Como a condenação a trabalhos forçados consagrou o martírio interior de Dom Vital.

A cela estreita na Fortaleza de São João, banhada pela brisa salgada da Baía de Guanabara, tinha como único adorno um crucifixo e uma pilha de papéis.
A tosse seca quebrava o silêncio da noite, enquanto a lâmpada a óleo tremeluzia sobre a mesa de madeira rústica. O homem que ali escrevia, com os olhos febris e a batina gasta, fora condenado pelo Supremo Tribunal de Justiça do Império como um criminoso vulgar.
Por que o mundo odeia com tanta fúria os pastores que não se dobram às conveniências humanas? Até onde pode ir a fidelidade de uma alma consagrada a Nosso Senhor Jesus Cristo?
A Condenação Inédita no Império
Em 1874, o Brasil assistiu a um espetáculo estarrecedor: Dom Vital Maria de Pernambuco e o bispo do Pará, Dom Antônio de Macedo Costa, foram levados a julgamento criminal pelo poder secular.
O crime apontado pelos ministros imperiais foi simplesmente a obediência às leis canônicas da Igreja Católica e a recusa ao beneplácito.
O Supremo Tribunal proferiu sentença humilhante: quatro anos de prisão com trabalhos forçados.
Diante da comoção que a decisão gerou e do receio de revolta popular, Dom Pedro II comutou a pena para prisão simples.
O jovem prelado acolheu o veredito sem uma palavra de revolta pessoal. Repetiu serenamente que preferia desagradar aos homens a desagradar a Deus.
Conduzido para o cárcere no Rio de Janeiro, transformou a reclusão em retiro de expiação e combate espiritual.
A Defesa da Companhia de Jesus
Da prisão, Dom Vital não permaneceu inerte. Em 1875, publicou a monumental Instrução Pastoral intitulada A Maçonaria e os Jesuítas.
Naquele documento, desmontou as falsas acusações que o governo provincial de Pernambuco erguera contra a Companhia de Jesus durante a comoção da Revolta do Quebra-Quilos.
As autoridades acusavam os padres jesuítas de incitarem a população nordestina contra o governo por causa do novo sistema métrico e do alistamento militar.
Dom Vital pegou as supostas provas apresentadas, fragmentos truncados e suspeitas infundadas, e provou ponto por ponto que os religiosos estavam sendo usados como bodes expiatórios.
Mostrou que o verdadeiro objetivo da perseguição era atingir o papado, desmantelando as ordens religiosas fiéis à Santa Sé.
A Visita na Prisão
Um oficial encarregado da guarda da fortaleza aproximou-se da cela e perguntou em tom baixo se o bispo não temia que a umidade e a solidão arruinassem de vez o seu corpo tão jovem.
Sugeriu que uma simples carta de conciliação dirigida ao imperador traria a anistia imediata.
Dom Vital ergueu os olhos serenos e respondeu que o cárcere era suave quando sofrido por fidelidade à Santa Sé. Afirmou que as correntes da terra não prendem a verdade de Deus.
O oficial retirou-se sem resposta, impressionado com a grandeza daquele frade capuchinho que tratava o próprio sofrimento como dever cumprido com alegria.
A Doutrina Viva: O Martírio do Dever
A doutrina católica ensina que o sacrifício e a perseguição são marcas autênticas da fidelidade a Nosso Senhor Jesus Cristo.
O sofrimento aceito por amor à justiça torna-se fonte inesgotável de graças para a santificação da Igreja.
Anistiado em setembro de 1875 pelo governo imperial, Dom Vital deixou o cárcere com o organismo gravemente debilitado. A saúde arruinada não resistiu por muito tempo.
Viajou a Roma para prestar contas ao Santo Padre Pio IX e recolheu-se em seguida ao convento dos capuchinhos em Paris.
Faleceu piamente no dia 4 de julho de 1878, com exatos 33 anos de idade, a mesma idade terrena do Divino Mestre. O bispo que não capitulou entregava sua alma nos braços do Criador.
Que a firmeza de Dom Vital inspire a sua caminhada e arranque do seu coração todo medo de sofrer pela causa do Evangelho. Firme o seu compromisso com a vida de graça hoje mesmo. Santíssima Virgem Maria, Consoladora dos Aflitos, dai-nos a graça da constância nas tribulações e a coragem dos santos confessores.




