A visita de Leão XIV à França: que balanço tirar desses quatro dias?

Multidões nas ruas de Paris, 80 mil jovens reunidos no Stade de France, 150 mil peregrinos em Lourdes e um inesperado entusiasmo em torno do sucessor de São Pedro.

Sem ocultar a profunda secularização do país, a visita de Leão XIV deixou entrever algo que merece atenção: a França católica talvez esteja mais viva do que muitos imaginavam.

 

Terminou a visita apostólica de Leão XIV à França. Passado o entusiasmo das grandes cerimônias, começam a desaparecer das telas as imagens das multidões que acompanharam o Santo Padre.

Chega, portanto, o momento de fazer uma pergunta talvez mais importante do que a simples crônica dos acontecimentos: que balanço tirar desses quatro dias?

Seria certamente precipitado afirmar que a França está conhecendo uma reconversão religiosa. Décadas de secularização deixaram marcas profundas, a prática dominical permanece reduzida e numerosas dioceses enfrentam problemas de vocações e de transmissão da Fé.

Entretanto, seria igualmente superficial considerar o que aconteceu nesses dias apenas como manifestações provocadas pela presença de uma personalidade mundial.

Algumas imagens da viagem, quando colocadas ao lado de outros fenômenos do catolicismo francês, permitem entrever razões de esperança.

Notre-Dame: uma catedral e um símbolo

A primeira dessas imagens foi Notre-Dame de Paris.

Quando, em abril de 2019, as chamas envolveram a catedral e sua flecha desabou diante das câmeras de televisão, milhões de pessoas acompanharam a cena com uma emoção que ultrapassava amplamente os limites dos católicos praticantes.

Parecia que não ardia apenas um monumento, mas uma parte da própria alma histórica da França.

Sete anos depois, Leão XIV entrava solenemente naquela mesma catedral, restaurada e novamente entregue ao culto, para celebrar as Vésperas diante de milhares de bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e seminaristas.

A coincidência possuía uma força simbólica evidente. Uma igreja que parecera destinada às cinzas havia sido reconstruída e voltava a receber o sucessor de São Pedro.

O próprio Pontífice chamou a atenção para o significado de Notre-Dame, recordando que nela não se encontra simplesmente um monumento do passado, mas um lugar no qual o coração de um povo continua a bater.

O surpreendente rosto jovem do catolicismo francês

Se Notre-Dame falava sobretudo da continuidade histórica da França cristã, a grande vigília realizada no Stade de France mostrou uma realidade diferente e, sob certo ponto de vista, ainda mais surpreendente.

Cerca de 80 mil jovens reuniram-se no estádio para encontrar Leão XIV. Houve música e entusiasmo, mas houve sobretudo oração, veneração da Santa Túnica de Argenteuil e momentos de impressionante silêncio.

Num dos maiores estádios da França, normalmente destinado às competições esportivas e aos grandes espetáculos, dezenas de milhares de jovens estavam ali não para assistir a um cantor famoso ou aclamar uma celebridade, mas para rezar junto ao Papa.

A cena adquire outra dimensão quando colocada ao lado de um fenômeno que há alguns anos chama a atenção na França: o crescimento do número de jovens e adultos que pedem o Batismo.

Na Páscoa de 2026, quase 21.400 adolescentes e adultos foram batizados na Igreja Católica francesa. Entre os adultos, o aumento foi de aproximadamente 28% em relação ao ano anterior, e o número mais que triplicou numa década.

Trata-se ainda de uma realidade numericamente pequena diante da população francesa e seria imprudente transformá-la em prova de uma reconversão nacional. Mas a tendência existe e, sobretudo entre os jovens, começa a despertar interrogações.

O que leva rapazes e moças nascidos numa sociedade amplamente secularizada, muitas vezes educados sem qualquer prática religiosa, a procurar a Igreja e pedir o Batismo?

Quando os Champs-Élysées se transformaram numa igreja a céu aberto

A Missa celebrada na Place de la Concorde produziu provavelmente a imagem mais impressionante de toda a viagem.

Segundo os números divulgados pelo Vaticano, cerca de 800 mil pessoas acompanharam a celebração distribuídas pela praça, pelos Champs-Élysées e pela Grande-Armée.

É evidente que não se pode considerar cada uma dessas pessoas como católica praticante. Numa concentração dessa magnitude havia também curiosos e pessoas simplesmente atraídas pela excepcionalidade do acontecimento.

Ainda assim, dificilmente se poderia considerar irrelevante uma multidão dessa dimensão reunida no coração de uma das capitais mais secularizadas do Ocidente para assistir à Santa Missa.

Os Champs-Élysées constituem uma das grandes vitrines da França moderna. Por aquela avenida passam os desfiles nacionais, as grandes comemorações e algumas das manifestações mais características da vida pública francesa.

Naquele sábado, porém, assistiu-se ali a uma cena que poucos esperariam encontrar em uma das avenidas mais célebres do mundo: homens e mulheres aproximavam-se de sacerdotes para receber o sacramento da Confissão.

