Por que o Bom Ladrão não Passou pelo Purgatório?

O caso que parece desafiar a doutrina revela uma das mais profundas lições sobre a justiça e a misericórdia divinas.

Em conversas durante a Semana Santa, é comum ouvirmos um argumento repetido à exaustão.

Pessoas de outras denominações, para negarem a existência do Purgatório, recorrem a uma frase aparentemente decisiva.

Trata-se da promessa de Nosso Senhor ao Bom Ladrão: “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43).

A conclusão parece lógica para muitos: se Jesus disse que ele iria direto ao Paraíso, então o Purgatório não pode existir.

Mas será que é isso mesmo?

A resposta exige que olhemos para o horizonte completo da fé católica, sem isolar uma frase, mas compreendendo a harmonia de toda a Revelação.

Há algo que muitos ignoram sobre o pecado

A Igreja sempre ensinou algo que a piedade popular, por vezes, negligencia.

O mal causado pelo pecado não desaparece como se nunca tivesse existido perante a Justiça Divina.

O Sacrifício Redentor de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz perdoou as faltas e abriu aos homens o acesso a Deus.

Contudo, os danos que os pecados pessoais causam perante a Justiça de Deus precisam ser reparados.

Em outras palavras: não basta apenas confessar o pecado diante do sacerdote, é preciso reparar o mal feito.

O perdão restaura a amizade com Deus; mas a Sua justiça exige que a desordem causada seja reparada.

E as Sagradas Escrituras estão repletas de exemplos que iluminam essa verdade.

Deus perdoa… mas o pecado tem consequências

Lembre-se, primeiramente, de Adão e Eva. Eles desobedeceram a Deus, e por causa de sua grave desobediência, o pecado entrou no mundo.

Deus os perdoou? Sim, mas lhes impôs uma grande penitência:

“Porque comeste do fruto que te havia mandado que não comesse, a terra será maldita em tua obra e tu comerás o pão com o suor do teu rosto até que voltes a terra de onde eu te tirei” (Gn 3,17-18).

O Padre Bruno Vercruysse, grande autor espiritual belga do século XIX, ensina no livro “Manuel de solide piété” que Adão e Eva aceitaram a penitência imposta por Deus e perseveraram nela durante mais de novecentos anos!

Mas as consequências permaneceram: eles perderam a amizade original com Deus e o sofrimento, a dor e a morte se tornaram realidade.

Depois, observe o que aconteceu com o rei Davi. Ele cometeu adultério com Betsabé e mandou matar seu marido, Urias.

Arrependeu-se sinceramente e o profeta Natã anunciou-lhe o perdão divino. Contudo, as consequências do seu pecado não foram anuladas.

Por causa deste pecado, seu primeiro filho com Betsabé morreu. Absalão, filho preferido de Davi, revoltou-se contra o pai levando o povo a uma guerra sangrenta.

A Misericórdia Divina não apaga os efeitos do pecado. Ela perdoa a culpa, mas não ignora que a Justiça Divina exige reparação.

Então por que o Bom Ladrão não passou pelo Purgatório?

Diante disso, você deve se perguntar: como ficaram as consequências dos pecados do Bom Ladrão?

A Igreja nunca ensinou que toda pessoa, infalivelmente, tenha que passar pelo Purgatório. Pelo contrário, admite que muitos se livram dele por morrerem totalmente quites com a justiça divina.

E como se fica quite? Pagando, já neste mundo, a dívida pela consequência dos pecados cometidos através da mortificação e das boas obras.

Olhando para a cena do Calvário, vê-se que o Bom Ladrão, que a tradição chama de Dimas, não estava ali por acaso.

Ele havia cometido muitos crimes e, por consequência deles, recebeu do governador Pilatos o castigo de ser crucificado.

Mas ele não o aceitou de má vontade como o mal ladrão; pelo contrário, aceitou-o de boa vontade, reconhecendo ser justo como consequência da suas culpas.

Ele mesmo o declarou, silenciando o outro: “Quanto a nós, é de justiça; recebemos o castigo merecido pelos nossos atos” (Lc 23,41).

Aceitando Sua Crucificação, o Bom Ladrão pagou tudo

São Dimas no Calvário sofreu com uma disposição extraordinária. Aceitou a dor com humildade e uniu seu arrependimento sincero à agonia da cruz.

Foi então que o Divino Mestre reconheceu que, para ele, toda a pena já havia sido satisfeita naquela própria cruz.

Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, sintetiza essa verdade com precisão:

“A pena aceita com humildade e amor satisfaz plenamente a justiça divina quando unida a Cristo. Assim, o bom ladrão obteve imediatamente o Paraíso porque sua pena corporal satisfez plenamente a pena temporal devida.” (Suma Teológica, III, q. 86, a. 4.)

São João Crisóstomo, em sua homilia sobre a Cruz e o Ladrão, complementa:

“O Bom Ladrão, pela sua fé, confissão e conversão na cruz, foi considerado digno de entrar no Paraíso conforme a promessa imediata de Cristo.”

O Purgatório neste Mundo

A parábola do rico Epulão e do pobre Lázaro mostra o mesmo princípio: há quem satisfaça a justiça divina pelas penas sofridas já neste mundo.

O Bom Ladrão, sofrendo no alto da cruz, viveu algo análogo ao que aconteceu com o mendigo da parábola.

Longe de negar o Purgatório, o caso do Bom Ladrão nos ensina que é possível reparar as penas dos nosssos pecados ainda nessa vida.

E aqui está a lição que não pode ser ignorada:

A Divina Justiça se compraz mais na penitência aceita nesta vida, porque ela é oferecida livremente.

Enquanto ainda há tempo, é possível escolher praticar mortificação e boas obras em reparação pelo mal que nossos pecados causaram.

Mas para quem já não pode mais fazê-lo, existe a Liga de Resgate das Almas do Purgatório. Faça parte e ofereça suas orações por essas almas.

E o sacrifício voluntário, aceito de boa vontade, agrada mais a Deus do que as penas do Purgatório, que são inevitáveis.

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