Antes da chegada dos primeiros sacerdotes, estudiosos coreanos conheceram a doutrina católica por meio de livros, receberam o santo Batismo e passaram a professar e difundir a fé.

Como a fé católica chegou à Coreia
No final do século XVIII, a Coreia era governada pela dinastia Joseon. A península ainda não estava dividida entre Coreia do Sul e Coreia do Norte, como aconteceria séculos depois.
Foi nesse contexto que a fé católica chegou aos coreanos por meio de livros trazidos da China.
Entre as obras que exerceram influência estava O Verdadeiro Significado do Senhor do Céu, escrita pelo jesuíta Matteo Ricci no início do século XVII. A obra apresentava os ensinamentos cristãos de maneira acessível aos leitores chineses, recorrendo a conceitos que lhes eram familiares.
Alguns estudiosos coreanos tiveram contato com esses escritos e começaram a estudá-los.
A princípio, interessaram-se pelos conhecimentos apresentados nos livros, mas alguns foram além da curiosidade intelectual: passaram a conhecer a doutrina católica e desejaram receber o Batismo.
O primeiro católico coreano
Em 1784, Yi Seung-hun viajou para Pequim como integrante de uma missão diplomática. Ali, recebeu instrução na fé católica e foi batizado com o nome de Pedro.
Ao retornar à Coreia, levou consigo livros e objetos religiosos. Reencontrou Yi Byeok e outros estudiosos que já se interessavam pela doutrina católica e transmitiu o Batismo a alguns deles. Assim começou a se formar o primeiro grupo católico da Coreia.
São João Paulo II recordou esse episódio na homilia da canonização dos mártires coreanos, em 1984, destacando que os primeiros núcleos de fiéis católicos na Coreia surgiram pela ação de leigos convertidos, fato único na história da Igreja.
Anos sem padres
Durante cerca de dez anos, os católicos coreanos permaneceram sem a assistência de sacerdotes. Reuniam-se para estudar a doutrina e rezar, e o grupo crescia graças ao apostolado dos próprios leigos.
Privados da Missa, da Confissão e dos sacramentos reservados ao ministério sacerdotal, procuraram estabelecer contato com a Igreja na China e pediram que um padre fosse enviado.
No final de 1794, o sacerdote chinês Tiago Zhou Wen-mo entrou secretamente no país. Ao chegar, encontrou católicos que conheciam a doutrina e já a transmitiam a outras pessoas.
Na Páscoa de 1795, celebrou a primeira Missa de que se tem registro em território coreano.
A perseguição aos católicos
O crescimento do número de católicos despertou a oposição das autoridades coreanas.
As autoridades da dinastia Joseon, cuja organização política e social se apoiava no confucionismo, consideravam o catolicismo uma doutrina estrangeira e perigosa para a ordem tradicional.
O principal conflito estava na recusa dos fiéis em praticar elementos incompatíveis com a fé católica presentes nos ritos dedicados aos antepassados.
Posteriormente, a entrada clandestina de sacerdotes e o temor de interferências estrangeiras agravaram ainda mais a perseguição.
Em 1791, Paulo Yun Ji-chung e Tiago Kwon Sang-yeon foram condenados à morte por permanecerem fiéis à doutrina católica, tornando-se os primeiros mártires coreanos. Outros os seguiram, entre eles o padre Tiago Zhou Wen-mo, martirizado em 1801.
Em 1845, Santo André Kim Taegon tornou-se o primeiro sacerdote coreano. No ano seguinte, aos 25 anos, também foi martirizado.
As perseguições se estenderam por boa parte do século XIX. Durante esse período, cerca de dez mil católicos deram a vida pela fé. São João Paulo II canonizou 103 deles em 1984. Em 2014, o Papa Francisco beatificou Paulo Yun Ji-chung e outros 123 companheiros.
O apostolado dos leigos coreanos
A Igreja na Coreia nasceu antes da chegada de sacerdotes, sustentada por pessoas que conheceram a fé por meio de livros, buscaram o Batismo e a transmitiram umas às outras. Muitas delas permaneceram fiéis até o martírio.
Essa história recorda uma verdade que vale para todo católico: os leigos também são chamados a professar e difundir a fé, permanecendo unidos à Igreja e aos seus legítimos pastores.
Fontes
- João Paulo II. Homilia da Missa de Canonização dos 103 Mártires Coreanos. Seul, 6 de maio de 1984. Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/en/homilies/1984/documents/hf_jp-ii_hom_19840506_martiri-coreani.html
- Francisco. Homilia da Missa de Beatificação de Paulo Yun Ji-chung e 123 companheiros mártires. Seul, 16 de agosto de 2014. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/en/homilies/2014/documents/papa-francesco_20140816_corea-omelia-beatificazione.html
- National Catholic Register. Who Are the Korean Martyrs? Disponível em: https://www.ncregister.com/cna/who-are-the-korean-martyrs
- Korea.net. Chon Jin Am: Birthplace of Korean Catholicism. Disponível em: https://www.korea.net/NewsFocus/FoodTravel/view?articleId=119409




