Em nosso tempo, muitos dizem ter fé, mas aceitam apenas as verdades que lhes convêm. A fé verdadeira começa quando o homem se submete inteiramente à verdade de Deus.

Nunca se falou tanto de fé. E raramente se compreendeu tão pouco o que ela significa.
Há uma palavra que continua a aparecer em toda parte: fé.
Ela surge em discursos públicos, em entrevistas de artistas, em conversas cotidianas. Pessoas de origens muito diferentes dizem com tranquilidade: “Eu tenho fé em Deus”.
A afirmação tornou-se tão comum que quase ninguém a examina.
A fé parece algo evidente, quase automático, como se bastasse pronunciar essa palavra para que a realidade espiritual estivesse resolvida.
Mas convém deter-se um instante e fazer a pergunta essencial: o que é realmente a Fé, com F maiúsculo?
Essa pergunta toca um dos pontos mais decisivos da vida espiritual.
O que muitos entendem por fé
O mundo contemporâneo fala muito de fé, mas frequentemente utiliza essa palavra em um sentido muito diferente daquele que a tradição cristã sempre ensinou.
Para muitos, fé significa um sentimento religioso, uma inclinação interior para o sagrado ou uma confiança vaga de que existe algo superior que protege a vida humana.
Essa compreensão sentimental e difusa da fé espalhou-se amplamente.
Ela agrada porque não exige esforço intelectual nem mudança de vida.
Permite conservar uma atmosfera religiosa sem enfrentar as exigências da verdade.
A fé segundo a tradição da Igreja
A tradição da Igreja ensina algo muito mais profundo.
Os grandes teólogos explicam que a fé pertence à ordem sobrenatural.
Ela não nasce simplesmente de uma reflexão humana ou de uma emoção religiosa. É um dom que Deus comunica à alma, permitindo ao homem aderir firmemente às verdades reveladas por Ele.
Santo Tomás de Aquino, na Summa Theologiae, formulou uma definição clássica:
A fé é um ato da inteligência que adere à verdade divina sob o impulso da vontade movida por Deus.
Este dom, é infundido por Deus, através dele a inteligência é inclinada a aderir com firmeza às verdades reveladas, não por serem vistas como evidentes pela razão, mas pela autoridade de Deus que as revela.
Essa definição contém três elementos fundamentais.
Primeiro: a fé envolve a inteligência. Crer significa reconhecer como verdadeiro aquilo que Deus revelou.
Segundo: a fé envolve a vontade. O homem aceita livremente a autoridade de Deus e confia em Sua palavra.
Terceiro: a fé tem origem divina. A adesão às verdades reveladas ultrapassa as forças naturais da inteligência humana. Deus concede ao homem uma luz interior que torna possível esse ato.
É assim que os teologos entendem a fé, tal como ensina a Santa Igreja.
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Uma consequência inevitável
Essa concepção da fé possui uma consequência imediata.
Ter fé significa necessariamente aceitar toda a verdade revelada por Deus.
Essa aceitação não se limita a certos aspectos da religião considerados mais agradáveis ou mais aceitáveis pelo espírito da época. Ter fé é aceitar a totalidade da revelação divina.
Essa integridade sempre foi afirmada pelos grandes doutores da Igreja.
Santo Agostinho advertia com grande clareza: quem aceita do Evangelho apenas aquilo que lhe agrada e rejeita o restante acaba confiando não no Evangelho, mas em si mesmo.
Ao escolher apenas as verdades que lhe convêm, o homem deixa de submeter-se à palavra de Deus e passa a fazer da própria opinião a medida da verdade e deixa de ter fé.
A religião construída pelo próprio homem
O pensamento de Santo Agostinho revela um fenômeno bastante visível no mundo contemporâneo.
Muitos afirmam possuir fé e, ao mesmo tempo, selecionam os elementos da religião que consideram aceitáveis.
Acreditam em Deus, mas relativizam os mandamentos.
Valorizam a espiritualidade, mas desconfiam da doutrina.
Falam de amor cristão, mas evitam qualquer referência ao pecado ou à necessidade de conversão.
Forma-se assim uma religião feita à medida do próprio homem.
Uma religião confortável.
Uma religião adaptada às preferências pessoais.
O ensinamento do Padre Royo Marín
O dominicano Padre Antonio Royo Marín, um dos grandes teólogos espirituais do século XX, tratou desse problema com grande clareza.
Em seus estudos sobre as virtudes teologais, ele ensina que a fé autêntica exige a aceitação integral da revelação divina tal como proposta pelo Magistério da Igreja.
Quando o homem aceita algumas verdades e rejeita outras, ele deixa de praticar a virtude da fé.
Essa observação ajuda a compreender uma das raízes da crise religiosa contemporânea.
A mentalidade dominante do nosso tempo
A cultura moderna estimula a autonomia absoluta do indivíduo.
Cada pessoa sente-se autorizada a definir suas próprias convicções morais e religiosas.
Nesse ambiente, a ideia de uma verdade revelada por Deus e transmitida pela Igreja encontra resistência.
