A tibieza que ofende Fátima

Há um pecado que quase ninguém nomeia: não querer que as promessas de Nossa Senhora se cumpram.

 

Em 1917, Nossa Senhora apareceu seis vezes aos três pastorinhos de Fátima. Pediu oração, penitência, conversão. Advertiu sobre castigos. E prometeu: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.”

A Igreja aprovou. Os Papas confirmaram. Dois pastorinhos foram canonizados.

E o fiel médio ouviu tudo isso, fez o sinal da cruz e voltou para a sua vida.

O silêncio mais perigoso

Quando pensamos nas ofensas contra Fátima, lembramo-nos facilmente da negação dos incrédulos, da zombaria dos adversários e da perseguição aberta sofrida pelos pastorinhos no verão de 1917.

Essa perseguição chegou ao extremo em agosto daquele ano. No dia 13, quando deveriam estar na Cova da Iria para encontrar Nossa Senhora, Lúcia, Francisco e Jacinta foram detidos e levados para Ourém.

Interrogados e ameaçados, inclusive de morte, recusaram-se a revelar o segredo recebido de Nossa Senhora.

Por causa dessa prisão, a aparição de agosto não ocorreu no dia 13. Nossa Senhora apareceu às crianças alguns dias depois, nos Valinhos.

A data exata é discutida: tradicionalmente, indica-se o dia 19 de agosto, embora alguns estudiosos sustentem que tenha ocorrido no dia 15.

Os inimigos de Fátima tentaram, pela ameaça e pela força, fazer os pastorinhos abandonarem a sua missão. Não conseguiram.

Hoje, porém, a mensagem encontra uma resistência mais silenciosa, mais doméstica e mais difícil de apontar:

A indiferença diante das promessas de Nossa Senhora, mesmo entre aqueles que afirmam acreditar em Fátima.

Plínio Corrêa de Oliveira, um dos mais lúcidos analistas da mensagem de Fátima no século XX, nomeou essa realidade com uma precisão que dói.

Diante das promessas mais magníficas que o Céu já fez à humanidade, o homem contemporâneo se interessa menos do que por uma apólice de seguro de saúde.

A comparação é áspera. E é exata.

O que Nossa Senhora prometeu

A segunda aparição, em 13 de junho de 1917, trouxe uma promessa que deveria ter sacudido o mundo.

Nossa Senhora revelou o Imaculado Coração de Maria cercado de espinhos e disse a Lúcia que as almas que abraçassem essa devoção seriam queridas por Deus “como flores postas por Mim a adornar o seu trono”.

Flores postas junto ao trono de Deus.

Há algo comparável a isso em qualquer oferta humana? Qualquer prêmio, qualquer distinção, qualquer glória que o mundo possa dar?

E, no entanto, o fiel ouve, inclina levemente a cabeça, murmura uma aprovação vaga e continua exatamente onde estava.

O triunfo que ninguém aguarda

“Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.” A frase mais esperançosa que a Mãe de Deus pronunciou sobre o destino do mundo está gravada em Fátima desde julho de 1917.

Mas repare numa coisa incômoda: quantos católicos, de fato, anseiam por esse triunfo?

Quantos rezam para que chegue depressa?

Quantos levantam de manhã e pedem que hoje seja um dia mais próximo da vitória prometida?

Aqui está o nervo da questão que Plínio Corrêa de Oliveira identificou com clareza de bisturi: não desejar que as promessas de Nossa Senhora se cumpram não é uma posição neutra. É uma forma de ofensa. É tibieza com consequências morais concretas.

Nossa Senhora não pediu apenas admiração. Pediu participação.

O pecado sem nome

São Beda, o Venerável, dizia que o tíbio se converte com mais dificuldade do que o pagão. O pagão pelo menos tem clareza da sua recusa. O tíbio acredita estar bem porque não pratica um mal evidente, enquanto se afasta silenciosamente de tudo o que Deus quer dele.

Nosso Senhor não suavizou o diagnóstico: “Porque não és nem frio nem quente, Eu te vomitarei da Minha boca” (Ap 3,16).

Aplicado a Fátima, o quadro fica assim: o católico que conhece a mensagem, aceita-a em teoria, mas não a deseja, não a difunde e não a vive com urgência, está numa posição que não é de neutralidade. Está, silenciosamente, do lado errado.

Não é acusação. É diagnóstico.

O que significa querer o triunfo

Querer que o Imaculado Coração triunfe tem consequências práticas.

Significa rezar o Rosário todos os dias com intenção verdadeira, não apenas por hábito mecânico.

Significa praticar a devoção dos Primeiros Sábados.

Significa levar a mensagem de Fátima a quem ainda não a conhece, porque Nossa Senhora quis que ela fosse difundida, e não apenas contemplada.

Significa, no fundo, responder a uma promessa com a seriedade de quem realmente acredita nela.

Nossa Senhora de Fátima não falou para uma elite espiritual. Falou para três crianças camponesas e, por meio delas, para o mundo inteiro. A mensagem chegou a todos.

A questão é quantos a receberam como um recado pessoal e quantos a trataram como assunto alheio.

O tempo que passa

Mais de um século separa 1917 de hoje. A Rússia espalhou seus erros pelo mundo, como Nossa Senhora advertiu. Guerras vieram, nações foram abaladas e a Igreja sofreu perseguições internas e externas que nenhum século anterior conhecera dessa forma.

Os castigos anunciados em Fátima não foram uma fantasia. Manifestaram-se, ao menos em parte, à vista de todos, ao longo de mais de cem anos.

O que ainda aguarda seu pleno cumprimento é o outro lado da promessa: o triunfo. E esse triunfo está ligado à resposta da humanidade aos pedidos de Nossa Senhora.

Deus quis contar com a nossa colaboração. Nossa Senhora veio a Fátima exatamente para nos recordar isso. Ela pediu a nossa participação. E nós, em grande parte, oferecemos a indiferença educada de quem acredita sem se comprometer.

Uma pergunta que não se fecha

O triunfo foi prometido. A questão que Nossa Senhora deixou em aberto não é se ele acontecerá. É se você estará do lado certo quando acontecer.

Ela prometeu que as almas que abraçassem a devoção ao Imaculado Coração seriam queridas por Deus como flores colocadas junto ao seu trono.

Nenhum título, nenhuma conquista, nenhuma glória humana chega perto disso. E, ainda assim, o fiel médio ouve, inclina a cabeça e continua onde estava.

Fátima não envelhece. O que envelhece é a paciência de Deus diante da nossa tibieza.

Nossa Senhora de Fátima, rogai por nós.

Torne-se um missionário de Fátima.

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