Há 204 anos, às margens do Ipiranga, um acontecimento mudou definitivamente a história do Brasil.

Em 7 de setembro de 1822, Dom Pedro proclamou a Independência. A partir daquele momento, o Brasil caminhava para deixar de fazer parte do Reino de Portugal e se afirmar como nação soberana.
Mas o que deve significar essa data para nós, católicos brasileiros, mais de dois séculos depois?
Plinio Corrêa de Oliveira deixou uma reflexão particularmente bela sobre esse momento. Em 1970, ao anunciar uma vigília de oração que seria realizada na noite de 6 para 7 de setembro junto ao Monumento do Ipiranga, escreveu:
“Estou certo de que logo que Dom Pedro I proclamou a Independência e o Brasil surgiu como nação soberana, Nossa Senhora deu a nosso País sua primeira benção e seu primeiro sorriso.”
É difícil imaginar uma maneira mais bonita de olhar para o nascimento do Brasil independente.
O primeiro sorriso sobre uma nação que nascia
A cena descrita por Plinio Corrêa de Oliveira não pretende acrescentar um episódio aos livros de História. É uma reflexão de caráter religioso.
No momento em que o Brasil começava sua existência como nação soberana, ele contempla o acontecimento com olhos católicos e imagina sobre aquela nova pátria a proteção maternal de Nossa Senhora.
E não é por acaso.
A história brasileira nasceu profundamente marcada pelo catolicismo.
Antes mesmo da Independência, Nossa Senhora da Conceição já era venerada oficialmente como Padroeira do Reino de Portugal e seus domínios. Décadas depois da proclamação de 1822, a devoção à imagem encontrada nas águas do Paraíba se consolidaria cada vez mais na alma brasileira, até Nossa Senhora Aparecida ser proclamada Padroeira do Brasil.
Por isso, para um católico, amar o Brasil e rezar pelo Brasil são coisas que naturalmente se encontram.
Plinio Corrêa de Oliveira terminou aquela reflexão de 1970 manifestando o desejo de que o Brasil soubesse corresponder aos “mil sorrisos” da bondade de Nossa Senhora e pedindo que Ela jamais deixasse de rezar pelo País.
Talvez esteja aí uma maneira especialmente católica de celebrar o 7 de Setembro.
Patriotismo não é apenas bandeira e desfile
Anos antes, em 1939, Plinio Corrêa de Oliveira havia tratado expressamente do que chamou de “patriotismo autêntico”.
Sua preocupação era distinguir o verdadeiro amor à pátria dos nacionalismos exagerados que transformavam a nação quase num absoluto.
Para o pensamento católico, amar a própria pátria não significa desprezar as outras.
Todos os povos foram criados por Deus. Entretanto, assim como existe um amor especial e legítimo pela própria família, existe também um amor especial pela terra, pela história, pelas tradições e pelo povo aos quais a Providência nos ligou.
Esse amor tem consequências.
Patriotismo verdadeiro não consiste apenas em se emocionar quando a bandeira sobe ao mastro ou quando se escuta o Hino Nacional.
É desejar que o Brasil seja melhor.
É conservar aquilo que recebeu de bom de seus antepassados.
É transmitir aos filhos a Fé, os princípios, os costumes e as tradições que fizeram parte da formação do País.
É trabalhar pelo bem comum.
É sofrer com seus erros sem deixar de amar a pátria por causa deles.
E é ter coragem de defender aquilo que pode torná-la verdadeiramente grande.
“O Brasil só será grande…”
Em 7 de setembro de 1942, outra coincidência extraordinária uniu a data da Independência a uma grande manifestação da Fé católica.
Naquele dia encerrava-se, em São Paulo, o IV Congresso Eucarístico Nacional.
O Vale do Anhangabaú estava tomado por uma enorme multidão. Bispos, sacerdotes, autoridades civis e militares e fiéis participavam daquela manifestação pública de fé na Eucaristia.
Plinio Corrêa de Oliveira, então presidente da Junta Arquidiocesana da Ação Católica de São Paulo, foi encarregado da saudação às autoridades.
A ideia central daquele discurso poderia ser resumida numa frase: o Brasil só seria verdadeiramente grande na medida em que soubesse ser filho de Deus.
Essa afirmação merece ser recordada justamente no 7 de Setembro.
Porque uma nação pode possuir um território imenso, riquezas naturais extraordinárias, cidades gigantescas e milhões de habitantes. Tudo isso representa potencial de grandeza.
Mas existe uma grandeza ainda maior.
É a grandeza moral de um povo.
É a grandeza de suas famílias.
É a grandeza de seus santos.
É a grandeza de homens e mulheres capazes de colocar seus deveres acima de seus interesses.
É a grandeza de uma sociedade que reconhece que acima dos homens, dos partidos, dos governos e dos poderes deste mundo está Deus.
Um “novo 7 de Setembro”
Há ainda uma expressão de Plinio Corrêa de Oliveira que parece escrita para provocar uma reflexão nos brasileiros de hoje.
Em 1935, comentando o crescimento da presença católica na sociedade brasileira, ele manifestava a esperança de que essa influência um dia chegasse às várias camadas da sociedade e às instituições do País.
E então escreveu:
“Nesse dia, o Brasil será grande: terá raiado para ele um novo 7 de Setembro.”
A frase é impressionante.
O primeiro 7 de Setembro deu ao Brasil sua independência política.
O “novo 7 de Setembro” sonhado por Plinio seria, podemos interpretar, uma renovação moral e espiritual do País.
E talvez seja essa a pergunta que cada brasileiro deveria fazer hoje:
Que Brasil estamos deixando para nossos filhos e netos?
Celebrar a Independência olhando apenas para 1822 seria pouco.
Uma pátria é também uma herança que cada geração recebe, administra durante algum tempo e entrega à geração seguinte.
Nós recebemos o Brasil de nossos pais e avós.
Recebemos suas igrejas, suas cidades, sua língua, suas tradições, suas famílias, suas devoções e uma história profundamente marcada pela presença da Igreja Católica.
Um dia teremos de entregar tudo isso aos que vierem depois de nós.
Em que estado entregaremos essa herança?
Neste 7 de Setembro, uma oração pelo Brasil
Talvez possamos, portanto, celebrar este 7 de Setembro de maneira diferente.
Coloquemos por alguns instantes de lado as disputas passageiras e olhemos para algo muito maior do que elas: o Brasil.
Rezemos por nossa pátria.
Rezemos por nossas famílias.
Rezemos pelos que governam e pelos que têm responsabilidades sobre o futuro do País.
Rezemos especialmente para que o Brasil não perca sua alma cristã.
E peçamos a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, que continue olhando maternalmente para esta terra.
Se, naquela bela imagem de Plinio Corrêa de Oliveira, Nossa Senhora sorriu quando o Brasil nasceu como nação soberana, peçamos que Ela possa continuar sorrindo para o Brasil.
E que cada um de nós faça a sua parte para que este País seja digno das graças que recebeu.
Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, rogai por nós.
Deus guarde o Brasil!
Fontes principais
Plinio Corrêa de Oliveira, “E Nossa Senhora sorrirá ao Brasil”, Folha de S. Paulo, 14 de junho de 1970.
Plinio Corrêa de Oliveira, discurso de encerramento do IV Congresso Eucarístico Nacional, São Paulo, 7 de setembro de 1942.
Plinio Corrêa de Oliveira, “Patriotismo autêntico”, O Legionário, 29 de janeiro de 1939.
Plinio Corrêa de Oliveira, “Progressos”, O Legionário, janeiro de 1935.




