O médico que chamou Padre Pio de Psicopata

Enquanto sua fama de santidade crescia, o capuchinho enfrentava exames e suspeitas. Um dos pareceres mais severos veio de um médico que também vestia o hábito franciscano.

Ilustração de Padre Pio e do médico franciscano.

Em 1919, o pequeno convento de San Giovanni Rotondo recebia visitantes atraídos pela fama de um jovem capuchinho.

Muitos desejavam confessar-se com Padre Pio e assistir à sua Santa Missa. Outros chegavam com os olhos voltados para as mãos que ele costumava cobrir com meias-luvas.

Desde setembro de 1918, aquelas mãos apresentavam feridas semelhantes às chagas da Paixão de Cristo.

A notícia atravessava os limites do convento e despertava, além da devoção, curiosidade e suspeitas.

Em 1919, médicos como Luigi Romanelli, Amico Bignami e Giorgio Festa examinaram Padre Pio.

As feridas passaram a ser observadas de perto, descritas em relatórios e discutidas entre especialistas. Cada visita acrescentava novas perguntas à vida daquele sacerdote.

Foi nesse ambiente que entrou em cena Frei Agostino Gemelli.

O encontro com Gemelli

Médico e pesquisador de psicologia, Gemelli era um nome respeitado nos meios católicos. Também era sacerdote franciscano e trabalhava na fundação da Universidade Católica do Sagrado Coração, em Milão.

Em abril de 1920, chegou a San Giovanni Rotondo acompanhado por Armida Barelli, sua colaboradora.

A visita havia sido anunciada como particular, por motivos espirituais.

Barelli perguntou a Padre Pio se Deus abençoaria o projeto da universidade e recebeu uma resposta afirmativa.

Gemelli pediu para examinar os estigmas. Os superiores de Padre Pio haviam determinado que ele só poderia mostrar as chagas mediante autorização escrita da Santa Sé, em Roma.

Como Gemelli estava sem essa permissão, Padre Pio obedeceu aos superiores e recusou-se a mostrar as feridas.

Na sacristia, os dois tiveram uma conversa breve.

Padre Benedetto, diretor espiritual de Padre Pio, recordaria que o encontro durou poucos minutos. Viu o capuchinho dispensar o visitante e teve a impressão de que estava aborrecido. O exame das feridas ficou por fazer naquela visita.

Em 19 de abril, Gemelli escreveu a monsenhor Carlo Perosi, assessor do Santo Ofício. Na carta, reconheceu a vida religiosa exemplar de Padre Pio, mas lançou uma interpretação severa sobre os fenômenos que o cercavam.

O médico julgava perceber pouca iniciativa, pensamento monótono e uma consciência limitada. Suspeitava que Padre Benedetto tivesse exercido sobre o capuchinho uma influência capaz de produzir, inconscientemente, os fenômenos atribuídos à vida mística.

A devoção dos visitantes, em sua interpretação, reforçava aquela atmosfera de sugestão.

Anos depois, no relatório de 6 de abril de 1926, sua linguagem tornou-se ainda mais dura:

“Considero o Padre Pio um psicopático.”

Nesse documento, Gemelli afirmou ter mantido conversas anteriores mais longas com o frade e descreveu sua maneira de abordá-lo.

Disse que se mostrara convencido da santidade de Padre Pio para ganhar sua confiança. Ao tentar conduzir a conversa para assuntos espirituais, registrou:

“Procurei conduzir a conversa nessa direção. Ele não me acompanhou.”

A partir daí, atribuiu ao capuchinho uma inteligência limitada e a repetição de fórmulas religiosas aprendidas com Padre Benedetto.

Até sua tranquilidade e mansidão foram interpretadas como sinais de deficiência.

O próprio Gemelli admitia que um diagnóstico preciso exigiria observação prolongada. Ainda assim, palavras tão graves já estavam escritas sobre o sacerdote.

São Paulo já havia escrito que Cristo crucificado era “loucura para os pagãos” (1Cor 1,23). A entrega a Deus pode causar estranheza a quem procura compreendê-la apenas pelos critérios humanos.

Na vida de Padre Pio, a oração, o sofrimento e a obediência mereciam um olhar atento. Foi essa vida que outro investigador enviado pela Igreja procurou conhecer de perto.

O parecer favorável de dom Rossi

Em junho de 1921, cinco anos antes do parecer mais severo de Gemelli, o Santo Ofício enviou a San Giovanni Rotondo dom Raffaello Carlo Rossi, bispo de Volterra. Sua missão era investigar Padre Pio e reunir informações para a Santa Sé.

Durante oito dias, o visitador observou sua rotina, ouviu os religiosos e interrogou o capuchinho. Também examinou as feridas. As perguntas alcançavam sua vida espiritual, a origem dos estigmas e sua disposição para obedecer à Igreja.

O retrato que surgiu dessa investigação era muito diferente daquele traçado por Gemelli.

Dom Rossi reconheceu em Padre Pio um religioso exemplar, dedicado à oração e à prática das virtudes. Destacou sua humildade e simplicidade, conservadas mesmo durante provas difíceis.

Ao avaliar os estigmas, rejeitou as hipóteses de fraude e de sugestão apresentadas contra o frade.

Esse conjunto de testemunhos coloca em questão o parecer de Gemelli, que procurava explicar a vida espiritual de Padre Pio como manifestação de um quadro psicológico.

Ao longo dos anos, Padre Pio enfrentou novas investigações e restrições ao exercício de seu ministério.

A biografia publicada pela Santa Sé recorda a humildade com que recebeu essas provações e a obediência que manteve aos superiores. Seu serviço às almas continuou marcado pela oração, pelo confessionário e pela caridade aos que sofriam.

Em 16 de junho de 2002, São João Paulo II proclamou Padre Pio santo diante da multidão reunida na Praça de São Pedro.

A mansidão que Gemelli interpretara como limitação havia acompanhado uma vida de fidelidade a Deus. Para quem também sofre com julgamentos injustos, Padre Pio deixa o exemplo de perseverar na oração e cumprir os próprios deveres, confiando ao Senhor o que escapa ao julgamento dos homens.

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