Publicado em 27 de outubro de 2026, um relatório da fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACS) denuncia o agravamento da perseguição religiosa em diferentes regiões do mundo.

Massacres, sequestros, igrejas destruídas e famílias expulsas de suas casas revelam o preço que milhões de cristãos continuam pagando por sua fé.
Cerca de 220 milhões de cristãos estão diretamente expostos à perseguição religiosa em todo o mundo.
Segundo a fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACS), esse número faz parte de um universo ainda maior: aproximadamente 413 milhões de fiéis vivem em países onde a liberdade de praticar a fé sofre graves violações.
Esses números fazem parte do relatório Perseguitati e dimenticati? (Perseguidos e esquecidos?), recém-publicado pela ACS, que examina a situação dos cristãos entre 1º de agosto de 2024 e 30 de junho de 2026.
A investigação analisa 18 países da África, Ásia, Oriente Médio e América Central. A conclusão é preocupante: em 55% deles, a perseguição se agravou em comparação com o período de 2022 a 2024. Nenhum apresentou melhoria geral.
Para além das estatísticas, o relatório apresenta testemunhos de homens, mulheres e crianças que enfrentam ameaças, discriminação, violência e até a morte por permanecerem fiéis a Jesus Cristo.
Três grandes causas de uma perseguição crescente
A ACS identifica três fatores principais que contribuem para o agravamento da perseguição aos cristãos: a expansão do extremismo jihadista, a repressão exercida por regimes autoritários e o crescimento do nacionalismo religioso.
Na África subsaariana, grupos vinculados ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda atacam comunidades cristãs, destroem igrejas e obrigam populações inteiras a abandonar suas terras.
Na China e na Coreia do Norte, a repressão está associada ao controle estatal da vida religiosa. Na Índia e no Paquistão, movimentos nacionalistas e grupos extremistas alimentam a hostilidade contra minorias cristãs.
A perseguição assume formas diferentes. Em alguns países, cristãos são assassinados ou sequestrados. Em outros, enfrentam prisões arbitrárias, proibições religiosas, discriminação legal ou obstáculos para construir igrejas e transmitir a fé aos filhos.
O relatório ressalta que os conflitos religiosos frequentemente se misturam a disputas étnicas, políticas e territoriais. Isso não diminui, porém, a gravidade dos ataques dirigidos especificamente contra comunidades cristãs.
Nigéria: torturado porque se recusou a abandonar a fé
Entre os testemunhos recolhidos pela ACS está o de Solomon Ako, cristão de 33 anos, sequestrado por homens armados nas proximidades de Zaria, no norte da Nigéria.
Os raptores exigiram que ele e os demais prisioneiros se convertessem ao islamismo. Quando se recusaram, começaram as agressões.
Solomon contou que foram espancados, chicoteados e acorrentados. Durante o cativeiro, os sequestradores também os obrigavam a permanecer por horas mergulhados em água fria até o pescoço.
Apesar dos sofrimentos, os prisioneiros continuavam rezando clandestinamente, sobretudo à noite, quando os sequestradores dormiam.
A certeza de que havia cristãos em outras partes do mundo rezando por eles lhes dava forças para resistir.
O caso de Solomon representa uma realidade muito mais ampla. Segundo o relatório, a Nigéria possui mais de 3,5 milhões de deslocados internos, dos quais pelo menos um milhão seriam cristãos.
Em diferentes regiões do país, comunidades inteiras abandonaram suas casas após ataques de grupos jihadistas, bandos armados e milícias envolvidas em conflitos intercomunitários.
África: igrejas destruídas e comunidades obrigadas a fugir
A África subsaariana tornou-se um dos principais centros da violência extremista. Segundo o Global Terrorism Index 2026, citado pela ACS, seis dos dez países mais afetados pelo terrorismo estão no continente.
No Burkina Faso, grupos jihadistas controlariam pelo menos 40% do território nacional, sobretudo em áreas rurais.
