Sacerdotes expulsos, instituições católicas confiscadas e procissões submetidas ao controle do governo. A perseguição religiosa na Nicarágua recorda o enfrentamento do Papa João Paulo II com os revolucionários sandinistas durante uma Missa em 1983.

Na Nicarágua, sacerdotes foram expulsos do país, instituições católicas tiveram suas atividades encerradas e milhares de manifestações públicas da fé foram proibidas nos últimos anos.
Sob o governo de Daniel Ortega e Rosario Murillo, a Igreja Católica enfrenta uma perseguição que atinge não apenas seus representantes, mas também a vida religiosa dos fiéis.
Em 2026, as autoridades impediram centenas de procissões da Via-Sacra e restringiram ordenações sacerdotais em quatro dioceses. Religiosos expulsos permanecem impedidos de retornar ao país.
Em outubro, algumas procissões voltaram a percorrer as ruas, mas sob supervisão de autoridades e estruturas ligadas ao governo. A flexibilização parcial não significou o fim das restrições à liberdade religiosa.
O que acontece hoje na Nicarágua tem raízes em um conflito antigo entre o movimento sandinista e a Igreja.
E um dos episódios mais marcantes desse confronto ocorreu diante do próprio Papa João Paulo II, em 4 de março de 1983.
O Papa interrompido durante a Santa Missa
Naquele dia, São João Paulo II celebrava a Santa Missa na Praça 19 de Julho, em Manágua, diante de uma imensa multidão.
A Nicarágua já era governada pelos sandinistas, que haviam chegado ao poder em 1979, após a derrubada de Anastasio Somoza.
Durante a celebração, grupos favoráveis ao governo revolucionário começaram a gritar palavras de ordem políticas.
As manifestações se intensificaram enquanto o Papa defendia a unidade da Igreja e advertia contra sua submissão a ideologias.
João Paulo II precisou interromper sua intervenção e exigir silêncio.
Por alguns instantes, os gritos cessaram. Mas as manifestações voltaram, dificultando a continuidade da celebração.
Aquela cena mostrava até que ponto o conflito político havia penetrado no ambiente religioso.
Diante dos militantes sandinistas, o sucessor de Pedro defendia o direito da Igreja de permanecer fiel à sua missão, sem se transformar em instrumento de um projeto revolucionário.
A advertência a um sacerdote do governo
O confronto já havia se manifestado na chegada de João Paulo II ao país.
No aeroporto de Manágua, entre as autoridades que receberam o pontífice estava Ernesto Cardenal, sacerdote que exercia o cargo de ministro da Cultura do governo revolucionário.
Cardenal ajoelhou-se diante do Papa, que levantou o dedo indicador e o advertiu publicamente.
A cena tornou-se uma das imagens mais conhecidas daquela viagem.
A questão envolvia a participação de sacerdotes no governo sandinista e a incompatibilidade entre determinados compromissos políticos e as obrigações do ministério sacerdotal.
Cardenal não abandonou imediatamente sua função governamental. Posteriormente, foi suspenso do exercício do ministério sacerdotal.
O episódio revelava a preocupação de João Paulo II com a influência de um projeto político sobre a identidade e a missão da Igreja.
O Papa rejeitou a submissão da Igreja à ideologia marxista
Na homilia pronunciada em Manágua, João Paulo II advertiu contra a tentativa de setores ligados à revolução sandinista, de orientação marxista, de promover uma chamada “Igreja popular”, subordinada aos objetivos políticos da revolução e afastada da comunhão com os legítimos pastores da Igreja.
O pontífice insistiu na necessidade de os católicos permanecerem unidos aos seus bispos e ao Papa, rejeitando qualquer tentativa de reinterpretar a fé segundo interesses ideológicos.
A missão da Igreja não poderia ser colocada a serviço de um projeto revolucionário. Sua responsabilidade era anunciar Jesus Cristo e transmitir integralmente os ensinamentos recebidos dos Apóstolos.