A religião tende então a tornar-se uma experiência subjetiva, em que cada indivíduo constrói sua própria forma de espiritualidade.
Entretanto, a fé cristã sempre se apresentou como adesão a uma verdade objetiva tal como revelada por Deus.
Deus se revelou na história. Ele deu a conhecer verdades sobre Si mesmo, sobre o homem e sobre o destino eterno da humanidade.
Essas verdades foram confiadas à Igreja para serem transmitidas ao longo dos séculos.
A fé consiste precisamente em aceitar essa revelação integralmente, sem negar nada, nem escolher o que mais convém.
Humildade diante da verdade de Deus
Esse ato exige humildade intelectual.
O homem reconhece que a verdade divina ultrapassa sua compreensão e acolhe o ensinamento de Deus, tal como transmitido pela Igreja, com confiança.
Essa atitude contrasta profundamente com o espírito dominante em muitas correntes culturais contemporâneas.
O homem moderno é frequentemente convidado a colocar sua própria opinião como medida suprema da verdade.
A religião moldada pelas preferências individuais torna-se então confortável e socialmente aceitável.
Entretanto, os grandes mestres da tradição cristã sempre insistiram no caráter exigente da fé.
São Pio X, ao enfrentar os erros da heresia modernista no início do século XX, recordou que a fé cristã repousa sobre verdades objetivas reveladas por Deus, e não sobre sentimentos subjetivos ou ideia que podem evoluir ou mudar ao longo do tempo.
Na encíclica Pascendi, ele denunciou o modernismo como “a síntese de todas as heresias”, pois essa corrente pretendia transformar a fé em um sentimento religioso sujeito às mudanças do tempo.
Quando a fé é reduzida a uma experiência subjetiva, o próprio fundamento da religião começa a dissolver-se.
A fé orienta a vida
A fé possui também uma dimensão prática.
Ela não permanece apenas no plano das ideias.
A adesão às verdades reveladas orienta as escolhas da vida cotidiana.
Quem crê verdadeiramente considera a existência humana à luz da eternidade.
A presença de Deus, o valor da graça, a realidade do pecado e o destino eterno da alma influenciam as decisões concretas.
Essa coerência entre fé e vida aparece de maneira luminosa na história dos santos.
Eles viveram convencidos de que Deus existe, que Deus fala e que a palavra divina merece confiança absoluta.
Essa convicção iluminou suas escolhas, sustentou seus sacrifícios e inspirou sua coragem.
Os mártires das primeiras perseguições cristãs oferecem um exemplo eloquente. Eles enfrentaram ameaças, torturas e morte porque estavam persuadidos da verdade da fé que professavam.
Essa firmeza espiritual nasce de uma convicção profunda alimentada pela graça.
Um exame de consciência necessário
A reflexão sobre esses testemunhos conduz naturalmente a uma pergunta pessoal.
Qual é a relação entre a fé que professamos e a vida que levamos?
Essa pergunta merece ser considerada com serenidade e sinceridade.
A fé orienta a inteligência, fortalece a vontade e ordena a vida do homem.
A consciência da presença de Deus influencia o modo de pensar, de agir e de julgar os acontecimentos.
O homem que vive na fé procura ordenar sua vida segundo a vontade divina.
Essa orientação manifesta-se na oração, na fidelidade aos mandamentos e na busca sincera da virtude.
A fé cresce quando é cultivada
A tradição espiritual cristã recomenda frequentemente um exame de consciência sobre a fé.
Esse exame busca renovar a adesão à verdade revelada e fortalecer a vida espiritual.
Uma pergunta simples pode ajudar nessa reflexão:
Que lugar ocupa a fé nas decisões concretas da vida?
Quando surgem escolhas difíceis, a luz da fé orienta o julgamento?
A doutrina ensinada pela Igreja é acolhida como guia seguro?
A vida de oração alimenta a relação pessoal com Deus?
Essas questões convidam a uma tomada de consciência.
A fé cresce quando é cultivada.
A oração pede a Deus o aumento desse dom sobrenatural. O estudo da doutrina cristã aprofunda o conhecimento das verdades reveladas. A participação nos sacramentos fortalece a vida da graça.
“Senhor, aumentai a minha fé”
Entre as súplicas mais belas do Evangelho encontra-se a oração de um homem que reconhecia a fragilidade de sua fé e desejava fortalecê-la.
Ele disse a Jesus Cristo:
“Senhor, eu creio, mas aumentai a minha fé.” (Lc 17,5)
Essa oração exprime confiança em Deus e consciência da própria necessidade de crescimento espiritual.
A fé permanece uma luz preciosa na vida humana.
Ela permite ao homem conhecer verdades que ultrapassam os limites da razão natural e orienta sua caminhada em direção ao destino eterno.
Num tempo em que a palavra fé é repetida com tanta facilidade, torna-se ainda mais importante redescobrir o seu verdadeiro significado.
A fé consiste em confiar na palavra de Deus, acolher a verdade revelada e permitir que essa verdade ilumine toda a vida.
E então a fé deixa de ser apenas uma palavra repetida.
Ela se torna uma luz que orienta cada passo da vida.
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