Chamava-se Eufrânio Desideri. Pregou até no palácio do Sultão. E nós ainda tratamos oração pelos mortos como “opcional”.

Quem foi São José de Leonessa
O nome dele, antes do hábito, era Eufrânio Desideri. Um homem de carne e osso, nascido em Leonessa, que entrou nos capuchinhos e virou sacerdote.
Para a espiritualidade católica — e de modo muito particular para a devoção às almas do Purgatório — é um santo que não pode ser esquecido, pois sua vida foi marcada por uma caridade sobrenatural concreta, silenciosa e perseverante, exercida em favor daqueles que já não podem mais ajudar-se a si mesmos.
Frade capuchinho, missionário incansável, pregador ardoroso, homem de oração profunda e de penitência austera, ele compreendeu cedo uma verdade central da fé: a Igreja não termina na terra. Ela continua no Purgatório, onde inúmeras almas aguardam, em sofrimento purificador, o dia de sua entrada definitiva na glória de Deus.
Essa convicção não ficou no plano das ideias. Tornou-se prática cotidiana.
Uma vida oferecida pelas almas do Purgatório
Desde os primeiros anos de vida religiosa, São José de Leonissa assumiu como missão pessoal rezar, sofrer e oferecer sacrifícios pelas almas do Purgatório.
Não o fazia por emoção passageira nem por devoção acessória, mas por senso de justiça e de caridade. Para ele, abandonar essas almas seria abandonar membros vivos do Corpo Místico de Cristo.
Mais significativo ainda é que, após esses sufrágios, algumas dessas almas voltavam a manifestar-se, agora cheias de paz e alegria, para agradecer e anunciar sua libertação. Esses testemunhos, recolhidos na tradição capuchinha, reforçaram a convicção de que a oração dos vivos tem efeito real, eficaz e imediato em favor dos mortos.
A missão que levou ao martírio
Em 1587, com permissão do Papa Sisto V, ele vai a Constantinopla para assistir cristãos feitos prisioneiros. Não era passeio, nem “diálogo simpático”. Era resgate de almas. Era caridade com risco real.
Essa caridade era extensão de sua missão cotidiana: tudo era conscientemente oferecido por intenções precisas, entre as quais o Purgatório ocupava lugar de destaque.
Lá, São José faz o impensável: anuncia Nosso Senhor Jesus Cristo com tamanha ousadia que chega a pregar o Evangelho até no palácio do Sultão (as fontes citam a tentativa de tocar o próprio Murad III).
Resultado: prisão. Tortura.
E aqui a cena corta qualquer cristianismo de enfeite: por três dias ele ficou pendurado numa trave, preso por ganchos de ferro cravados na mão e no pé. Algumas tradições relatam ainda o fogo aceso sob ele para aumentar o tormento. Ele sobreviveu. Foi libertado.
Repare: ele não voltou “traumatizado” para se poupar. Voltou mais apóstolo.
O Purgatório como urgência de caridade
De volta à Itália, virou missionário dentro de casa: pregava sem descanso, em vilas e cidades, chegando a pregar várias vezes no mesmo dia, e se consumia cuidando de pobres e peregrinos. Um santo que não vivia de frase; vivia de entrega.
Seus biógrafos relatam que, em diversas ocasiões, almas do Purgatório lhe apareceram, suplicando sufrágios. Pediam Missas, penitências, orações simples, aceitação paciente de sofrimentos.
São José de Leonissa atendia a esses pedidos com prontidão. Jejuava, prolongava as vigílias, oferecia dores físicas e humilhações, sempre com intenção explícita de aliviar aquelas almas.
Seu testemunho ensina algo que hoje muitas vezes se esquece: o Purgatório não é apenas uma realidade distante, mas uma urgência de caridade.
Muitas almas ali sofrem não por grandes crimes, mas por faltas pequenas, apegos não purificados, negligências espirituais que não foram reparadas em vida. No entanto, essas almas amam a Deus com intensidade, desejam-No com ardor e sofrem justamente porque ainda não podem possuí-Lo.
Por isso, São José de Leonissa insistia tanto na responsabilidade dos vivos. Ele falava com clareza: quem pode ajudar e não ajuda, falha na caridade.
A Santa Missa, o Rosário, as indulgências, os pequenos sacrifícios aceitos com espírito sobrenatural — tudo isso, oferecido com intenção reta, torna-se alívio concreto para as almas sofredoras.
Morreu em 4 de fevereiro de 1612, em Amatrice. Até depois de morto o povo não o “largou”: há registro de que, após o terremoto de 1639, suas relíquias foram levadas para Leonessa, onde são veneradas.
A Igreja confirmou esse brilho: foi beatificado em 22 de junho de 1737 pelo papa Clemente XII e canonizado em 29 de junho de 1746 pelo papa Bento XIV.
Sua festa litúrgica, celebrada hoje, 4 de fevereiro, é ocasião providencial para recordar uma verdade que atravessa séculos: rezar pelas almas do Purgatório é uma obra de misericórdia espiritual que nunca perde atualidade.
Em um tempo em que a morte é muitas vezes silenciada e o além-esquecido, santos como São José de Leonissa nos devolvem o senso da eternidade.
A pergunta que permanece diante de nós
Agora eu te peço honestidade diante de Deus: se um homem atravessou ganchos e sangue por amor a Cristo e às almas, como nós podemos tratar as almas do Purgatório como assunto secundário?
O Purgatório é o lugar das almas salvas, mas ainda não purificadas. Elas não podem mais “merecer” por si. Elas dependem da caridade da Igreja. Dependem de nós. E muitas estão esquecidas: pobres almas sem nome, sem família, sem ninguém que se lembre delas.
E é por isso que, no próximo segunda-feira, como fazemos semanalmente, será celebrada uma Santa Missa nas intenções de todas as almas incluídas na Liga de Resgate das Almas do Purgatório.
Nessa Missa, rezaremos de modo especial:
- por você e sua família;
- pelos membros da Liga, vivos e falecidos;
- pelas almas do Purgatório que nos foram recomendadas: parentes, amigos, pessoas queridas.
Você não controla a hora em que vai morrer. Mas você pode decidir, hoje, que não vai deixar os seus mortos no abandono. E pode decidir, hoje, que também vai socorrer os mortos “sem ninguém”, os mais esquecidos.
Uma alma pode estar esperando a sua caridade.




