Em 1645, católicos de Cunhaú e Uruaçu preferiram o martírio à apostasia e deixaram um dos testemunhos mais impressionantes da história do Brasil.

No dia 3 de outubro, a Igreja Católica no Brasil recorda uma das páginas mais dolorosas e, ao mesmo tempo, mais gloriosas de nossa história católica: o martírio dos fiéis católicos de Cunhaú e Uruaçu.
Homens e mulheres que, diante da perseguição, permaneceram fiéis a Nosso Senhor Jesus Cristo e à Sua Igreja.
Eles ficaram conhecidos como os Protomártires do Brasil, isto é, os primeiros católicos reconhecidos pela Igreja como mártires da fé em nosso país.
Mas o que aconteceu naquele distante ano de 1645 para que seus nomes fossem inscritos, séculos depois, entre os grandes testemunhos de fidelidade a Jesus Cristo no Brasil?
O domínio holandês e a perseguição dos católicos
Desde 1630, grande parte do Nordeste brasileiro encontrava-se sob domínio da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.
A ocupação não representava apenas uma disputa territorial entre Portugal e Holanda. Havia também um profundo antagonismo religioso, pois o novo poder era oficialmente calvinista, enquanto a população da colônia permanecia majoritariamente católica.
Nesse cenário, igrejas foram ocupadas, o exercício público da religião católica sofreu restrições e sacerdotes enfrentaram perseguições. Em algumas regiões, a convivência tornou-se ainda mais difícil à medida que a guerra contra os portugueses se intensificava.
Durante os vinte e quatro anos da presença dos protestantes holandeses no Nordeste brasileiro, os católicos atravessaram duras provações.
No Rio Grande do Norte, sobretudo, a perseguição religiosa atingiu momentos extremos. O objetivo era pressionar os fiéis a abandonar a Fé Católica.
Foi nesse contexto que, em 1645, aconteceram dois massacres que marcariam para sempre a história da Terra de Santa Cruz.
Uma Missa transformada numa Carnificina
Era domingo, 16 de julho de 1645. Na pequena Capela de Nossa Senhora das Candeias, no Engenho Cunhaú, atual município de Canguaretama, no Rio Grande do Norte, os fiéis reuniram-se para assistir à Santa Missa.
Os católicos portugueses e brasileiros naquela região enfrentavam restrições e perseguições religiosas impostas durante a ocupação calvinista holandesa.
Um dia antes, Jacob Rabbi, um judeu alemão a serviço das autoridades holandesas, havia chegado ao local dizendo trazer determinações do governo, que seriam anunciadas após a celebração dominical. A tensão já existia; contudo, ninguém poderia imaginar o que aconteceria dentro daquela igrejinha.
A Missa avançava quando, no momento em que o sacerdote elevava o Corpo Divino de Nosso Senhor Jesus Cristo, homens armados a mando de Rabbi invadiram o templo.
A pequena igreja, que momentos antes abrigava famílias reunidas diante do altar, tornou-se cenário de uma carnificina horrenda.
Começou então o massacre dos fiéis que se encontravam na igreja. Padre André de Soveral, que celebrava a Missa, permaneceu entre seus fiéis, rezando e preparando-os para a morte.
Por fim, o próprio Padre Soveral também foi martirizado de maneira brutal. Segundo o relato conservado no livro “Brasileiros, Heróis da Fé”, durante vários dias após este ataque brutal, o sangue dos católicos martirizados teria permanecido tão vivo e fresco como se tivesse acabado de ser derramado. Isso, entretanto, era apenas o começo…
Três meses depois, o Martírio em Uruaçu
A violência não terminou em Cunhaú. Com as notícias sobre o ocorrido em Cunhaú, muitos católicos buscaram refúgio na Fortaleza dos Reis Magos e numa fortificação construída no pequeno povoado de Potengi, que ficava próximo da Fortaleza.
Ainda assim, a perseguição os alcançou. Quase três meses depois, no dia 3 de outubro de 1645, os católicos da região de Uruaçu, hoje pertencente ao município de São Gonçalo do Amarante, também no Rio Grande do Norte, foram aprisionados.