As confissões aconteciam na própria rua, entre as lojas, cafés e edifícios dos Champs-Élysées. Alguns fiéis chegavam a ajoelhar-se diante dos sacerdotes, e um dos padres relatou ter permanecido durante horas ouvindo confissões.

Durante algumas horas, aquela avenida adquiriu realmente a fisionomia de uma imensa nave a céu aberto.

Via-se o Papa avançando entre a multidão, sacerdotes distribuindo a Sagrada Comunhão, famílias apresentando seus filhos para receber uma bênção e, aqui e ali, penitentes recebendo a absolvição em plena rua.

Para uma religião tantas vezes descrita como condenada a desaparecer progressivamente do espaço público francês, não era uma cena banal.

Lourdes: a esperança diante da gruta

De Paris, Leão XIV dirigiu-se a Lourdes, e o contraste não poderia ter sido mais expressivo.

Depois das grandes avenidas da capital, a gruta de Massabielle; depois do entusiasmo das multidões urbanas, aquele rochedo diante do qual gerações de peregrinos se ajoelham desde as aparições de Nossa Senhora a Santa Bernadette, em 1858.

Cerca de 150 mil fiéis estiveram presentes, acompanhados por aproximadamente mil sacerdotes, 150 bispos e 1.500 voluntários.

Diante deles, Leão XIV pronunciou uma frase que talvez possa ser considerada uma das chaves espirituais da viagem: os peregrinos não deveriam deixar Lourdes como haviam chegado, mas partir dali como “missionários da esperança”.

A palavra “esperança” adquire em Lourdes um significado particularmente profundo. Ali estão os enfermos, as famílias que sofrem, as pessoas que pedem uma cura, uma conversão ou simplesmente forças para carregar uma cruz que não lhes será retirada.

É uma esperança muito diferente do simples otimismo: nasce precisamente quando as soluções humanas parecem insuficientes.

Metz e a memória cristã da Europa

A última etapa, em Metz, acrescentou outra dimensão à viagem. Cidade marcada pela história das guerras entre França e Alemanha, Metz oferecia ao Papa a oportunidade de falar não apenas à França, mas também à Europa.

Ali reapareceu uma questão que atravessa silenciosamente todo o continente: até que ponto a Europa poderá continuar sendo ela mesma se romper inteiramente com as raízes cristãs que contribuíram decisivamente para formá-la?

As catedrais continuam dominando o centro de inúmeras cidades europeias; a arte, as festas, os costumes e até a paisagem urbana permanecem marcados por séculos de civilização cristã.

Entretanto, uma parte considerável da Europa moderna parece desejar conservar essa herança como patrimônio histórico, separando-a da Fé que lhe deu origem.

A visita de Leão XIV mostrou, porém, que essa Fé não pertence apenas aos museus.

Então, que balanço tirar?

Não se pode afirmar que a França esteja voltando em massa à Igreja. Os números não autorizam semelhante conclusão. Mas há sinais de que o catolicismo francês está longe de desaparecer.

É significativo que, mesmo depois da partida do Papa, tenha surgido o desejo de prolongar aquilo que fora vivido durante aqueles quatro dias.

A iniciativa “Merci Léon”, por exemplo, começou a reunir num grande livro mensagens de agradecimento, intenções de oração e testemunhos destinados ao Santo Padre.

Segundo os organizadores, mais de 13 mil mensagens já haviam sido enviadas poucos dias depois do lançamento da iniciativa.

É um episódio pequeno diante das multidões da viagem, mas revelador de uma disposição de alma: para muitos, o encontro com Leão XIV não deveria terminar com a partida do Papa.

“França, filha primogênita da Igreja…”

É difícil fazer o balanço desses quatro dias sem recordar uma pergunta dirigida à França por outro Papa há quase meio século.

Em 1º de junho de 1980, durante sua primeira viagem apostólica ao país, São João Paulo II celebrava uma grande Missa no aeroporto de Le Bourget.

Diante daquela multidão, São João Paulo II evocou o antigo título da França, “filha primogênita da Igreja”, e dirigiu à nação uma solene interpelação: “França, filha primogênita da Igreja, és fiel às promessas do teu Batismo?”

João Paulo II colocava a França diante de sua própria história e perguntava o que ela havia feito da herança espiritual recebida ao longo de tantos séculos.

Quarenta e seis anos depois, a pergunta continua atual.

Seria exagerado pretender que a visita de Leão XIV tenha fornecido uma resposta. A secularização francesa é profunda demais para isso. Entretanto, esses quatro dias mostraram que nem tudo aquilo que séculos de catolicismo semearam na alma da França desapareceu.

Talvez seja cedo demais para falar de uma primavera católica. Uma primavera não se anuncia por causa de quatro dias de multidões. Mas também não se pode fechar os olhos diante dos primeiros brotos simplesmente porque o inverno é longo.

A pergunta de João Paulo II permanece, portanto, à espera de uma resposta completa. A visita de Leão XIV permite apenas acrescentar uma nota de esperança: sob as cinzas de uma longa secularização, as brasas da França católica não se apagaram.

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