Quatro anos depois de Guadalupe, uma índia tupinambá sonhou com a Mãe de Deus e construiu o primeiro santuário mariano brasileiro.

Há quase quinhentos anos, quando o Brasil ainda engatinhava como colônia portuguesa, uma história extraordinária começava a ser escrita não com tinta, mas com fé.
A protagonista? Guaibimpará ou Catarina Paraguaçu, como passou a se chamar, era uma jovem indígena de uma tribo dos índios tupinambás.
O cenário? As praias selvagens da Bahia. E o enredo? Uma sequência de sonhos, ou seriam visões, em que a Mãe de Deus mostrou-se a ela.
O padre jesuíta Simão de Vasconcellos conta em sua “Chronica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil”, publicada em 1663, a primeira manifestação de Nossa Senhora em terras brasileiras.
Sonho ou Visão Persistente?
Tudo começou com o coração inquieto de uma jovem mulher nativa.
Catarina, índia Tupinambá e filha do cacique Taparica, já havia surpreendido a todos ao se converter ao catolicismo e se casar com o português Diogo Álvares Correia, o famoso náufrago conhecido como Caramuru.
Porém, em uma noite de 1535, Catarina acordou perturbada e contou ao marido um sonho vívido e repetitivo: em uma praia deserta, ela via os destroços de um navio.
Os homens brancos que ali estavam padeciam, famintos e à mercê dos perigos da terra desconhecida.
Mas o que mais chamava a atenção na visão era a presença de uma bela senhora, que segurava uma criança no colo, iluminando a cena de desolação.
Caramuru, um homem prático, ouviu o relato com certa incredulidade, mas ainda assim ordenou que explorassem a costa. Nada encontraram.
O sonho, porém, voltou a assombrar (ou abençoar) o sono de Catarina. Diante da insistência da esposa, uma segunda expedição foi enviada.
Pouco tempo depois, descobriu-se que uma nau espanhola havia naufragado no litoral baiano. Caramuru acorreu em auxílio dos sobreviventes, salvando-os da voracidade dos índios.
A Mãe de Deus quis servir-se desse naufrágio para entrar na Terra de Santa Cruz, com a Divina Graça, Seu Filho Jesus Cristo, da qual é cheia.
É assim que Nossa Senhora age: entra na história quando tudo parece perdido e transforma acontecimentos humanos em caminhos de salvação.
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Mas faltava alguém. Onde estava a senhora? Ninguém conseguiu localizá-la.
A Senhora que Iluminava o Naufrágio
Catarina Paraguassu ficou profundamente triste e pedia com grande insistência para o marido ir buscar uma formosíssima mulher que viera no navio e estava cativa entre os índios.
Naquela mesma noite, enquanto dormia, a Senhora apareceu novamente e disse com clareza:
“Vão me buscar e me construam uma casa”.
Ao acordar, a jovem indígena foi incansável na sua insistência, dizendo que em alguma daquelas aldeias os índios a mantinham prisioneira, pois ela não cessava de lhe aparecer em visões.
Caramuru, vendo que o primeiro sonho havia se confirmado com o achado do navio, decidiu investir em uma terceira busca.
Foi então que numa humilde palhoça, guardada por um nativo da região, estava uma pequena imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus nos braços.
Diogo levou-a com grande reverência para a esposa. Catarina a recebeu derramando lágrimas de alegria e abraçou-a, dizendo ser aquela a mulher que lhe aparecia e falava.
O Primeiro Santuário Mariano do Brasil
Para atender ao pedido da Senhora, Catarina pediu ao marido que mandasse construir uma ermida para abrigar a sagrada imagem.
Esta foi feita, primeiramente de taipa, mais tarde de pedra e cal. Nela foi entronizada solenemente a imagem, invocada sob o título de Senhora da Graça.
Essa pequena capela, localizada onde hoje é a cidade de Salvador, tornou-se a Igreja de Nossa Senhora da Graça: um dos primeiros templos religiosos da Bahia e o primeiro santuário mariano do Brasil.
Catarina Paraguaçu pediu para ser enterrada bem à vista da mesma Senhora da Graça. Dizia que “tendo recebido d’Ela em vida tantos favores, não queria sair de sua presença após a morte”.
Porque quem é tocado por Nossa Senhora não permanece indiferente: responde, constrói, se compromete.
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Na verdade, mais do que um sonho, foi uma graça, tão grande Graça de Deus, por meio de Sua Santa Mãe, que acabou dando nome a um dos bairros mais belos de Salvador: o bairro da Graça, da graça que Paraguaçu recebeu e que dela se estendeu para todo povo.
A devoção se espalhou tão rapidamente que, em 1586, a ermida foi doada à Ordem de São Bento. Até hoje, os monges beneditinos cuidam desse patrimônio espiritual, um local que respira história e santidade.
Infelizmente, a devoção a Nossa Senhora da Graça arrefeceu ao longo do tempo e as aparições de Nossa Senhora a Catarina Paraguaçu passaram a ser consideradas, por parte da crítica histórica, apenas como lenda.
“Eu Sou a Graça”: Uma Conexão entre Cimbres e Salvador?
Mas a memória daquela graça jamais desapareceu completamente do coração do povo baiano, pois a Igreja da Graça continuava erguida como testemunha silenciosa.
Em 1936, no distrito de Cimbres, em Pesqueira, Pernambuco, a Santíssima Virgem Maria apareceu a duas jovens, Maria da Luz e Maria da Conceição.
A Mãe de Deus vinha advertir de que três castigos se abateriam sobre o Brasil e que o país veria um banho de sangue, com perseguição a padres e bispos, caso o povo não se convertesse.
Quando o pai de uma delas, desconfiado, pediu que perguntassem à visão quem era, a resposta foi clara e direta: “Eu sou a Graça”.
A partir daí, o povo a batizou de Nossa Senhora das Graças, mas a Santíssima Virgem se referiu à “Graça” no singular.
Uma simples coincidência? Ou será que a Santíssima Virgem queria conectar suas primeiras aparições a Catarina Paraguaçu àquelas do sertão nordestino?
Não é possível afirmar, com certeza, se existe conexão entre a visão da índia no século XVI e as aparições em Cimbres no século XX, mas a coincidência não deixa de ser significativa.
O que sabemos é que, tanto na primeira palhoça na Bahia quanto nas aparições no interior de Pernambuco, Nossa Senhora veio para espalhar a graça de Seu Divino Filho sobre o povo brasileiro.




