São Tomás de Aquino descreve com precisão as duas penas que aguardam a alma – e nenhuma das duas é o que imaginamos

Imagine um homem que amou alguém com toda a força de que era capaz. Imagine que esse amor foi correspondido, que a felicidade estava ao alcance, garantida, certa – e que no momento de estender a mão para tocá-la, uma barreira invisível o detém. Ele sabe que chegará. Sabe que não pode falhar. Mas não pode ainda. E cada instante de espera é uma agonia proporcional à grandeza do que o aguarda.
Isso é, em imagem imperfeita e humana, algo do que São Tomás de Aquino descreve como a primeira e maior pena do Purgatório.
A pena do dano: o retardo da visão de Deus
A pena do dano não é desespero. O desespero pertence ao Inferno, onde a condenação é eterna e a alma o sabe. No Purgatório, a alma tem a certeza absoluta de que verá a Deus – e é precisamente essa certeza que torna a espera insuportável.
Ela está em estado de graça. Ela compreende, com uma clareza que nenhum vivente possui, o que é a eternidade e o que é a felicidade que lhe está assegurada. E com essa clareza, ela percebe que podia estar vendo a Deus face a face agora – e não está.
Podia estar vendo a Deus. Não vê. Podia estar vendo a Deus. Não vê. Esse ritmo interior, essa pressa terrível, é a pena do dano. E São Tomás diz que ela é, por si só, maior do que qualquer sofrimento que se possa imaginar nesta terra.
A alma bem ordenada tem como o mais dinâmico dos seus desejos o desejo de ver a Deus. No Purgatório, esse desejo chega à sua expressão mais pura – e encontra uma barreira. Não se trata apenas do desejo não satisfeito: uma punição especial se soma a isso, um fogo particular que queima o próprio anseio. É uma coisa, portanto, de uma intensidade sem paralelo.
A pena dos sentidos: o fogo que sabe onde queimar
A segunda pena é a pena dos sentidos. Um fogo material purga a alma – e aqui São Tomás entra numa precisão que poucos esperam encontrar numa exposição teológica.
No corpo humano, diz ele, há partes onde as ramificações nervosas são mais abundantes e partes onde são menos. Sofre-se mais onde a sensibilidade é maior. O mesmo princípio se aplica à alma no Purgatório.
A alma sofre sobretudo nos pontos em que foi mais sensível – nos pontos em que a sua sensibilidade pecou mais. O fogo não queima de maneira uniforme e indiferente. Queima com uma precisão que é, ela própria, uma expressão da justiça divina.
Os que cultivaram o orgulho serão queimados no orgulho. Os que cederam à sensualidade, na sensualidade. Os que alimentaram a vaidade, na vaidade. Cada alma carrega, ao entrar no Purgatório, o mapa exato das suas fraquezas – e o fogo conhece esse mapa.
Já é possível ter alguma ideia, por onde se será queimado.
Por que a alma sofre mais do que o corpo jamais sofreu
São Tomás acrescenta um dado que eleva ainda mais a gravidade do que se está descrevendo: a alma é muito mais sensível do que o corpo.
As dores do corpo nesta terra – mesmo as mais intensas, mesmo as mais prolongadas – são uma imagem apenas insuficiente do que é uma alma condenada ao Purgatório. Porque o corpo tem limites de percepção, tem anestesias naturais, tem o sono, tem o desmaio. A alma não tem nenhum desses recursos. Ela sente com uma intensidade para a qual não existe escala humana.
E o fogo que a queima não é imperfeito. Diz São Tomás: tudo quanto Deus faz é muito bem feito. O fogo do Purgatório foi criado por Deus – e queima de maneira a proporcionar verdadeiramente o sofrimento que a justiça divina exige. Não é um fogo descuidado. É um fogo perfeitamente adequado ao seu fim.
O lenitivo: a leveza que cresce a cada instante
Mas há uma coisa que é um lenitivo real. A cada instante que passa, a alma percebe que está mais leve. Há uma sensação de caminhar em direção a Deus – um progresso que se sente, que se percebe, que consola no meio da dor.
E há ainda um princípio que São Tomás chama de anti-igualitário. Duas pessoas que cometeram o mesmo pecado venial não são punidas da mesma forma. Porque a alma não é punida apenas pelo ato que praticou – é punida pelo apego com que o praticou. E os apegos nunca são iguais.
Pode acontecer que dois que pecaram juntos subam em velocidades muito diferentes. E a reação da alma bem ordenada diante disso não é o ressentimento. É o alívio: “Que bom – pelo menos ele está subindo”.
Adorar a Deus na Sua infinita severidade e alegrar-se porque o próximo está subindo mais depressa – essas duas atitudes juntas dão o perfil de uma alma que se salvou e está a caminho do Céu.
O que fazer com este conhecimento
A doutrina sobre as penas do Purgatório não foi transmitida para paralisar de medo, mas para produzir uma disposição concreta: a aversão séria ao pecado venial, não por medo da pena, mas por amor a Deus que foi ofendido.
A mera contrição – o arrependimento sincero – não basta para apagar as penas do Purgatório, assim como o filho preguiçoso que pede perdão ao pai ainda terá de correr na estrada para expiar a preguiça. A reparação tem um peso próprio, independente do perdão.
Que Nossa Senhora, que no Purgatório tem o poder de interceder pela diminuição das penas das almas, nos obtenha desde já a leveza de quem começou nesta terra a pagar o que deve – e a alegria de quem corre não por medo do fogo, mas pela pressa de ver a Deus.




