O Bispo no Purgatório: o que Dom Bosco viu e o que ele nos manda dizer

Um homem santo, num palácio sem caminho, encontra um bispo morto e cheio de beleza que ainda não viu a Deus

 

Numa noite do Oratório de Turim, São João Bosco estava deitado e não conseguia dormir.

 

Pensava na alma: como ela é feita, como se move depois da morte, como poderemos nos reconhecer uns aos outros quando não formos mais do que puros espíritos. Quanto mais pensava, mais o mistério se aprofundava.

 

Então adormeceu.

 

E o que veio a seguir não foi esquecido por ele jamais.

 

O palácio sem caminho

 

Uma voz o chamou pelo nome, na estrada. Uma personagem estranha que ele não reconhecia disse apenas: “Vem comigo.”

 

Dom Bosco obedeceu. Andavam com rapidez tão incomum que os pés mal tocavam o chão.

 

Chegaram a um palácio de magnificência impossível de descrever, erguido sobre uma proeminência do terreno. Não havia caminho para subir. Não havia escada nem porta acessível.

 

“Sobe”, disse o guia.

 

“Como?” respondeu Dom Bosco. “Não tenho asas.”

 

“Faz como eu: levanta os braços com boa vontade, e subirás.”

 

E Dom Bosco levantou os braços ao alto, na direção do Céu, e se viu subitamente alçado. Chegou aos umbrais do palácio. Percorreu salas, corredores e aposentos riquíssimos, deslizando sem esforço, como sobre um cristal, sem tocar o pavimento.

 

No fundo de um salão que superava em magnificência todos os demais, avistou, sentado numa cadeira de espaldar alto, um bispo.

 

O bispo que morreu dois anos antes

 

Dom Bosco se aproximou com respeito e o reconheceu imediatamente.

 

Era um íntimo amigo seu, um prelado que havia falecido havia dois anos.

 

Tinha um aspecto que Dom Bosco não conseguia descrever com palavras: radiante, afetuoso, de uma beleza incomum.

 

“Oh! Senhor Bispo, vós por aqui?” perguntou ele, cheio de alegria.

 

“Não me vê?” respondeu o bispo.

 

“Mas, como isso? Não morrestes?”

 

“Sim, morri.”

 

“Então como estais aqui, tão radiante e satisfeito? Dizei-me: estais salvo?”

 

O bispo olhou para ele com serenidade:

 

“Sim, estou num lugar de salvação.”

 

“Mas já estais no Paraíso, gozando do Senhor? Ou estais ainda no Purgatório?”

 

“Estou num lugar de salvação, mas ainda não vi a Deus, pelo que necessito de que rezem por mim.”

 

O papel que Dom Bosco não conseguiu ler

 

Dom Bosco perguntou quanto tempo ainda restava para que o bispo pudesse entrar no Céu.

 

O bispo apresentou-lhe uma folha de papel.

 

Dom Bosco olhou com atenção. Não viu nada escrito.

 

“Não vejo nada”, disse.

 

“Veja bem.”

 

E o bispo então explicou: o que Dom Bosco estava encarando era a neblina. Uma névoa espessa que encobre as coisas celestiais e impede a alma de vê-las como realmente são.

 

“São todas as coisas mundanas, que impedem de ver as coisas celestiais como de fato são. Que não se deixem enganar pelas aparências do mundo. Os jovens creem que os prazeres, as alegrias, as amizades do mundo podem fazê-los felizes. Mas tudo é vaidade e aflição de espírito. Que aprendam a ver as coisas do mundo não como elas parecem ser, mas como realmente elas são.”

 

A virtude que mais brilha no Paraíso

 

Dom Bosco quis saber mais. Perguntou o que produzia, principalmente, aquela neblina.

 

O bispo respondeu com clareza:

 

“Assim como a virtude que mais brilha no Paraíso é a Pureza, assim a obscuridade e a neblina são produzidas, principalmente pelo pecado da imodéstia e impureza. É como uma negra nuvem densíssima que tolda a visão e impede os jovens de verem o precipício rumo ao qual caminham.”

 

E acrescentou: os que conservam a pureza “florescerão como o lírio na cidade de Deus.”

 

Dom Bosco perguntou então o que era necessário para conservar a pureza.

 

O bispo respondeu:

 

Recolhimento. Obediência. Fuga do ócio. Oração.

 

E repetiu três vezes, em ordens diferentes, para que Dom Bosco não esquecesse: essas quatro coisas são suficientes.

 

Dom Bosco estava impaciente para transmitir os avisos aos seus jovens. Deixou apressadamente o salão e voou para o Oratório.

