Catarina de Gênova nunca escreveu uma regra religiosa nem fundou uma congregação. Mas o que nasceu ao redor dela chegou a Roma, a Nápoles, e ajudou a preparar o terreno para a reforma da Igreja.

Um jovem notário genovês, ainda no fim dos anos 1490, ficou impressionado com o que viu no Hospital de Pammatone. Uma nobre viúva de compromisso cuidava pessoalmente dos doentes mais abandonados da cidade, sem receber nada em troca, durante uma epidemia que fazia até os médicos manterem distância.
O nome dele era Ettore Vernazza. O que ele viu ali mudou o resto de sua vida, e, sem que ninguém pudesse prever, mudou também uma parte da história da caridade católica.
O notário que virou filho espiritual
Vernazza aproximou se de Catarina e entrou para o pequeno círculo de fiéis, religiosos e leigos, que se reuniam ao redor dela. Ele mesmo se descrevia como o dolce figliolo dela, o doce filho espiritual.
Não era discípulo de doutrina abstrata. Era discípulo de exemplo prático, alguém que via na vida diária de Catarina, entre orações e curativos, uma teologia que caberia inteira em palavras, mas que ela preferia viver primeiro.
Em 1497, ainda em vida de Catarina, Vernazza fundou em Gênova a Compagnia del Divino Amore, uma confraria de leigos e sacerdotes dedicada à oração, à penitência e ao serviço direto aos pobres e enfermos.
Pouco depois, fundou também em Gênova o primeiro hospital da Itália voltado exclusivamente a doentes incuráveis, gente que nenhuma outra instituição da época queria receber.
Quatro séculos mais tarde, o mesmo impulso voltaria a aparecer, agora nas montanhas de San Giovanni Rotondo. Padre Pio também olhou para os doentes que ninguém queria tratar e decidiu construir, com as próprias mãos e a ajuda de benfeitores, um hospital.
Chamou de Casa Alívio do Sofrimento. Não foi coincidência de nomes nem de vocação. Foi a mesma caridade católica, atravessando séculos, sempre disposta a recomeçar onde o mundo desiste.
Da confraria genovesa ao Oratório de Roma
Catarina morreu em 1510. Vernazza não parou. Em 1514, obteve a aprovação do Papa Leão X para os estatutos da Compagnia del Divino Amore, e logo depois levou a mesma inspiração para Roma, fundando ali o Oratório do Divino Amor.
A comunidade romana era pequena, no máximo trinta e seis leigos e quatro sacerdotes, reunidos em segredo para orar e sustentar obras de caridade concretas, entre elas o Hospital de São Tiago dos Incuráveis.
O modelo se espalhou. Oratórios semelhantes nasceram em Nápoles, Milão, Florença, Veneza, Brescia, Pádua e outras cidades italianas, todos inspirados direta ou indiretamente na experiência vivida ao lado de Catarina de Gênova.
Uma mulher que jamais escreveu um estatuto religioso havia, sem pretender, dado origem a um dos movimentos de reforma católica mais discretos e mais eficazes do início do século dezesseis.
Hospitais para quem ninguém queria curar
O que distingue essa história de tantas outras é a insistência em servir justamente quem a sociedade preferia esquecer. Os incuráveis daquele tempo eram, em geral, vítimas de doenças graves e visíveis, muitas vezes rejeitados até pelas próprias famílias.
Vernazza, seguindo o exemplo que aprendera com Catarina em Pammatone, fundou pelo menos onze hospitais desse tipo em diferentes cidades da Itália, sempre sustentados por confrarias de leigos dispostos a doar tempo, recursos e, muitas vezes, a própria segurança.
Não havia cálculo ali. Havia caridade levada às últimas consequências, a mesma que Catarina praticava quando permanecia em Pammatone durante os surtos de peste enquanto outros fugiam da cidade.
