De Victoria e Nowa Huta a Rivas Vaciamadrid, a fé encontrou caminhos onde o comunismo tentou silenciá-la.

Em várias ocasiões do século XX, regimes comunistas planejaram cidades e bairros-modelo que deveriam representar uma nova sociedade, projetada para formar o “homem novo”: um ser humano sem Deus, sem religião, sem transcendência.
A ideia era ambiciosa: reduzir a influência de séculos de fé cristã e substituir suas referências por uma nova cultura política e social. Mas a experiência dessas cidades mostrou que o planejamento urbano e a pressão do Estado não eram suficientes para eliminar a religião da vida de seus habitantes.
Os casos, porém, não foram todos iguais. Em alguns lugares, houve perseguição religiosa aberta. Em outros, a fé precisou sobreviver em meio a oposição política.
Em todos eles, porém, se confirmou, de maneira concreta, aquilo que ensina o apóstolo São João: “a vitória que vence o mundo é a nossa fé” (I Jo 5,4).
Assim como na clássica cena do filme Jurassic Park, em que o cientista Malcolm adverte que “a vida encontra o caminho”, também a fé encontrou caminhos onde parecia não haver espaço para ela.
O Sonho de uma Cidade Sem Templos
Em países como a Polônia e a Romênia, os comunistas idealizaram criar cidades novas com “homens novos”. Para isso, grandes contingentes de trabalhadores eram instalados em núcleos urbanos recém-construídos, muitas vezes vindos de regiões rurais onde a religião fazia parte da vida cotidiana.
Em alguns desses projetos, as igrejas simplesmente não apareciam no planejamento urbano. O espaço público era organizado em torno das fábricas, dos edifícios estatais e dos símbolos da nova ordem política.
As ruas ganhavam nomes como “Avenida da Eletricidade” ou “Praça da Industrialização”, o calçamento alterna nomes de artistas socialistas com personagens de quadrinhos, uma tentativa de humanizar o espaço sem recorrer ao sagrado.
Mas construir uma cidade sem templos, sem sinos ou cruzes nos cemitérios não significava necessariamente construir uma população sem fé.
Nem mesmo o planejamento mais rígido conseguiu apagar a sede espiritual de seus habitantes.
Victoria, Romênia: Os Padres Clandestinos
Com a consolidação do regime comunista na Romênia, começou a ser construída, em 1949, uma cidade operária em torno de um grande complexo químico. Relatos romenos posteriores recordam Victoria como uma localidade concebida para ser uma “cidade ateia”, sem igrejas.
Chamada inicialmente de Ucea Colonie e, desde 1954, Victoria, a cidade deveria ser um modelo de sociedade sem Deus.
Contudo, um simples guarda de segurança ortodoxo, Gheorghe Albaceanu, mudou essa história. Chegou no início dos anos 1950, construiu uma casa e transformou dois dos quatro quartos numa capela. O sacerdote Ion Serban vinha em segredo para celebrar os sacramentos à noite.
Quando o prefeito descobriu, ordenou que Albaceanu jogasse tudo pela janela, dizendo que “Deus não existe”. O heróico guarda recusou obedecer ao prefeito e em retaliação, foi demitido, multado e expulso.
Mas Albaceanu não desistiu. Em 1968, construiu uma casa de madeira “para morar” e reabriu a capela clandestina. Anos depois, um padre ortodoxo clandestino, Cornel Codrea, também enfrentou o prefeito que, ironicamente, acabou se confessando com ele antes da queda do regime comunista romeno.
Em outubro de 1989, ainda antes da queda definitiva do regime comunista romeno, uma igreja que funcionava discretamente sob a casa paroquial foi concluída e consagrada.
Hoje, Victoria tem 9.000 habitantes e duas capelas greco-católicas onde o Nome de Jesus Cristo é amado e invocado por muitos.
Nowa Huta, Polônia: A Cidade onde o Povo Exigiu uma Igreja
A história de Nowa Huta, vizinha a Cracóvia, é talvez a mais emblemática.
Construída a leste de Cracóvia, cidade profundamente católica, para abrigar os trabalhadores da gigantesca Siderúrgica Vladimir Lenin, tinha um objetivo ideológico claro: criar um grande centro operário socialista capaz de contrabalançar a influência religiosa e cultural da antiga Cracóvia.
O cardeal Stanislaw Dziwisz, braço direito de João Paulo II, revelou em seu livro Testemunho que “os planos de Nowa Huta não incluíam construir uma igreja”. Mas o povo, vindo de zonas rurais profundamente católicas, ansiava pela presença de Deus.
O bispo de Cracóvia, Karol Wojtyła (futuro São João Paulo II) tentou insistentemente construir uma Igreja na cidade, recebendo contínuas negativas por parte das autoridades ao longo de 21 anos.
Após a relativa flexibilização política de 1956 (o chamado “degelo de outubro”), as autoridades comunistas cederam à pressão dos operários religiosos e concederam uma permissão para erguer o primeiro templo católico do bairro. No local escolhido, os moradores fincaram uma grande cruz de madeira.