Essa advertência, feita em 1983, ganha particular importância diante da perseguição que a Igreja Católica enfrenta hoje na Nicarágua.
O mesmo movimento político, novas formas de pressão
Daniel Ortega, que participava da direção revolucionária na época da visita de João Paulo II, voltou à Presidência da Nicarágua em 2007.
Nas últimas décadas, especialmente depois da crise política de 2018, seu governo intensificou as medidas contra a Igreja e outras comunidades religiosas.
Sacerdotes foram presos ou expulsos. Organizações religiosas perderam seu reconhecimento legal. Propriedades foram confiscadas e celebrações públicas sofreram restrições.
Entre os casos mais conhecidos está o de Dom Rolando Álvarez, bispo de Matagalpa, preso pelo regime e posteriormente enviado ao exílio.
A repressão atingiu também atividades religiosas tradicionais, como as procissões da Semana Santa, além de dificultar a formação e a ordenação de novos sacerdotes.
Há uma diferença entre o que ocorreu em 1983 e o que acontece hoje.
Na visita de João Paulo II, militantes sandinistas interromperam uma celebração para manifestar suas posições políticas.
Atualmente, o próprio aparelho do Estado impõe restrições à atuação pública da Igreja e interfere no funcionamento de suas instituições.
Mas os dois momentos revelam uma mesma questão fundamental: a tentativa de colocar a vida da Igreja sob a influência e o controle do poder político.
A advertência de João Paulo II permanece atual
Quando João Paulo II exigiu silêncio diante dos manifestantes, não estava apenas procurando concluir uma homilia.
Sua atitude expressava a defesa de algo essencial: a liberdade da Igreja para cumprir sua missão sem se subordinar às exigências do marxismo revolucionário defendido por setores do governo sandinista.
Mais de quatro décadas depois, os acontecimentos na Nicarágua mostram que essa liberdade continua ameaçada.
A perseguição não impede necessariamente que os fiéis conservem suas crenças em particular. Mas procura limitar sua expressão pública, suas obras de apostolado e a atuação de seus pastores.
Por isso, a situação dos católicos nicaraguenses merece a atenção e as orações de toda a Igreja.
Sua perseverança recorda que a fidelidade a Nosso Senhor exige, por vezes, coragem diante de pressões políticas e ideológicas.
Ajudar a fé a chegar a mais famílias
A perseguição sofrida pela Igreja na Nicarágua também nos convida a refletir sobre a importância de transmitir e defender a fé enquanto temos liberdade para fazê-lo.
Conhecer a doutrina, cultivar a oração, frequentar os sacramentos e ajudar outras pessoas a se aproximarem de Deus são responsabilidades concretas da vida católica.
Essa dedicação à salvação das almas marcou igualmente o apostolado de Padre Pio, que passou grande parte de seu ministério orientando os fiéis na Confissão e incentivando a oração.
Inspirada nesse exemplo, a Associação Regina Fidei mantém os Filhos Protegidos do Padre Pio.
Por meio de uma contribuição financeira mensal, os participantes ajudam a sustentar conteúdos católicos e iniciativas de evangelização que difundem a espiritualidade do santo e incentivam o retorno aos sacramentos.
Enquanto nossos irmãos na Nicarágua enfrentam graves dificuldades para viver e manifestar publicamente a fé, podemos valorizar a liberdade que temos e empregá-la para fazer o bem às almas.
TORNE-SE UM FILHO PROTEGIDO DO PADRE PIO
Fontes:
Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF). Nicaragua Country Update, maio de 2026.
USCIRF. Annual Report 2026, capítulo sobre a Nicarágua.
Santa Sé. Homilia de João Paulo II na Santa Missa em Manágua, 4 de março de 1983.
El País. Reportagem sobre as interrupções durante a Missa em Manágua, 6 de março de 1983.
Infobae. Reportagem de 6 de outubro de 2026 sobre a retomada parcial das procissões sob supervisão governamental.





