os impediu.
Na época, Fátima era uma freguesia do Concelho de Vila Nova de Ourém e estava sob a autoridade de seu administrador, Artur de Oliveira Santos.
Portugal vivia um período de forte perseguição à Igreja, e o administrador considerava as aparições uma fraude. Ele decidiu afastar as crianças da Cova da Iria e descobrir o Segredo que Nossa Senhora lhes havia confiado em julho.
Por meio de um engano, levou os três para Ourém. Enquanto a multidão os esperava na Cova da Iria, Lúcia, Francisco e Jacinta eram interrogados e pressionados a revelar o Segredo.
O administrador conseguiu impedir que os pastorinhos chegassem ao local das aparições naquele dia. Mas não conseguiu impedir Nossa Senhora de voltar a encontrá-los.
Três crianças ameaçadas de morte
Lúcia tinha dez anos, Francisco nove e Jacinta sete. Estavam longe dos pais e diante de uma autoridade decidida a fazê-los falar.
Segundo o relato da Irmã Lúcia, as crianças foram interrogadas separadamente. O administrador ameaçou lançá-las num caldeirão de azeite fervente caso se recusassem a revelar o Segredo.
Primeiro, chamou Jacinta e a levou para outra sala. Lúcia e Francisco pensaram que ela havia sido morta. Em seguida, chamaram Francisco, e Lúcia acreditou que ele teria o mesmo destino. Mesmo convencidos de que poderiam morrer, nenhum dos três revelou o Segredo.
A firmeza das três crianças é uma importante prova de sua sinceridade. Se tudo fosse uma invenção, bastaria que uma delas cedesse ao medo ou mudasse sua versão. Isso não aconteceu.
O administrador queria obrigá-las a confessar uma mentira. Acabou mostrando quanto elas acreditavam no que haviam visto e ouvido.
O Rosário entrou na prisão
Durante a detenção, os pastorinhos fizeram o que haviam aprendido com Nossa Senhora: rezaram. Lúcia conta que eles rezaram o Terço junto com outros presos.
O administrador queria interromper a devoção que crescia em Fátima. Enquanto isso, o Rosário era rezado dentro da prisão de Ourém.
Ele podia controlar as portas da prisão, mas não podia controlar a fé das crianças.
A oração deu aos pastorinhos força para enfrentar o medo. Essa lição também serve para nós. Há situações que não conseguimos mudar imediatamente. Nesses momentos, a oração nos dá coragem e confiança para continuar.
Nossa Senhora voltou a encontrá-los
Depois de libertados, os pastorinhos regressaram a Aljustrel, o pequeno povoado da freguesia de Fátima onde viviam com suas famílias.
Poucos dias depois, estavam numa propriedade chamada Valinhos. Ali perceberam os sinais que costumavam anunciar a presença de Nossa Senhora. A Santíssima Virgem apareceu então sobre uma pequena azinheira.
Nossa Senhora pediu que continuassem indo à Cova da Iria e rezando o Terço todos os dias. Também confirmou que, em outubro, faria um milagre para que todos acreditassem.
Então revelou uma consequência do que havia acontecido: se as crianças não tivessem sido levadas para Ourém, o milagre seria mais grandioso.
O Milagre do Sol aconteceria em outubro diante de uma grande multidão. Mas poderia ter sido ainda maior.
Nossos atos atingem outras pessoas
O que aconteceu em agosto mostra que nossas escolhas podem trazer consequências para outras pessoas.
O administrador usou sua autoridade contra três crianças. Sua decisão teve consequência sobre um milagre destinado a uma grande multidão.
Isso mostra também a responsabilidade de quem possui autoridade. Um pai influencia a família. Um professor forma seus alunos. Um sacerdote orienta as almas. Um governante toma decisões que atingem muitas pessoas.
Quanto maior a autoridade, maior a responsabilidade de usá-la para o bem.
Deus, porém, pode tirar um bem até mesmo de uma injustiça. A perseguição do administrador não destruiu a fé dos pastorinhos. Ao contrário, tornou conhecida a coragem com que defenderam o Segredo recebido de Nossa Senhora.
“Rezai, rezai muito”
Durante a aparição nos Valinhos, Lúcia apresentou vários pedidos a Nossa Senhora. Havia doentes que esperavam a cura e pessoas que pediam outras graças.
