São Tomás situa o Purgatório no cosmo, revela almas que expiam fora dele – e a Igreja ensina que elas podem pedir socorro

Havia um homem no Rio de Janeiro que chegava sempre atrasado. Incapaz de acordar na hora certa, vivia às voltas com a mesma desculpa. Até que alguém lhe sugeriu uma prática antiquíssima entre os católicos: pedir a uma alma do Purgatório que o acordasse na hora marcada. Ele tentou. E a queixa que fez depois foi esta: as almas são pontuais demais. Tanta vontade de acordar cedo, ele não tinha bem assim.
Por trás do humor está uma realidade teológica que a Igreja nunca negou: as almas do Purgatório existem, sofrem, e em certas condições podem comunicar-se com os vivos. São Tomás de Aquino trata disso com a seriedade e a precisão que lhe são próprias.
Onde fica o Purgatório
A questão do lugar do Purgatório não é ociosa. São Tomás aborda-a diretamente, partindo do que a maioria dos teólogos ensina: o Inferno está no centro da terra.
Se o Inferno, lugar de horror absoluto, está no fundo, e o ar que respiramos é um lugar de agrado e leveza, então o Purgatório – que é penitencial mas não é o horror do Inferno – deve estar acima dele, entre os dois extremos. No fundo, o Inferno. Imediatamente acima, sem acesso ao ar, o Purgatório.
E São Tomás acrescenta um detalhe que dá ao arranjo uma lógica própria: convém que o Purgatório fique próximo do Inferno porque as chamas do Inferno são aproveitadas para purgar as almas que ali cumprem pena. O mesmo fogo – destinações opostas.
Basta esse dado para se ter ideia do calor que suporta, por exemplo, a alma daquela religiosa rebelde de que falamos no artigo anterior, condenada ao Purgatório até o fim do mundo. Se é que outros sufrágios já não abreviaram algo da sua pena. Mas a previsão era taxativa.
Almas que expiam fora do Purgatório
Aqui São Tomás revela algo que poucos conhecem e que muda a maneira de compreender certas experiências humanas.
O grosso das almas cumpre a sua pena no Purgatório propriamente dito. Mas outras almas expiam em lugares marcados por Deus – sofrendo o mesmo que sofreriam se estivessem no Purgatório, mas num local específico determinado pela Providência.
O princípio é direto: uma alma que cometeu um pecado num lugar determinado pode ser levada a expiar nesse mesmo lugar. A justiça divina tem uma memória espacial. O crime e a reparação encontram-se no mesmo endereço.
São Tomás dá outro exemplo ainda mais consolador. Uma pessoa que foi muito devota diante de uma imagem sagrada, que rezou muito diante dela, pode obter de Deus o privilégio de cumprir o seu Purgatório junto àquela imagem. E o santo a quem era devotada intercede por uma libertação tão pronta quanto possível.
A devoção nesta terra tem consequências reais no além. Não é piedade decorativa. É uma semente cujos frutos atravessam a morte.
Quando as almas pedem socorro
As almas que expiam nesses lugares marcados recebem, às vezes, licença de se manifestar. E São Tomás é claro quanto ao propósito: elas aparecem pedindo oração.
Essas manifestações assumem formas muito variadas. Podem ser gemidos imperceptíveis. Jogos de luz e sombra sem explicação. Movimentos estranhos. Uma compaixão interior repentina, uma lembrança intensa de alguém que morreu – que a pessoa recebe sem saber de onde vem. São sinais. E a alma que os envia está fazendo um ato bom: esclarece os vivos sobre o Purgatório e, ao mesmo tempo, recebe o benefício das orações que virão.
Quando se recebe algo assim, diz a tradição, deve-se prontamente atender. Aquela alma foi amada por Deus o suficiente para receber licença de aparecer. Rezar por ela imediatamente é a resposta justa.
A prática de pedir para acordar
Entre os católicos de outrora – e entre muitos ainda hoje – existe a prática de, ao deitar, pedir a uma alma do Purgatório que acorde na hora marcada. Em troca, promete-se rezar por ela.
Todos os que usaram essa prática descrevem a experiência da mesma maneira: na hora exata, acordam com toda a naturalidade – não com susto, não de sobressalto. Acordam simplesmente, como quem recebeu um aviso suave e preciso.
A pontualidade das almas é, ao que parece, perfeita. O que não é de surpreender: uma alma que deseja com toda a intensidade possível estar diante de Deus, e que ainda está retida, tem um senso de tempo que nenhum relógio desta terra consegue imitar.
O que esta doutrina exige de nós
A doutrina sobre o lugar do Purgatório e sobre as almas que expiam fora dele não é curiosidade teológica. É um convite concreto à prática do sufrágio.
Se as almas podem pedir auxílio, e se esse auxílio tem efeito real sobre as suas penas, então cada Missa oferecida, cada Rosário rezado, cada ato de penitência aplicado a elas é uma obra de misericórdia com consequências eternas. Não rezamos pelo esquecimento. Rezamos pelo alívio de quem sofre e aguarda.
Que Nossa Senhora, que nos dias das suas festas desce ao Purgatório com uma revoada de anjos e leva quantidades de almas para o Céu, nos ensine a não esquecer os que partiram antes de nós. Muitos deles esperam. E nossas orações chegam até lá.
Este artigo integra a série “Vozes do Purgatório”, no canal Regina Fidei no YouTube.




