A França está expulsando o Cristianismo da Vida Pública

A perseguição anticristã já começou na França? Em seu novo livro, Atílio Faoro procura responder a essa pergunta reunindo decisões judiciais, atos administrativos, episódios de censura e ataques contra símbolos cristãos.

O pesquisador e jornalista católico Atílio Faoro, radicado na França desde 1993, acaba de lançar um livro cujo título soa como uma grave advertência: “La persécution antichrétienne a commencé”, ou “A perseguição anticristã começou”.

Publicada pelas Éditions Avenir de la Culture, a obra mostra como a França foi se afastando de suas raízes cristãs ao longo da história.

Em seguida, analisa as manifestações atuais desse processo, como a retirada de símbolos religiosos, os ataques à moral católica, as profanações de igrejas, a blasfêmia, o extremismo islâmico e a crescente visibilidade do satanismo.

Durante meses, Faoro reuniu estatísticas oficiais, decisões judiciais, relatórios parlamentares, declarações públicas e notícias divulgadas pela imprensa.

Sua investigação procura responder a uma questão central: a perseguição religiosa começa somente quando os cristãos são presos e assassinados?

Ou pode desenvolver-se antes disso, por meio de pressões culturais, administrativas, jurídicas e sociais?

Quando a perseguição não derrama sangue

Faoro reconhece que a situação francesa não pode ser comparada à perseguição sangrenta sofrida pelos cristãos em regiões da África, da Ásia e do Oriente Médio. Nesses lugares, homens e mulheres são sequestrados, expulsos de suas casas ou assassinados por causa da fé.

Segundo o autor, antes de atacar fisicamente os cristãos, uma sociedade pode começar a desacreditar sua religião, afastar seus símbolos e apresentar seus ensinamentos como uma ameaça.

Essa perseguição se manifesta quando a fé continua oficialmente livre, mas sua presença na vida pública passa a ser contestada. O católico pode acreditar, desde que guarde suas convicções para si e não pretenda orientar por elas sua conduta, a educação dos filhos ou sua posição diante dos problemas da sociedade.

É esse processo gradual de marginalização do cristianismo que o livro procura identificar. Entre as dezenas de casos documentados por Faoro, alguns mostram com especial clareza até onde pode chegar essa ofensiva.

Uma cruz retirada por helicóptero

Em outubro de 2025, no alto da montanha de La Plane, nos Alpes franceses, a prefeitura enviou um helicóptero a mais de 2.500 metros de altitude para retirar uma cruz instalada no cume. A aeronave não foi mobilizada para socorrer alpinistas, mas para remover o símbolo cristão.

A operação custou milhares de euros aos contribuintes.

Nem 94% dos votos salvaram São Miguel

Em Les Sables-d’Olonne, a Justiça determinou a retirada de uma estátua de São Miguel Arcanjo colocada diante da igreja dedicada ao santo.

Em uma consulta popular, 94% dos votantes defenderam sua permanência. Mesmo assim, a imagem teve de ser transferida para um terreno pertencente à Igreja.

Nossa Senhora também foi expulsa

Em La Flotte-en-Ré, uma imagem de Nossa Senhora erguida em agradecimento pela proteção recebida durante a Segunda Guerra Mundial foi considerada incompatível com a lei de separação entre a Igreja e o Estado.

Quase 50 mil pessoas assinaram uma petição em sua defesa, mas a Justiça determinou sua retirada do terreno público.

Crianças retiradas do cinema

Em 2017, alunos da cidade de Langon foram levados ao cinema para assistir à animação A Estrela de Natal.

Ao perceberem que o filme narrava o nascimento de Jesus com base nos Evangelhos, os professores interromperam a sessão e retiraram as crianças da sala por considerarem o conteúdo pouco laico.

Santa Bernadette, não; o rapper Médine, sim

Em 2023, o espetáculo “Bernadette de Lourdes” foi excluído das atividades financiadas pelo pass Culture por supostamente contrariar o princípio da laicidade.

O mesmo benefício, entretanto, continuava pagando ingressos para apresentações do rapper Médine, autor de uma música com referências islâmicas e ataques à própria laicidade francesa.

O filme sobre o Sagrado Coração também foi censurado

Em outubro de 2025, a campanha de divulgação do documentário Sacré-Cœur foi recusada nos espaços publicitários dos trens e do metrô de Paris.

A justificativa foi que os cartazes possuíam caráter “confessional e proselitista”, embora filmes de terror e espetáculos ofensivos ao cristianismo continuassem sendo anunciados nesses mesmos espaços.

Até a Missa dos gendarmes foi parar nos tribunais

Em 2022, a Gendarmaria da Ardèche organizou uma celebração em honra de Santa Genoveva, padroeira dos gendarmes.

Após uma ação da Federação da Libre Pensée, o Tribunal Administrativo de Lyon anulou a participação dos militares na Missa por considerá-la contrária ao princípio da laicidade.

O que esses casos revelam

Até aqui, apresentamos acontecimentos documentados por Atílio Faoro. Cabe agora perguntar o que eles revelam quando observados em conjunto.

A cruz retirada por helicóptero, a estátua condenada apesar do apoio de 94% dos votantes e a imagem de Nossa Senhora expulsa não constituem episódios insignificantes.

Tampouco podem ser ignorados a retirada das crianças do cinema, a censura ao espetáculo sobre Santa Bernadette, o bloqueio ao filme Sacré-Cœur e a proibição da participação dos gendarmes na Missa. 

Todos apontam na mesma direção: o cristianismo, que formou a França, começa a ser tratado como uma presença indevida dentro da própria nação.

Nenhuma dessas medidas fecha igrejas ou condena católicos à prisão. Elas preparam algo anterior: habituar a população a uma sociedade sem cruzes, imagens de Nossa Senhora, presépios e manifestações públicas da fé.

A religião ainda é permitida, mas deve permanecer escondida. A cruz pode existir dentro da igreja, mas provoca processos quando aparece numa praça ou no alto de uma montanha.

A história de Santa Bernadette pode ser contada, mas sem o apoio concedido a outras manifestações culturais. O Natal pode continuar no calendário, desde que as crianças não aprendam que ele celebra o nascimento de Jesus Cristo.

A neutralidade que persegue sempre o mesmo lado

Os casos reunidos por Faoro mostram que a chamada neutralidade não atinge todas as crenças e ideologias da mesma maneira.

Santa Bernadette foi excluída, mas Médine permaneceu. O filme sobre o Sagrado Coração foi censurado, mas produções que exploram o terror, o ocultismo ou a zombaria contra o cristianismo continuaram anunciadas.

Diante desses fatos, torna-se difícil acreditar que se trate apenas de proteger a separação entre a Igreja e o Estado. O que aparece é uma disposição constante de restringir os símbolos, as tradições e as manifestações cristãs.

O livro “La persécution antichrétienne a commencé” presta um importante serviço ao reunir esses acontecimentos. Separados, podem parecer excentricidades administrativas. Juntos, revelam um processo de apagamento.

Pode-se discutir se a palavra “perseguição” já deve ser empregada em toda a sua força. O que ninguém pode fazer é alegar que nada está acontecendo.

Na França, a perseguição talvez ainda não tenha chegado às prisões.

Mas já alcançou as praças, as escolas, os cinemas, os quartéis, os tribunais e até o alto das montanhas.

 

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