Bilocação, curas, levitação e profecias: conheça sete episódios surpreendentes da vida do primeiro santo nascido no Brasil.

Santo Antônio de Sant’Anna Galvão, celebrado pela Igreja Católica em 25 de outubro, ficou conhecido por sua profunda vida de oração, caridade e dedicação à salvação das almas.
Nascido em Guaratinguetá, em 1739, o sacerdote franciscano dedicou grande parte de sua vida ao atendimento dos fiéis e à fundação do Mosteiro da Luz, em São Paulo.
Entretanto, além de suas virtudes, Frei Galvão ficou conhecido por acontecimentos extraordinários que surpreenderam aqueles que os testemunharam.
Entre os numerosos relatos preservados, sete episódios revelam os dons sobrenaturais atribuídos ao santo brasileiro.
1. O milagre de Potunduva: Frei Galvão aparece em dois lugares
Por volta de 1810, às margens do rio Tietê, na região de Potunduva, atual município de Jaú, Manoel Portes comandava uma expedição fluvial que vinha de Cuiabá. Homem de temperamento violento, castigou severamente um subordinado chamado Apolinário, que decidiu vingar-se.
Aproveitando um momento de distração, Apolinário atacou o capataz pelas costas com um facão e fugiu, deixando-o gravemente ferido.
Perdendo muito sangue e acreditando que morreria, Portes começou a gritar desesperadamente:
“Meu Deus, eu morro sem confissão! Senhor Santo Antônio, pedi por mim! Dai-me confessor! Vinde, Frei Galvão, assistir-me!”
Entretanto, estavam em uma região isolada, onde encontrar um sacerdote parecia impossível. Além disso, Frei Galvão encontrava-se na cidade de São Paulo.
Foi então que um dos homens avistou um frade se aproximando. Para surpresa de todos, era Frei Galvão!
Segundo os testemunhos, o religioso pediu que os presentes se afastassem, colocou a cabeça do moribundo sobre seu colo e ouviu sua confissão. Depois, abençoou-o e partiu misteriosamente.
O mais impressionante é que, naquele mesmo momento, Frei Galvão estaria pregando em uma igreja de São Paulo. Subitamente, interrompeu o sermão e pediu:
“Meus irmãos, rezemos uma Ave-Maria pela alma de um cristão que neste momento está agonizando longe daqui”.
Após a oração, retomou a pregação normalmente, como se nada tivesse acontecido.
O lugar onde teria ocorrido o prodígio foi marcado com uma cruz e, posteriormente, recebeu uma capela. Uma inscrição registrava que naquele local Frei Galvão teria aparecido para confessar Manoel Portes quando ele estava à morte.
O episódio tornou-se um dos mais conhecidos testemunhos de bilocação, o dom de estar presente em dois lugares ao mesmo tempo, atribuído ao santo.
2. As pílulas de Frei Galvão e a cura de um jovem
Certa ocasião, apresentaram a Frei Galvão um rapaz que sofria dores terríveis, provocadas por cálculos renais que não conseguia expelir.
Comovido com o sofrimento do jovem, o sacerdote rezou e escreveu, em três pequenos pedaços de papel, uma invocação à Santíssima Virgem Maria:
“Post partum Virgo inviolata permansisti: Dei Genitrix intercede pro nobis”.
Em português: “Depois do parto, ó Virgem, permaneceste intacta; Mãe de Deus, intercedei por nós”.
Em seguida, enrolou os papéis, formando pequenas pílulas, e entregou-os ao enfermo.
Segundo o relato, pouco depois de ingeri-las, o jovem expeliu um grande cálculo e ficou curado.
A notícia espalhou-se rapidamente, e os pedidos das pílulas se multiplicaram. Por isso, Frei Galvão ensinou às religiosas do Recolhimento da Luz a prepará-las, permitindo que os fiéis continuassem a recebê-las mesmo em sua ausência.
A tradição das pílulas de Frei Galvão permanece viva até hoje, associada à oração e à confiança na intercessão de Nossa Senhora.
3. Frei Galvão caminhava sem tocar o chão?
Entre os testemunhos conservados no Mosteiro da Luz, encontra-se o relato de uma senhora que presenciou algo inexplicável.
Ela caminhava por uma rua, em pleno dia, quando avistou Frei Galvão se aproximando. O sacerdote seguia recolhido, de olhos baixos, aparentemente concentrado em sua oração.
Entretanto, ao observá-lo melhor, percebeu que seus pés não tocavam o chão. O frade parecia flutuar enquanto avançava pela rua.
Espantada, a mulher não conseguiu conter a pergunta:
“Senhor Padre, vossemecê anda sem pisar no chão?”
Frei Galvão apenas sorriu, saudou-a gentilmente e continuou seu caminho, sem oferecer qualquer explicação.
O episódio tornou-se um dos relatos do dom de levitação atribuídos ao religioso.
4. A tempestade que não conseguiu molhar os fiéis
Durante uma pregação ao ar livre em Guaratinguetá, Frei Galvão falava a uma multidão reunida na praça quando o tempo mudou repentinamente.
