Antes de chamar a religião de “ópio do povo”, Karl Marx escreveu versos marcados por pactos com o demônio, condenação, inferno e revolta contra o Criador.

Os primeiros escritos de Karl Marx
Antes de escrever o Manifesto Comunista, Karl Marx desejou ser poeta.
Entre 1836 e 1837, enquanto estudava em Berlim, escreveu dezenas de poemas, uma peça teatral e parte de um romance.
Alguns textos eram dedicados à sua noiva. Outros falavam do demônio, do inferno, da maldição e da revolta contra Deus.
A arte recebida do demônio
Em 1837, Marx escreveu O violinista.
O poema apresenta um músico armado com uma espada e tocando de maneira furiosa. Alguém lhe recorda que sua arte foi concedida por um Deus luminoso.
O violinista responde:
“Deus não conhece essa arte,
ela surgiu em minha mente das névoas do inferno.
Eu a negociei, viva, com o Negro.”
A referência às trevas não é apenas uma interpretação. Logo depois, o próprio personagem afirma explicitamente ter feito um acordo com Satanás:
“Com Satanás fiz o meu acordo.”
O violinista acrescenta que o demônio marca o compasso enquanto ele toca uma marcha da morte.
Marx publicou esse poema em janeiro de 1841.
A vingança contra Deus
Outro texto do mesmo período recebeu o título de Invocação de um desesperado.
A voz do poema afirma que um deus lhe tirou tudo e que somente a vingança lhe restou:
“Quero me vingar
daquele Ser, daquele Senhor entronizado.”
Depois, anuncia que construirá para si um trono frio e terrível, sustentado pelo medo e pela agonia.
O inferno também aparece em A donzela pálida. A personagem perde a fé, declara que sua alma foi escolhida para a condenação e se lança nas águas.
Em Oulanem, peça teatral deixada inacabada, o protagonista fala da “maldição da humanidade”, chama os homens de “macacos de um Deus frio” e lança palavras de desafio contra o Criador.
Do Cristo redentor ao “ópio do povo”
Dois anos antes desses poemas, Marx havia escrito uma redação escolar sobre a união dos fiéis com Cristo.
Naquele texto, afirmou que somente Cristo poderia redimir o homem e que a verdadeira virtude nascia do amor a Ele.
Poucos anos depois, porém, sua posição em relação à religião havia mudado radicalmente.
Entre 1843 e 1844, Marx passou a formular abertamente sua crítica à religião. Na introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, publicada em 1844, escreveu sua célebre sentença:
“A religião é o ópio do povo.”
Para ele, a religião oferecia ao homem uma felicidade ilusória. A libertação humana exigiria o abandono dessa ilusão.
A crítica da religião passou a ocupar um lugar central em seu pensamento. Marx sustentava que era o homem quem fazia a religião, e não a religião que fazia o homem, chegando a falar em uma “abolição positiva da religião”.
A revolta transformada em doutrina
A doutrina comunista entrava em choque com elementos fundamentais da ordem cristã. No Manifesto Comunista, Marx e Engels atacaram a propriedade burguesa, trataram criticamente a família burguesa e responderam às objeções religiosas e morais dirigidas ao comunismo.
Marx e Engels afirmaram no Manifesto Comunista que a revolução comunista constituía a ruptura mais radical com as relações tradicionais de propriedade e que seu desenvolvimento envolveria também a ruptura mais radical com as ideias tradicionais.
Nos poemas da juventude, a revolta aparecia em personagens atormentados, pactos com as trevas e maldições contra Deus. Anos depois, a oposição à religião apareceria também em sua obra filosófica e política.
O jovem que escrevera que somente Cristo poderia redimir o homem terminou sustentando que era o homem quem criava a religião e que a superação dessa “ilusão” fazia parte do processo de emancipação humana.
Fontes:
Carta de Karl Marx ao pai em novembro de 1837
Redação de Marx sobre a união dos fiéis com Cristo
Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel
Manifesto do Partido Comunista