Em determinadas localidades, os cristãos são impedidos de ensinar a fé às crianças e obrigados a seguir regras religiosas impostas pelos extremistas.
Um episódio particularmente grave ocorreu em 25 de agosto de 2024, no vilarejo de Sanaba. Militantes jihadistas separaram 26 homens e adolescentes e os assassinaram dentro de uma igreja.
Nos dias seguintes, ataques contra paróquias católicas obrigaram aproximadamente 5 mil mulheres e crianças a fugir.
O relatório registra também um episódio de coragem ocorrido em agosto de 2025: mulheres de uma paróquia de Pibaoré formaram uma barreira humana para proteger seu sacerdote durante uma agressão na Missa.
Em Moçambique, a província de Cabo Delgado sofre há anos com ataques jihadistas. Segundo estimativas citadas pela ACS, aproximadamente mil cristãos teriam sido mortos desde 2017.
Os ataques incluem decapitações, sequestros de crianças, incêndios de igrejas e destruição de povoados.
No Sudão, a guerra civil agravou a situação das comunidades cristãs. Mais de cem igrejas teriam sido danificadas ou destruídas, enquanto sacerdotes e fiéis enfrentam agressões e pressões para abandonar sua religião.
Índia e Paquistão: a perseguição alcança até as famílias
Na Índia, a ACS aponta um crescimento da violência anticristã associado ao nacionalismo religioso hindu e à aplicação de leis estaduais contra a conversão.
Em 2025, foram registrados mais de 700 episódios de violência contra cristãos, incluindo agressões físicas, interrupções de celebrações religiosas e ataques a igrejas.
Algumas famílias chegaram a ser impedidas de sepultar seus mortos conforme os ritos cristãos. Em determinados casos, parentes foram pressionados a exumar corpos já enterrados.
O relatório apresenta o drama de uma família privada do direito de sepultar o próprio filho, revelando como a intolerância religiosa pode atingir até os momentos mais dolorosos da vida familiar.
No Paquistão, a situação das meninas e jovens cristãs desperta especial preocupação.
A ACS denuncia sequestros, conversões forçadas e casamentos impostos a mulheres pertencentes às minorias religiosas.
Muitas famílias enfrentam grandes dificuldades para recuperar suas filhas, enquanto acusações de blasfêmia continuam sendo utilizadas em situações que podem resultar em prisões, ameaças e violência coletiva.
China, Coreia do Norte e Nicarágua: a perseguição praticada pelo Estado
Nem toda perseguição religiosa ocorre por meio de ataques de grupos armados. Em vários países, ela é exercida diretamente pelas autoridades.
Na China, o governo intensificou o controle sobre as comunidades cristãs, com detenções de religiosos, fechamento de igrejas e restrições à divulgação de conteúdos religiosos na internet.
Novas normas adotadas em setembro de 2025 ampliaram a fiscalização das atividades digitais de membros do clero.
Na Coreia do Norte, a prática independente da religião é severamente reprimida. Possuir uma Bíblia ou participar de uma celebração clandestina pode resultar em prisão.
Segundo testemunhos mencionados pela ACS, alguns cristãos chegam a esconder sua fé até mesmo do próprio cônjuge, temendo as consequências de uma denúncia.
Na Nicarágua, a repressão assume outras formas: sacerdotes expulsos do país, instituições religiosas fechadas, propriedades confiscadas e obstáculos às atividades da Igreja.
O relatório registra também restrições às ordenações sacerdotais e à entrada de pessoas portando Bíblias.
Esses exemplos demonstram como a perseguição pode ocorrer tanto pela violência física quanto pela utilização das estruturas do Estado para limitar a liberdade religiosa.
Oriente Médio: o risco de desaparecimento de comunidades cristãs históricas
O Oriente Médio, berço do cristianismo, enfrenta uma crise que ameaça a permanência de comunidades presentes na região desde os primeiros séculos da Igreja.
