Um debate no Figaro acende o alerta: não é “volta ao passado”. É uma recomposição – e pode surpreender a Europa.

Há momentos em que um fato pequeno, repetido em muitas paróquias ao mesmo tempo, começa a formar uma pergunta grande. E a pergunta, agora, está sobre a mesa: há um despertar da fé católica na França?
Foi exatamente isso que um debate recente do Figaro colocou em foco, com três vozes que representam ângulos diferentes do mesmo fenômeno:
- Guillaume Cuchet, historiador das religiões (Sorbonne), autor de Le catholicisme a-t-il encore de l’avenir en France? (2021);
- Sœur Albertine, religiosa e comunicadora digital com ampla audiência entre jovens;
- Jean-Marie Guénois, jornalista e vaticanista do Figaro.
O que torna esse debate importante não é o entusiasmo — é a prudência. Eles não venderam ilusões. Apresentaram números, relatos, hipóteses e, sobretudo, uma constatação: algo mudou desde 2023.
A queda não é novidade. A novidade é o “refluxo” inesperado.
O historiador Guillaume Cuchet começa lembrando um dado que pesa como chumbo: até os anos 1960, cerca de 93–94% das crianças francesas eram batizadas pouco após o nascimento.
Esse padrão resistiu a choques históricos imensos: Revolução Francesa, industrialização, guerras mundiais.
Mas, nos últimos 60 anos, ele descreve um colapso: hoje o batismo infantil seria algo como 20–25% (ao longo dos primeiros anos de vida).
E há outra distinção decisiva: uma coisa é “cultura católica”, outra é “prática”.
- Ainda haveria uma parcela significativa de franceses que se declaram ligados ao catolicismo por cultura e memória familiar;
- Mas a prática dominical regular (“todo domingo”) estaria em níveis mínimos.
Até aqui, nada de novo: é a França do pós-cristianismo, da secularização avançada, do pós-Concílio Vaticano II.
A novidade, segundo Cuchet, é que um movimento começou a aparecer com força e rapidez.
O dado que virou notícia: batismos de adultos em alta
Cuchet reconhece um sinal objetivo: o número de batismos de adultos e jovens aumentou sensivelmente desde 2023, com crescimento anual forte.
Isso não compensa a perda do batismo infantil — ele mesmo enfatiza isso.
Mas o argumento central é outro:
“Se não acontecia antes, e agora acontece, algo está por trás.”
Ou seja: não basta dizer “é aleatório”. O próprio fato de ter virado onda, com continuidade, aponta para uma causa cultural e espiritual mais profunda.
E aqui surge um ponto decisivo: o perfil está mudando.
- mais jovens entre os catecúmenos;
- mais “recomeçantes” (batizados que voltam para comunhão e crisma);
- mais pessoas “sem herança” cristã, sem catequese, sem batismo, chegando “do nada”.
Isso, por si só, é um choque: muitos padres e equipes paroquiais relatam surpresa real.
- “De onde eles vêm?” — é a pergunta repetida.
A Igreja pode medir números, mas não mede o segredo das almas
Jean-Marie Guénois faz uma ressalva essencial: a fé não pode ser reduzida a estatísticas de prática externa.
Há pessoas que não vão à Missa todo domingo, mas creem; e há pessoas que frequentam por hábito, mas vivem frias por dentro. A questão que o debate sugere é: há uma dinâmica interior em movimento, e ela nem sempre aparece onde os sociólogos costumavam procurar.
É justamente nesse ponto — onde a fé deixa de ser número e passa a ser caminho — que muitos percebem a necessidade de não caminhar sozinhos.
Para quem deseja viver a fé de forma acompanhada, concreta e perseverante, existe o grupo Filhos Protegidos do Padre Pio, pensado exatamente para sustentar esse passo interior.
Veja agora como dar esse passo e fazer parte.
O testemunho direto do “front”: quem são os que estão chegando?
Sœur Albertine, que recebe diariamente mensagens privadas de jovens e adultos, dá um fundamento precioso para entender a mudança.
Ela diz, com simplicidade, que o centro da questão não é “quantos são”, mas quem são.
E descreve dois grandes traços:
a) Gente fora do circuito. Pessoas sem batismo, sem catequese, sem referência cristã, perguntando:
- “Por onde eu começo?”
- “Posso me dizer cristão?”
- “O que é a fé, na prática?”
b) A dor existencial: Muitos chegam movidos por questões de fundo:
- “Qual é o sentido da minha vida?”
- “Estou perdido.”
- “Como ter fé?”
A surpresa é esta: eles não conhecem o cristianismo, mas suspeitam que ali pode haver respostas reais.
Sœur Albertine insiste em um ponto atualíssimo: as redes sociais não são só um megafone. São um lugar habitado. Quem quer evangelizar precisa compreender os códigos e a linguagem desse “território”.
E ela dá um exemplo concreto: uma jovem de origem mista (mãe muçulmana, pai cristão), interna de medicina, compra um Alcorão e uma Bíblia; se perde na Bíblia; encontra um vídeo explicando como começar pelos Evangelhos; lê; é tocada; e decide procurar um retiro em silêncio.