O céu escureceu, o vento aumentou e uma forte tempestade se aproximou. Assustadas, as pessoas começaram a procurar abrigo.
Nesse momento, Frei Galvão levantou a mão, pediu tranquilidade e orientou todos a permanecerem onde estavam, confiando na Providência Divina.
O povo obedeceu e a pregação continuou.
Então, segundo a tradição, a chuva caiu violentamente sobre os telhados, ruas e campos ao redor. Entretanto, nenhuma gota atingiu a praça onde o sacerdote pregava.
Enquanto toda a região era castigada pela tempestade, o chão onde os fiéis permaneciam continuou completamente seco.
5. Frei Galvão anuncia uma revolução antes de receber a notícia
Em 24 de agosto de 1820, um acontecimento político abalou Portugal: a Revolução Liberal do Porto.
Naquele mesmo dia, segundo um relato tradicional, os sinos do Mosteiro da Luz tocaram fora do horário habitual, convocando a população.
Quando os moradores chegaram, encontraram Frei Galvão, já idoso, que anunciou:
“Rebentou em Portugal uma revolução!”
Em seguida, o sacerdote teria descrito acontecimentos que se desenrolavam naquele momento, a milhares de quilômetros dali.
Falou sobre a movimentação das tropas no campo de Santo Ovídio, atual Praça da República, no Porto, a formação militar, a celebração de uma Missa e até uma salva de vinte e um tiros de artilharia.
O mais extraordinário é que, semanas depois, chegaram notícias de Portugal que, conforme a tradição, confirmaram os acontecimentos narrados pelo frade.
O relato afirma ainda que Frei Galvão teria tomado conhecimento da revolução antes mesmo de Dom João VI, que estava no Rio de Janeiro.
6. O lenço esquecido durante uma confissão misteriosa
Em Taubaté, um homem gravemente enfermo encontrava-se cercado pelos familiares, que temiam sua morte.
Preocupados com a salvação de sua alma, insistiram para que procurasse um sacerdote e recebesse o sacramento da confissão.
Entretanto, o doente respondeu tranquilamente:
“Já me confessei com Frei Galvão”.
A família ficou perplexa. Afinal, o religioso morava em São Paulo e ninguém tinha conhecimento de que estivesse em Taubaté.
Como poderia ter ouvido aquela confissão?
Foi então que o enfermo retirou debaixo do travesseiro um lenço e explicou:
“Foi ele que deixou. Esqueceu sobre a minha cama, quando me confessou”.
Segundo o relato, o lenço realmente pertencia a Frei Galvão.
Para os familiares, aquele objeto era a confirmação de que o sacerdote havia estado misteriosamente junto ao enfermo, embora permanecesse distante da cidade.
Mais uma vez, a tradição atribuiu o acontecimento ao dom de bilocação.
7. Frei Galvão atende a uma súplica feita apenas em pensamento
Certa vez, Frei Galvão passava por uma cidade sendo transportado em uma cadeirinha coberta por cortinas.
Em uma casa próxima, uma senhora muito aflita observava discretamente a rua através de uma janela de rótulas, formada por peças de madeira que permitiam enxergar o exterior sem ser vista.
Ao reconhecer a cadeirinha do sacerdote, a mulher sentiu um profundo desejo de receber sua bênção.
Entretanto, permaneceu escondida e nada disse. Apenas pensou:
“Ah, se Frei Galvão se lembrasse de mim… Se ao menos me desse sua bênção…”.
Naquele exato instante, segundo a tradição, a cortina da cadeirinha se abriu.
Frei Galvão debruçou-se, voltou-se diretamente para a janela onde a mulher estava escondida, sorriu e lhe concedeu a bênção desejada.
O sacerdote não poderia tê-la visto através das rótulas, tampouco ouvido uma súplica que fora feita somente em pensamento.
Ainda assim, a mulher recebeu exatamente aquilo que havia pedido em silêncio.
Uma fama de santidade que atravessou dois séculos
No episódio de Potunduva, Manoel Portes não pedia para ser curado. Gravemente ferido e acreditando que morreria, sua maior preocupação era encontrar um sacerdote que ouvisse sua última confissão.
Esse detalhe ajuda a compreender a figura de Santo Antônio de Sant’Anna Galvão. Mesmo nos acontecimentos mais extraordinários atribuídos a ele, como a bilocação, a levitação e o conhecimento de fatos distantes, sua vida sacerdotal permanece no centro das narrativas.
Quando morreu, em 23 de dezembro de 1822, aos 83 anos, Frei Galvão já gozava de grande fama de santidade.
Quase dois séculos depois, em 11 de maio de 2007, o Papa Bento XVI o canonizou, reconhecendo oficialmente o primeiro santo nascido no Brasil.
Hoje, no Mosteiro da Luz, em São Paulo, onde se encontra seu túmulo, os fiéis continuam procurando as tradicionais pílulas associadas à sua devoção.
Assim, a história daquele sacerdote a quem são atribuídos tantos milagres e prodígios continua servindo de inspiração mais de 200 anos depois de sua morte.