Os santos que passaram por ali
O Oratório de Roma reuniu, entre seus primeiros membros, dois homens que se tornariam santos e fundadores. Gaetano da Thiene, hoje conhecido como São Caetano, e Gian Pietro Carafa, que mais tarde seria eleito Papa Paulo IV.
Os dois se encontraram justamente naquele círculo nascido do exemplo de Catarina, e ali lançaram as bases da Ordem dos Clérigos Regulares, conhecidos como Teatinos, uma das respostas mais sérias que a Igreja deu à crise do século dezesseis.
A Regra dos Teatinos (Clérigos Regulares) fundamentava-se na total abnegação e na vivência da pobreza apostólica. Eles tinham como princípio o retorno ao estilo de vida dos apóstolos, vivendo da providência divina sem possuir bens ou rendas fixas, dedicando-se à reforma do clero e ao cuidado dos enfermos, refletindo o ideal de serviço total aprendido no exemplo de caridade de Catarina de Gênova.
Historiadores da reforma católica reconhecem hoje que o espírito de Catarina de Gênova, transmitido por Vernazza, chegou a influenciar nomes que estariam depois envolvidos diretamente na preparação do Concílio de Trento. Uma santa leiga, sem hábito, sem convento, sem regra escrita de próprio punho, deixou uma marca que atravessou gerações inteiras de reformadores.
Um corpo que não se corrompeu
Catarina morreu em 15 de setembro de 1510. Curas consideradas milagrosas junto ao seu corpo começaram quase imediatamente, muitas delas verificadas por processos formais da Igreja.
O Papa Clemente XII a canonizou solenemente em 1737, elogiando não apenas suas virtudes, mas também seus escritos. Anos depois, um Papa a declarou padroeira secundária dos hospitais da Itália, reconhecimento direto daquilo que ela e seus discípulos começaram junto aos doentes mais abandonados de Gênova.
O que essa história ensina hoje
Catarina de Gênova nunca soube, em vida, até onde chegaria o que ela vivia diante de Deus. Não planejou fundar movimento algum. Apenas amou, serviu e deixou que outros vissem, de perto, o que esse amor era capaz de gerar.
Foi assim que uma obra de caridade cresceu além dela, sustentada por quem continuou o que ela havia começado.
As almas do Purgatório dependem exatamente do mesmo princípio. Elas não podem mais agir por si mesmas, mas a caridade que alguém oferece hoje em nome delas continua, de algum modo, a obra que a graça começou nelas em vida. Ninguém termina sozinho o que Deus começou numa alma. Sempre depende de outra pessoa continuar.
É esse o espírito da Liga de Resgate das Almas do Purgatório. Cada colaborador ajuda a sustentar Missas semanais oferecidas por essas almas, exatamente como os discípulos de Catarina sustentaram, com recursos concretos, a obra que ela havia começado.
Se você quiser continuar essa corrente de caridade, pode se tornar colaborador da Liga agora e garantir que sua intenção seja lembrada em cada Missa oferecida por elas.
Para quem quiser aprofundar o que a Igreja ensina sobre essas almas, a série Vozes do Purgatório, no Canal Regina Fidei no Youtube, reúne episódios dedicados inteiramente a esse tema.
Que Nossa Senhora, mãe de toda caridade verdadeira, interceda por quem hoje continua, muitas vezes sem saber, a obra de tantos santos esquecidos. E que Padre Pio, apóstolo incansável do Purgatório, junte sua oração à nossa, por cada alma que ainda espera pela caridade dos vivos.
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Fontes consultadas: Federico Donaver, Vie di Genova (1912); Treccani, Dizionário Biográfico degli Italiani, verbete Ettore Vernazza; Enciclopédia Bresciana, verbete Oratorio del Divin Amore; New Catholic Encyclopedia, verbete Divine Love, Oratory of; Vatican News, reportagem sobre a causa de beatificação de Ettore Vernazza; Friedrich von Hügel, The Mystical Element of Religion as Studied in Saint Catherine of Genoa and Her Friends (1923); Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova, edições diversas em português.