Na Síria, a instabilidade após a queda do governo de Bashar al-Assad aumentou a preocupação com a segurança das minorias religiosas.
Um dos episódios mais graves foi o atentado suicida contra a igreja de Mar Elias, em Damasco, que provocou 25 mortos e 65 feridos, segundo os dados apresentados pela ACS.
O relatório cita estimativas segundo as quais a população cristã síria teria diminuído mais de 80% desde 2011, em consequência da guerra, da insegurança e da emigração.
No Iraque, apesar de algumas melhorias na segurança, a presença de milícias e as tensões regionais continuam ameaçando as comunidades cristãs.
O Curdistão iraquiano permanece como refúgio para muitas famílias, mas a possibilidade de novos conflitos alimenta o temor de outro êxodo.
A consequência dessa instabilidade vai além das perdas humanas e materiais: regiões onde o cristianismo existe há quase dois mil anos correm o risco de perder definitivamente parte de suas comunidades.
Shahbaz Bhatti: assassinado por defender a liberdade religiosa dos cristãos
O relatório da ACS começa com o testemunho de Peter Bhatti, irmão de Shahbaz Bhatti, ministro federal para os Assuntos das Minorias no Paquistão.
Shahbaz era o único cristão integrante do governo federal e tornou-se conhecido por defender pessoas perseguidas por motivos religiosos.
Entre elas estava Asia Bibi, cristã condenada à morte sob acusação de blasfêmia e posteriormente absolvida.
Sua atuação provocou repetidas ameaças de grupos extremistas.
Em 2 de março de 2011, quando deixava a casa de sua mãe em Islamabad, Shahbaz foi assassinado. Homens armados dispararam 26 tiros contra seu automóvel.
Pouco antes de morrer, ele havia declarado sua fé em Jesus Cristo e sua disposição de entregar a vida por uma causa.
Quinze anos depois, seu irmão recorda que o testemunho de Shahbaz continua inspirando aqueles que defendem a liberdade religiosa.
Sua história demonstra que, mesmo diante da violência, existem cristãos dispostos a permanecer fiéis à própria consciência e a defender o direito de outras pessoas professarem sua religião.
Perseguidos e esquecidos?
Ao reunir estatísticas, investigações e testemunhos, a ACS procura chamar a atenção para uma realidade que muitas vezes permanece esquecida.
São milhões de cristãos que precisam esconder a própria fé, abandonar suas casas, enfrentar ameaças ou suportar a perda de familiares.
Outros permanecem em suas comunidades, mesmo sabendo que novos ataques podem acontecer.
A pergunta presente no título do relatório — Perseguidos e esquecidos? — dirige-se também aos cristãos que vivem em liberdade.
O testemunho de Solomon Ako oferece uma resposta particularmente expressiva. Durante o cativeiro, ele e seus companheiros encontravam forças na certeza de que havia pessoas rezando por eles.
Conhecer o sofrimento dos cristãos perseguidos é o primeiro passo para não esquecê-los. Rezar por eles é uma forma de permanecer ao seu lado.
Fonte e créditos
Este artigo foi elaborado pela Regina Fidei com base no relatório Perseguitati e dimenticati? — Un rapporto sui cristiani oppressi a causa della loro fede 2024–2026, divulgado em 27 de outubro de 2026 pela fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACS), internacionalmente conhecida como Aid to the Church in Need.
O estudo original foi elaborado por John Newton, John Pontifex, Elliott Banks e Nathalie Raffray, com a colaboração de fontes locais e pesquisadores.
Todos os créditos pela investigação, pelos dados estatísticos e pela documentação dos testemunhos pertencem à Ajuda à Igreja que Sofre (ACS).
Relatório completo: https://acs-italia.org/perseguitati-e-dimenticati/
Comunicado de publicação: https://acs-italia.org/persecuzione-cristiani-rapporto-acs-2024-2026/