 

Mas no caminho parou e pensou: por que saí tão rápido? Perdi a ocasião. Teria aprendido muito mais.

 

Voltou.

 

O que encontrou na volta

 

Quando Dom Bosco entrou novamente no salão, tudo havia mudado.

 

O bispo que ele havia deixado radiante e sereno estava agora estendido sobre um leito, pálido como cera, em agonia.

 

Nos olhos brilhavam as últimas lágrimas.

 

O peito movia-se com dificuldade.

 

Dom Bosco se aproximou, transtornado:

 

“Senhor Bispo, que vos aconteceu?”

 

“Deixe-me”, respondeu o bispo com um gemido.

 

“Teria ainda muitas coisas para vos perguntar.”

 

“Deixe-me só. Sofro profundamente.”

 

“Que posso fazer por vós?”

 

“Reze e deixe-me ir embora.”

 

“Para onde?”

 

“Para onde me conduz a Mão onipotente de Deus.”

 

Dom Bosco insistiu, cheio de compaixão:

 

“Mas ao menos dizei-me: que posso fazer por vós?”

 

E o bispo respondeu com o que lhe restava de força:

 

“Reze por mim.”

 

Uma força invisível arrastou o bispo para habitações mais interiores, e ele desapareceu.

 

Dom Bosco acordou. Estava no seu quarto.

 

E depois disse aos seus jovens: “Neste sonho, aprendi tantas coisas a respeito da alma e do Purgatório como antes jamais havia chegado a compreender, e as vi tão claramente que jamais as esquecerei.”

 

O que este relato nos ensina

 

São João Bosco não chamou aquilo de visão. Chamou de sonho. Mas os salesianos que viveram ao seu lado e registraram o relato nas Memórias Biográficas observaram que a precisão e a profundidade daquilo que ele narrou iam além de um sonho ordinário.

 

Deixemos o debate de lado e fiquemos com o que o próprio Santo disse.

 

Primeiro: o Purgatório existe. 

 

Um bispo, amigo pessoal de Dom Bosco, estava lá. Não em agonia permanente, mas num lugar de salvação, aguardando. Radiante na paz da certeza da salvação, mas ainda impossibilitado de ver a face de Deus.

 

Segundo: ele precisava de orações

 

Não pediu penitências extraordinárias, não exigiu obras heroicas. Pediu que rezassem por ele. O sufrágio pelas almas não é uma devoção entre outras. É uma obrigação de caridade.

 

Terceiro: o mundo é uma névoa

 

Não uma escola de sabedoria, não um lugar de florescimento pessoal. Uma névoa. Algo que obscurece. Que impede a alma de ver onde está indo. E Dom Bosco perguntou o que produzia essa névoa, e a resposta foi direta: a impureza e a falta de modéstia.

 

Quarto: a pureza é a virtude que mais brilha no Paraíso

 

Não a inteligência, não o talento, não o sucesso. A pureza.

 

Quinto: para conservá-la, bastam quatro coisas. 

 

Recolhimento, obediência, fuga do ócio e oração. O bispo repetiu três vezes, em ordens diferentes, para que não ficasse dúvida. Essas quatro coisas são suficientes.

 

Reze pelo bispo. Reze pelos seus mortos.

 

Dom Bosco voltou ao salão e encontrou o bispo em agonia.

 

Não sabemos o que aquela agonia significava. Talvez a purificação se intensificando. Talvez o momento em que a alma avança para habitações mais profundas do Purgatório, onde os sofrimentos são mais agudos. Não cabe especular.

 

O que cabe é ouvir o que o bispo pediu.

 

“Reze por mim.”

 

Quantos dos nossos mortos pediram o mesmo, e nós já não rezamos mais por eles?

 

Quantos esperam, neste momento, um sufrágio que nunca chega, porque os vivos se distraíram com a névoa do mundo?

 

A Liga de Resgate das Almas do Purgatório existe para isso. Toda semana, uma Missa é celebrada pelas almas dos nossos benfeitores e de quem eles indicam. Não é uma iniciativa devocional sentimental. É uma obra de caridade concreta, fiel ao que a Igreja ensina e ao que os Santos viram.

 

Se você tem um morto no coração, e não sabe se ele está em paz, a resposta não é a dúvida. A resposta é a oração e o sufrágio.

 

Reze. Mande celebrar uma Missa. Não espere.

 

Nossa Senhora, Rainha do Purgatório, intercedei pelas almas que aguardam a visão de Deus.

 

Padre Pio de Pietrelcina, apóstolo do Purgatório, que tanto rezastes pelas almas e sofríeis ao ouvi-las implorar, intercedei por elas e por nós.

 

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