Nossa Senhora respondeu aos pedidos e depois assumiu uma expressão triste. Fez então um dos apelos mais importantes da mensagem de Fátima:
“Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas.”
Os pastorinhos tinham acabado de passar por uma grande provação. Nossa Senhora mostrou a eles que seus sofrimentos podiam ser oferecidos pela conversão dos pecadores.
Nós também podemos fazer isso.
Uma doença, uma contrariedade, uma humilhação ou um sacrifício podem ser oferecidos a Deus pela conversão de alguém.
Talvez uma pessoa de nossa família esteja afastada da Missa, da Confissão e da oração.
Podemos conversar com ela, dar bom exemplo e rezar por sua conversão. A graça de Deus pode chegar onde nossas palavras não conseguem chegar.
A verdadeira coragem
Os pastorinhos sentiram medo. A coragem deles não estava em deixar de sentir medo, mas em permanecer fiéis apesar dele.
Lúcia, Francisco e Jacinta sabiam que o Segredo lhes havia sido confiado por Nossa Senhora. Por isso, estavam dispostos a sofrer para guardá-lo.
Nós provavelmente nunca seremos ameaçados como eles. Mas podemos ter medo de uma crítica, de uma zombaria ou da opinião dos outros.
A coragem dos pastorinhos nos ensina a permanecer fiéis a Deus também nessas pequenas provas.
Padre Pio viveu essa fidelidade
A vida de Padre Pio nos ajuda a compreender essa lição.
Ele também passou por suspeitas, acusações, interrogatórios e restrições. Em alguns períodos, foi impedido de exercer publicamente partes de seu ministério e sofreu por não poder atender as almas como desejava.
Padre Pio permaneceu obediente à Igreja e ofereceu seu sofrimento pela salvação das almas.
Existe uma ligação profunda entre sua vida e a mensagem de Fátima. Nossa Senhora pediu orações e sacrifícios pelos pecadores. Padre Pio dedicou sua vida à conversão das almas, passando longas horas no confessionário, celebrando a Santa Missa com grande devoção e rezando muitos Rosários.
O pedido feito por Nossa Senhora nos Valinhos encontrou uma resposta na vida de Padre Pio: rezar e oferecer sacrifícios pela salvação dos pecadores.
Prenderam os pastorinhos, mas não impediram Fátima
Artur de Oliveira Santos conseguiu impedir que Lúcia, Francisco e Jacinta estivessem na Cova da Iria em 13 de agosto. Não conseguiu fazê-los revelar o Segredo nem abandonar sua fé.
E também não conseguiu impedir Nossa Senhora.
Poucos dias depois, ela voltou a encontrar as três crianças nos Valinhos.
Mais de um século depois, o pedido feito naquele lugar continua atual: há pessoas que precisam de nossas orações e há almas pelas quais podemos oferecer nossos sacrifícios.
Talvez nunca enfrentemos uma provação como a dos pastorinhos. Mas também teremos momentos em que será difícil permanecer fiéis.
Quando esse momento chegar, Nossa Senhora encontrará em nós a mesma fidelidade?
Nota sobre as fontes: Para a elaboração deste artigo foram consultadas as Memórias da Irmã Lúcia, especialmente a Segunda e a Quarta Memórias; a obra As aparições e a mensagem de Fátima conforme os manuscritos da Irmã Lúcia, de Antônio Augusto Borelli Machado; a conferência Comentários à 4ª Aparição de Nossa Senhora em Fátima, proferida por Plinio Corrêa de Oliveira em 15 de agosto de 1967; o primeiro volume da Documentação Crítica de Fátima, publicado pelo Santuário de Fátima; o estudo histórico de Luciano Cristino sobre a quarta aparição nos Valinhos; e materiais do portal oficial de Padre Pio de Pietrelcina.
Os acontecimentos foram recontados e as reflexões apresentadas com redação própria, sem reprodução literal dos comentários dos autores consultados.
Existe divergência quanto à data da quarta aparição: Antônio Augusto Borelli Machado, seguindo uma recordação inicial da Irmã Lúcia, adota o dia 15 de agosto de 1917; a cronologia atualmente seguida pelo Santuário de Fátima indica o dia 19.




