PADRE PIO QUIS SER MISSIONÁRIO NA ÍNDIA – E SUAS CARTAS REVELAM O QUE ACONTECEU

Em 1921 e 1922, Padre Pio escreveu a um bispo capuchinho que trabalhava na Índia. O desejo de partir era real. A resposta dos superiores também. E ele transformou a impossibilidade numa forma diferente de missão.

17 de fevereiro de 1921. Padre Pio escreve a Dom Giuseppe Angelo Poli, capuchinho e vigário apostólico de Allahabad, na Índia. A carta contém uma revelação pouco conhecida sobre o frade de San Giovanni Rotondo: ele queria deixar a Itália para servir como missionário.

 

Não se tratava de uma ideia vaga. Padre Pio afirma que havia feito pedidos insistentes ao seu diretor espiritual para ser incluído entre os missionários. Em tradução direta do trecho reproduzido pelo portal oficial dedicado ao santo, ele escreve: “Fiz vivíssimos pedidos ao meu diretor para ser incluído entre os vossos missionários.”

 

O pedido, porém, não foi aceito.

 

E é justamente aí que a carta se torna mais interessante. Padre Pio não reage com amargura. Não transforma o próprio desejo em argumento contra os superiores. Pede a Dom Poli que recomende a questão a Jesus e acrescenta que, se Deus realmente o quiser entre os missionários, deverá dispor também a vontade do superior.

 

É uma frase curta, mas revela uma concepção profundamente católica da vocação: um desejo pode ser santo e intenso, sem que isso autorize a pessoa a transformar a própria vontade em vontade de Deus.

 

O SONHO DE IR À ÍNDIA

 

Dom Giuseppe Angelo Poli conhecia bem a realidade missionária. Capuchinho, havia sido destinado ainda jovem ao território de Allahabad, na então Índia britânica, onde exerceria grande parte de sua vida sacerdotal. Segundo o portal oficial de Padre Pio, esteve ao menos duas vezes em San Giovanni Rotondo em 1920.

 

Poucos meses depois, Padre Pio lhe escreveu sobre seu próprio desejo missionário.

 

A cena surpreende porque estamos acostumados a pensar na missão de Padre Pio como algo inseparável de San Giovanni Rotondo: a Missa, o confessionário, as multidões, os filhos espirituais. Mas aquelas cartas mostram que ele chegou a imaginar outra geografia para sua vida apostólica.

 

Índia.

 

Distância, outra língua, outra cultura e uma missão capuchinha em terras muito diferentes do pequeno mundo do Gargano.

 

Padre Pio queria ir.

 

O SUPERIOR DISSE NÃO

 

O aspecto mais revelador da história talvez esteja no que aconteceu depois.

 

O superior não autorizou a partida. Padre Pio permaneceu onde estava.

 

Isso poderia parecer, à primeira vista, o fim de uma vocação missionária. Para ele, tornou-se uma purificação do modo de vivê-la.

 

Quase um ano depois, em 1º de fevereiro de 1922, Padre Pio voltou a escrever a Dom Poli. O desejo permanecia. Ele dizia quanto gostaria de estar ali, trabalhando pelo crescimento da fé. Mas já reconhecia que aquela oportunidade não lhe havia sido reservada.

 

Então aparece uma frase decisiva: “Minha missão, eu a exercerei com humilde, fervorosa e assídua oração.”

 

Seu corpo permaneceria em San Giovanni Rotondo. Sua oração atravessaria a distância.

 

Esse ponto merece atenção. Padre Pio não inventou uma missão paralela para escapar da obediência. Não declarou que uma inspiração interior lhe dava direito de contornar a autoridade. Aceitou o limite concreto colocado diante dele e procurou servir a mesma causa por outro caminho.

 

QUANDO DEUS MUDA A FORMA DA MISSÃO

 

Há uma lição espiritual de enorme alcance nessas duas cartas.