A mensagem é clara: uma postagem não “salva” ninguém por magia, mas pode servir de primeiro degrau para a pessoa atravessar a porta de uma igreja e procurar um padre.
Por que isso está acontecendo agora? Três causas apontadas no debate
Guénois enumera três fatores que ajudam a entender a curva:
1) Pós-Covid: fome de sentido
A pandemia acelerou crises de solidão, medo, vida virtual excessiva, esgotamento interior. Muitos descobriram que “tela” não cura a alma.
2) O “efeito espelho” com o Islã
Em escolas e ambientes urbanos, jovens convivem com muçulmanos praticantes: jejum, oração, identidade assumida. E isso provoca a pergunta: “E eu? Em que eu creio?”
O debate reconhece que isso pode gerar duas reações:
- uma reação de medo/identidade;
- ou uma reação de estímulo pela ferveur do outro, que constrange e desperta.
Sinais espirituais discretos
Guénois menciona testemunhos de conversões ligadas a sonhos, intuições, “visitas” interiores — inclusive entre muçulmanos.
Não é “estatística”. É vida real acontecendo.
Chartres, Cinzas, Quaresma: a volta do corpo, do rito e da transcendência
Outro bloco do debate trata do crescimento de peregrinações (especialmente Chartres) e da busca por sinais visíveis: cinzas, jejum, caminhada, liturgia.
Sœur Albertine sugere uma leitura profunda: num mundo hiper-virtual, há sede de algo encarnado, físico, concreto.
E um detalhe impressionante aparece: muitos bispos e padres relataram igrejas lotadas na Quarta-Feira de Cinzas, com situações práticas “cômicas”: faltaram cadeiras, faltaram hóstias, faltou previsão humana para a multidão.
Isso importa porque mostra que não é um movimento cuidadosamente organizado por estruturas: ele brota, e a estrutura corre atrás.
O historiador lança a pergunta decisiva: “onda curta” ou “fluxo longo”?
Cuchet faz o papel que precisa ser feito: frear e pensar. Ele lembra que, historicamente, o catolicismo francês já teve muitos “reganhos” periódicos: uma onda de entusiasmo, seguida de novo declínio.
Então ele pergunta:
- Isso é uma “vaguelette” (uma onda pequena e passageira)?
ou - É o começo de um “flux”, um movimento longo (30–40 anos) capaz de estabilizar e recompor o catolicismo?
Ele propõe uma hipótese importante: os grandes movimentos não nascem de “métodos pastorais mirabolantes”, mas quando a Igreja consegue captar uma onda cultural/contracultural e evangelizá-la por dentro.
E ele conclui com uma intuição forte: a França, mesmo descristianizada, pode continuar sendo laboratório avançado da grande batalha da secularização — e, por isso, também pode ser o lugar onde começam as respostas.
Uma mudança ainda maior: católicos como minoria consciente
Em uma passagem final, o historiador descreve uma transformação de fundo: a França deixou de ser “uma sociedade católica com minorias” e passou a ser:
- uma grande parte sem religião declarada;
- e, no campo religioso, uma recomposição com forças concorrentes.
Nesse contexto, os católicos deixam de se pensar como “a norma cultural” e passam a se formar como minoria convicta, com identidade mais nítida.
Esse ponto explica muito: quando a fé deixa de ser “ambiente” e passa a ser “decisão”, o católico que permanece tende a ser mais consciente e mais fervoroso.
Natal: a pergunta prática que fica para a Igreja
A apresentadora encerra perguntando sobre o Natal: há um apetite por um Natal de fé, e não apenas de consumo?
Sœur Albertine responde com realismo: o ponto não é só “teremos mais gente”, mas: o que a Igreja fará com os que chegam? Vai acolher, formar, acompanhar, sustentar? Ou vai deixar a onda passar?
E ela acrescenta: não é tarefa só de “missionários digitais”. É uma responsabilidade de todos — família, amigos, paróquias, comunidades.
Se a fé reaparece como decisão consciente, ela exige resposta à altura.
Não basta observar o fenômeno — é preciso escolher onde permanecer e com quem caminhar.
Assuma hoje esse compromisso espiritual unindo-se ao grupo Filhos Protegidos do Padre Pio, pensado para quem entende que a fé precisa ser alimentada continuamente.
Conclusão: o que isso nos diz?
O debate não afirma: “a França voltou a ser católica”. Ele afirma algo mais sério:
- a descristianização continua sendo massiva;
- mas apareceu uma “contra-corrente” inesperada;
- o perfil de quem procura a fé mudou;
- e as causas são profundas: crise existencial, pós-Covid, confronto cultural-religioso, sede de transcendência e rito.
E isso é um aviso para toda a Europa:
- a secularização não mata a sede de Deus. Ela apenas a empurra para o subterrâneo… até o dia em que ela volta à superfície.





