O mendigo que se dizia rei: uma história sobre a verdadeira felicidade

Um religioso procurava a pessoa mais santa, sábia e feliz do mundo. Encontrou um mendigo que dizia possuir um reino maior do que o dos monarcas da terra.

O monge e o mendigo que se dizia rei

O que permite a uma pessoa conservar a paz quando lhe faltam tantas coisas? Como continuar confiando em Deus quando chegam a pobreza, o desprezo e as dificuldades?

Em Tesouro de Exemplos, o padre redentorista Francisco Alves recolhe uma narrativa sobre um monge que desejava conhecer a pessoa mais santa, sábia e feliz do mundo.

Uma versão semelhante aparece em Uniformidade com a vontade de Deus, de Santo Afonso Maria de Ligório.

Em ambas, um mendigo surpreende um religioso ao revelar onde encontra sua felicidade. A seguir, recontamos a versão recolhida pelo padre Francisco Alves.

O monge e o mendigo

Vivia um monge no silêncio de seu mosteiro. Era sábio e santo, mas uma curiosidade começou a ocupar seus pensamentos:

“Qual será, entre as pessoas que vivem neste mundo, a mais santa? E a mais sábia e mais feliz?”

Certa manhã, enquanto rezava no coro, dirigiu a Deus a mesma pergunta:

“Senhor, das almas que vivem agora neste mundo, qual será a mais santa, mais sábia e mais feliz?”

Segundo a narrativa, ouviu uma voz que lhe dizia:

“Vai ao pórtico da igreja e ali te dirão.”

O monge colocou o capuz, recolheu as mãos nas largas mangas do hábito e atravessou os claustros silenciosos.

Ao chegar ao pórtico, encontrou um pobre que havia passado a noite sobre um banco de pedra. Naquele momento, o homem se espreguiçava e fazia o sinal da cruz.

“Bom dia, irmão”, disse o monge.

“Bom dia”, respondeu o mendigo, com alegria.

“Irmão, pelo que vejo, estás contente.”

“Sempre estou contente.”

“Sempre? Então és um homem feliz?”

“Muito feliz.”

“Feliz? Custa-me acreditar. Dize-me: quando tens fome, pedes esmola e nada recebes, ainda és feliz?”

“Sim, padre. Penso que Deus, meu Pai, permite que eu passe um pouco de fome. Nosso Senhor também conheceu a fome. Além disso, Deus é muito bom para mim: nunca me falta um pedaço de pão.”

O monge prosseguiu:

“E quando neva no inverno e tu, tremendo de frio, vais de porta em porta, como um passarinho que salta de um galho para outro? Também és feliz?”

“Sim, padre, muito feliz. Penso que Deus permite que eu passe um pouco de frio. Nosso Senhor também conheceu o frio. E nunca me falta um palheiro onde passar a noite.”

Admirado, o monge contemplou aquele homem dos pés à cabeça.

“Tu me enganas. Não és pobre.”

O mendigo sorriu.

“Não, padre, eu não sou pobre.”

“Logo vi. Então, quem és?”

“Sou um rei que viaja incógnito por este mundo.”

“Um rei? E qual é o teu reino?”

“Meu reino é o meu coração, onde governo minhas paixões. Tenho, porém, um reino muito maior. Vê esse céu imenso? O sol, as estrelas, o firmamento? Tudo isso pertence a Deus, meu Pai.”

E continuou:

“Todos os dias me ponho de joelhos e digo: ‘Pai nosso, que estais nos céus, como sois grande, como sois sábio, como sois poderoso! Não vos esqueçais deste pobre filho que anda por este mundo’.”

Por fim, acrescentou:

“Quando chegar a morte, despirei estes andrajos e irei ao encontro de Deus, meu Pai, na esperança de reinar com Ele pelos séculos dos séculos.”

O monge não perguntou mais. Baixou a cabeça e voltou ao coro, convencido de ter encontrado o homem mais santo, mais sábio e mais feliz do mundo.

A verdadeira riqueza de um coração unido a Deus

Ao concluir a versão que apresenta em Uniformidade com a vontade de Deus, Santo Afonso observa que aquele mendigo, em sua pobreza, era mais rico que os monarcas da terra. Sua riqueza estava na união com Deus, em quem encontrava paz mesmo durante os sofrimentos.

O santo reconhece que as contrariedades continuam causando dor. A confiança, porém, permite atravessá-las sem abandonar o Senhor. O mendigo havia aprendido a receber os acontecimentos com essa disposição: agradecer pelos benefícios e entregar a Deus as dificuldades.

A história nos convida a examinar nosso próprio coração: diante das dificuldades, continuamos reconhecendo os cuidados de Deus? Conseguimos agradecer pelo que recebemos e confiar-lhe aquilo que nos aflige?

Fontes:

e. Francisco Alves, C.Ss.R., Tesouro de Exemplos, v. I, Vozes, 1958, exemplo 117, p. 126–127;

Santo Afonso Maria de Ligório, Uniformidade com a vontade de Deus.

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