 

Muitas vezes imaginamos a vontade de Deus identificada com aquilo que desejamos fazer de melhor. Se quero evangelizar, se quero servir, se quero realizar uma obra boa, então Deus certamente deve abrir aquela porta.

 

A vida cristã é mais exigente.

 

Um desejo pode ser generoso e ainda assim não se realizar da maneira que imaginamos. A pergunta deixa de ser apenas “o que eu gostaria de fazer por Deus?” e passa a incluir outra: “como Deus quer que eu O sirva nas circunstâncias reais que me foram dadas?”

 

Padre Pio queria a Índia.

 

Recebeu San Giovanni Rotondo.

 

Queria talvez a missão em terras distantes.

 

Recebeu um convento, um altar, um confessionário e uma multidão que começaria a chegar até ele.

 

As cartas permitem acompanhar o momento em que o desejo não desaparece, mas muda de forma. O missionário que não pôde partir decide unir-se aos missionários pela oração.

 

MISSÃO TAMBÉM SE FAZ DE JOELHOS

 

Isso não diminui o valor de quem realmente deixa sua terra e parte para anunciar o Evangelho. Pelo contrário. Padre Pio admirava essa vocação a ponto de desejá-la para si.

 

Mas sua correspondência recorda uma realidade que às vezes esquecemos: a missão da Igreja também é sustentada por quem reza, oferece sacrifícios, forma pessoas, mantém obras apostólicas e permanece fiel ao lugar em que a Providência o colocou.

 

Nem todos serão enviados à Índia.

 

Nem todos subirão a um púlpito.

 

Nem todos fundarão uma obra.

 

Mas nenhum católico está dispensado de desejar que Cristo seja conhecido e amado.

 

Há pessoas que passam anos pensando no bem que fariam se tivessem outra saúde, outro trabalho, mais tempo, mais dinheiro ou condições diferentes. As cartas de Padre Pio colocam uma pergunta muito concreta diante de nós: enquanto a porta que desejamos permanece fechada, o que estamos fazendo com a porta que Deus deixou aberta?

 

O MISSIONÁRIO QUE FICOU

 

Padre Pio nunca se tornou missionário na Índia.

 

Esse dado, longe de tornar seu desejo irrelevante, dá força à história.

 

Ele pediu. Esperou. Submeteu-se. E, quando percebeu que não partiria, não abandonou a causa missionária. Transformou a distância em oração.

 

Décadas depois, seu nome atravessaria fronteiras que ele nunca atravessou fisicamente. Mas seria um erro ler as cartas apenas à luz da fama posterior. Em 1921 e 1922, Padre Pio não sabia como sua influência se espalharia. Sabia apenas que queria servir e que a obediência lhe pedia permanecer.

 

Talvez seja esse o ponto mais atual daquelas páginas.

 

A santidade não depende de realizar todos os nossos projetos, mesmo os mais generosos. Ela exige fidelidade quando Deus permite que um projeto se feche e nos obriga a descobrir outra forma de amar.

 

Padre Pio quis ir para longe.

 

Ficou.

 

E continuou missionário.

 

Padre Pio, ensinai-nos a trabalhar pelas almas onde Deus nos colocou, com generosidade para desejar grandes coisas e humildade para aceitar a forma concreta que a Providência lhes der.

 

Se este artigo lhe mostrou um aspecto pouco conhecido da vida de Padre Pio, compartilhe-o e acompanhe também o Programa Padre Pio no Canal Regina Fidei.

 

FONTES

 

PADRE PIO DA PIETRELCINA. Epistolario IV. Cartas a Dom Giuseppe Angelo Poli, de 17 de fevereiro de 1921 e 1º de fevereiro de 1922.

 

Portale ufficiale di Padre Pio da Pietrelcina. “The Missionary Spirit of Padre Pio”, 9 nov. 2019. https://www.padrepio.it/the-missionary-spirit-of-padre-pio/

 

Portale ufficiale di Padre Pio da Pietrelcina. “Missionari come Padre Pio”, 13 set. 2019. https://www.padrepio.it/missionari-come-padre-pio/

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