Quem vai ao Purgatório – e por que a severidade divina deve ser adorada, não apenas temida

Havia em Avila uma mulher que reformou a vida contemplativa da Igreja, fundou dezenas de conventos, escreveu obras que a tornaram Doutora da Igreja e viveu em tal intimidade com Deus que os próprios anjos a invejavam. Chama-se Teresa de Jesus.
E Santa Teresa, segundo revelação recebida por uma alma de confiança, passou pelo Purgatório antes de subir ao Céu.
Não anos. Não meses. Uma genuflexão – entrar no fogo, dobrar o joelho, subir.
E para quem aguardava no Céu a chegada dela, havia uma festa já preparada. Essa é a intransigência de Deus. E essa intransigência – diz a fé católica – é digna de amor.
Quem vai ao Purgatório
A resposta da doutrina é precisa: vai ao Purgatório quem morre em estado de graça, mas carregando pecados veniais não suficientemente expiados, ou as chamadas faltas – ações levemente incorretas, imperfeições que não chegam a romper a amizade com Deus, mas que a sua justiça não pode deixar sem reparação.
O pecado venial não arranca a graça da alma. Deus não corta a sua amizade por causa dele. Mas a justiça divina é de tal ordem que, para punir até essas ações leves, Deus criou o Purgatório – e o manterá até o fim do mundo.
Os senhores estão diante de algo que merece ser contemplado com cuidado: Deus que inunda a alma de dileção, que a sustenta com os sacramentos, que lhe dá sepultura cristã e a recebe no regaço da Igreja – esse mesmo Deus, antes de admiti-la à Sua presença face a face, exige que ela repare, diante dEle, até as ações leves que cometeu.
A intransigência como objeto de amor
Existe uma tentação espiritual muito comum: adorar Deus apenas numa atitude. Ver Nosso Senhor unilateralmente misericordioso, eternamente disposto a perdoar, sempre pronto ao abraço – e fechar os olhos para a Sua severidade.
Mas a severidade de Deus está nEle. E tudo que está em Deus é infinitamente digno de amor. Ou somos capazes de nos entusiasmar pela intransigência divina – mesmo quando ela nos pune como réus – ou não somos capazes de amar a Deus de verdade.
Pense na cena dos vendilhões expulsos do Templo. Nosso Senhor com o açoite. O fulgor do desdém pela profanação das coisas sagradas. Imagine que um deles, deslumbrado por aquela severidade, se tivesse ajoelhado. Duas respostas seriam possíveis: o perdão imediato, ou a ordem de dobrar as costas para receber a pena merecida.
Em qualquer das duas hipóteses, a atitude correta seria a mesma: adoração. Porque ambas revelam Deus tal como Ele é. E Deus tal como Ele é não pode ser outro.
Santa Teresa e o pórtico da glória
O caso de Santa Teresa não é uma exceção curiosa. É, ao contrário, uma revelação do critério. A Igreja admite inteiramente que santos canonizáveis passem pelo Purgatório antes de entrar no Céu.
Isso não diminui a santidade deles. Revela a santidade de Deus. Ele ama essas almas com predileção – e por isso mesmo não as admite à Sua presença sem que estejam perfeitamente purificadas. A entrada no Céu não é uma concessão. É uma exigência de amor.
E quem aguardava Santa Teresa com uma festa preparada compreende que a genuflexão no fogo não foi um castigo degradante. Foi o último ato de purificação de uma alma que ia entrar na glória que merecia.
Uma aplicação concreta e incômoda
Alguém disse algo a seu respeito pelas costas. Chegou aos seus ouvidos – e raramente o que chega assim são elogios. A reação natural é conhecida: indignação, ressentimento, a sensação de traição.
Mas a doutrina do Purgatório obriga a outra pergunta: e se a pessoa tinha razão? Examine com imparcialidade. Se a crítica era justa, merecida e foi dita para o bem de outros – não se escapa disso. Aquele que a disse não era necessariamente inimigo. Era, quem sabe, um instrumento.
Receber mal uma censura justa – essa reação orgulhosa, esse enrijecimento interior – já é matéria para o Purgatório. Pode dar numa falta. Pode dar num pecado venial. E por causa disso, a alma terá lá a sua pena.
Não é uma ameaça. É uma precisão. E a precisão, neste caso, é misericordiosa – porque nos avisa a tempo.
A disposição que a fé exige
Adorar a Deus na Sua intransigência não é masoquismo espiritual. É o reconhecimento de que Ele é absoluto, que a ofensa a Ele tem um peso real, e que a reparação exigida está na ordem da beleza – não da crueldade.
A alma que aprende isso ainda nesta terra já começa a purificar-se. Não porque assim evite o Purgatório com certeza – isso pertence aos desígnios de Deus – mas porque essa disposição de espírito é, em si mesma, o começo da reparação.
Dizer de coração: “Senhor, assim tratais os vossos amigos” – e dizer isso sem amargura, sem protesto, com admiração genuína pela lógica da Sua justiça – é um ato de fé que vale mais do que muitas penitências exteriores.
Que Nossa Senhora, Advogada poderosa das almas do Purgatório, nos obtenha essa disposição de espírito: a capacidade de adorar a Deus nos dois lados do Seu rosto – no perdão e na severidade – sem fechar os olhos para nenhum dos dois.