Em 1959, o governo comunista voltou atrás na decisão, cancelou a permissão da igreja e ordenou que uma escola fosse construída no local.
No dia 27 de abril de 1960, operários foram enviados para remover a cruz, mas a resposta foi imediata: confrontos ferozes, feridos e muitas prisões. Foram três dias de protestos que escalaram para confrontos violentos.
A pressão popular funcionou, mas a igreja não surgiu imediatamente depois desses protestos. A disputa ainda duraria anos.
Somente em 1965 as autoridades concederam uma nova autorização. A persistência resultou na construção da igreja Arca do Senhor (Arka Pana), inaugurada por Wojtyła em 1977, tornando-se o primeiro templo de Nowa Huta.
Em 1983, o The New York Times noticiava: “A cidade sem Deus polonesa consegue sua sexta igreja”.
A cidade que deveria demonstrar que uma sociedade operária moderna poderia viver sem religião acabou se tornando também um dos símbolos mais conhecidos da presença católica na Polônia comunista.
Rivas Vaciamadrid: A Fé Vence em meio à Secularização
Rivas-Vaciamadrid, a 15 km de Madri, é um caso único na Espanha. Não se trata de uma cidade construída por uma ditadura comunista nem de um município em que a prática religiosa tenha sido proibida pelo Estado.
Mas essa diferença é justamente o que torna o caso significativo. Se em Victoria e Nowa Huta a tentativa de reduzir a presença da religião ocorreu pelos instrumentos próprios de regimes comunistas autoritários, em Rivas ela aparece de maneira diferente: dentro de uma democracia, por meio de políticas laicistas e obstáculos administrativos enfrentados por iniciativas católicas.
O caso representa outra forma de confronto entre uma forte orientação política laicista, característica do socialismo, e a permanência da fé católica na vida do povo.
Além disso, é a única cidade espanhola de certo porte governada durante décadas por forças políticas ligadas ao comunismo e socialismo, com forte presença da Izquierda Unida.
Um bairro inteiro foi impulsionado por uma cooperativa das Comissões Operárias e do Partido Comunista da Espanha. Outro distrito (chamado Pablo Iglesias), pelo PSOE.
Em 2007, foi o segundo município espanhol a promover os chamados “batismos civis”.
No ano seguinte, a prefeitura, então governada pela Izquierda Unida, criou um serviço público para auxiliar e custear os procedimentos de moradores que desejassem formalizar sua apostasia da Igreja Católica.
Enquanto o poder municipal promovia essas iniciativas, os católicos dos novos bairros ainda lutavam para conseguir um espaço adequado para a Missa.
A cidade contava com a pequena Igreja de São Marcos, construída em 1959, incapaz de acolher a população dos novos bairros.
Apesar de lidar com a hostilidade do governo local para construir novas igrejas, em 1995, católicos de outras áreas começaram a celebrar na garagem de um centro comercial.
Em 2003, após várias dificuldades, iniciou-se a construção da nova paróquia de Santa Mônica, em um terreno cedido pela família Corsini.
Mesmo depois disso, segundo o jornal, o templo levou anos para ser concluído devido a alegados problemas administrativos, maneiras do governo tentar impedir a construção da Igreja.
Rivas, portanto, não reproduz a perseguição religiosa de Victoria ou de Nowa Huta, mas se insere num contexto diferente daquele vivido pelos católicos da Romênia e da Polônia. Ainda assim, o resultado foi semelhante em um aspecto essencial: mesmo numa cidade de forte tradição política inimiga da fé católica, a fé encontrou espaço para crescer e dar frutos.
A Fé Católica Não Se Apaga por Decreto
Victoria, Nowa Huta e Rivas Vaciamadrid não são histórias idênticas.
Nas duas primeiras, a tentativa de limitar a presença religiosa ocorreu sob regimes comunistas autoritários. Na terceira, foi através do desestímulo.
Mas existe um elemento que permite colocá-las lado a lado: nenhuma decisão urbanística ou orientação política foi capaz, por si só, de eliminar a presença da fé do coração dos moradores.
Em Victoria, a religião sobreviveu dentro de casas. Já em Nowa Huta, trabalhadores defenderam uma cruz e esperaram anos por sua igreja. Em Rivas Vaciamadrid, encontrou espaço mesmo em meio a um ambiente político fortemente secularizado.
Os três casos mostram que a fé não se apaga por decreto. Mesmo quando privada de espaço, pode começar numa casa, reunir-se ao redor de uma cruz e, anos depois, voltar a erguer um templo.
Como a vida na metáfora do filme Jurassic Park, a fé católica encontra caminho para triunfar, às vezes em meio à dor, às vezes em meio aos perigos, mas sempre com esperança.
Fontes principais:
Portal Religion en Libertad, “Los comunistas intentaron crear de cero ciudades sin Dios”, 14/09/2026.