Entre os que ali estavam encontravam-se o Padre Ambrósio Francisco Ferro, o jovem Mateus Moreira e muitos outros homens. Os invasores holandeses ofereceram aos católicos encarcerados a opção de abandonar a fé católica e se converterem ao calvinismo.
Diante dessa proposição, os católicos brasileiros recusaram negar a própria fé, o que desencadeou outro massacre. Segundo o relato apresentado no livro “Brasileiros, Heróis da Fé”, suas línguas foram cortadas para impedir que continuassem rezando.
Também suas pernas foram decepadas para que já não pudessem ajoelhar-se e rezar diante do Santíssimo Sacramento. No entanto, nem mesmo tamanha violência conseguiu arrancar-lhes a Fé, que hoje você também pode ajudar a manter viva.
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O Testemunho de Fé de São Mateus Moreira
A disposição dos fiéis diante da morte era a dos verdadeiros mártires: aceitar o sofrimento e a morte por fidelidade e amor a Cristo.
Entre as vítimas de Uruaçu estava o camponês Mateus Moreira. Mesmo diante daquela horrenda violência, sua última preocupação não foi salvar a própria vida, mas professar publicamente a fé que seus perseguidores queriam fazê-lo abandonar.
Num último ato de fé, encontrou forças para proclamar:
“Bendito e louvado seja o Santíssimo Sacramento!”
Era uma profissão pública daquilo em que acreditava até o fim, momentos antes de seu coração ser arrancado do peito pelas costas, conforme os relatos de seu martírio.
Podiam mutilar seu corpo e até tirar-lhe a vida, mas não poderiam obrigá-lo a negar Nosso Senhor presente na Santíssima Eucaristia.
Ainda segundo o relato transmitido no livro “Brasileiros, Heróis da Fé”, quinze dias depois os corpos daqueles mártires, embora despedaçados, teriam permanecido incorruptos e exalando uma suave fragrância de flores.
Cunhaú e Uruaçu poderiam ter permanecido apenas como duas tragédias esquecidas do Brasil colonial, mas Deus permitiu que esse testemunho perdurasse ao longo dos séculos.
Eles morreram, mas não foram vencidos
Os perseguidores calvinistas tentaram silenciar suas orações, impedir que se ajoelhassem, fazê-los abandonar a Fé. Mas não conseguiram.
A memória daqueles católicos, entretanto, permaneceu viva, especialmente no Rio Grande do Norte. Séculos depois, a própria Igreja reconheceria oficialmente que eles haviam sido assassinados por ódio à fé católica.
No dia 5 de março de 2000, o Papa São João Paulo II os beatificou e, 17 anos depois, em 15 de outubro de 2017, o Papa Francisco canonizou os trinta mártires na Praça de São Pedro, no Vaticano.
Desde então, a Igreja venera como santos Santo André de Soveral, Santo Ambrósio Francisco Ferro, São Mateus Moreira e seus 27 companheiros mártires.
Foram dezenas de mortos nos dois episódios, mas apenas 30 foram canonizados, pois muitos dos que morreram naquelas perseguições não puderam ser individualmente identificados.
Por isso, no dia 3 de outubro, a Igreja recorda homens e mulheres que, colocados diante da escolha entre abandonar a verdadeira fé ou perder a própria vida, escolheram permanecer com Cristo e a Sua Igreja.
Eles morreram, mas não foram vencidos. Seu sangue tornou-se um dos primeiros grandes testemunhos da Fé Católica na Terra de Santa Cruz.
Ao tornar-se Missionário de Fátima, você se une ao testemunho desses homens e mulheres heróicos e ajuda a sustentar um apostolado dedicado a levar Nossa Senhora, a oração e a Fé Católica a muitos lares.
Fontes:
Livro: “Brasileiros, Heróis da Fé”, de Manuel E. Altenfelder Silva.
Portal Vatican News, “Santos Mártires de Cunhaú e Uruaçu: protomártires do Brasil e símbolo vivo de fé e resistência”.




