Muito além dos estigmas, dos milagres e das multidões em San Giovanni Rotondo, a chave para compreender a santidade e a missão do Padre Pio reside em seu amor filial e visceral à Mãe de Deus – o canal necessário escolhido pelo próprio Senhor para distribuir Suas graças à humanidade.

O segredo profundo que definiu a vida de São Pio de Pietrelcina não se resumia apenas aos estigmas da Paixão em suas mãos, nem aos milhões de fiéis que viajavam a San Giovanni Rotondo, tampouco aos inúmeros milagres e curas operados por sua intercessão.
O verdadeiro coração da sua existência e a chave de sua santidade residiam no seu amor visceral e incondicional à Santíssima Virgem Maria.
É impossível compreender a personalidade e a espiritualidade do Padre Pio sem entender a sua devoção filial à Mãe de Deus.
A convicção do Padre Pio repousava na mais pura Tradição Católica, ensinada pelos Padres, Doutores e Papas ao longo dos séculos, e explicitada com profundidade por São Luís Maria Grignion de Montfort:
- Deus quis vir ao mundo por meio de Maria e A estabeleceu como o canal necessário para a distribuição das águas da graça entre o Céu e os homens. Por essa razão, Deus deseja que as almas retornem a Ele pelo mesmo caminho.
A Virgem Santíssima cooperou de modo único na obra da Salvação.
Primeiro, no mistério da Encarnação, quando o Espírito Santo A cobriu com a Sua sombra. Depois, ao longo de toda a vida oculta da Sagrada Família e no acompanhamento fiel do Seu Divino Filho como perfeita discípula.
Essa cooperação atingiu o ápice na Paixão. Na Apresentação do Menino Jesus no Templo, o profeta Simeão profetizou a dor que traspassaria a alma de Nossa Senhora (Lc 2, 35).
O renomado exegeta Padre Louis-Claude Fillion explicava que o termo grego utilizado no Evangelho para descrever essa espada é rhomphaia, uma lâmina longa, curvada e terrivelmente afiada.
À Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo correspondeu a Compaixão da Virgem Maria, cuja alma foi perfurada até o mais profundo do seu ser. Por ter compartilhado de maneira tão íntima o martírio de Seu Filho no Calvário, a teologia tradicional A reconhece como Medianeira de todas as graças e Corredentora.
Para o Padre Pio, Maria jamais afasta alguém de Jesus. Pelo contrário: quanto mais se ama a Mãe, mais se conhece, ama e serve o Filho.
Como afirmava São Luís de Montfort ao combater aqueles que temiam amar demais a Virgem Santíssima, honrar a Mãe é glorificar o próprio Deus, que A escolheu e A cumulou de virtudes.
Certo dia, Cleonice Morcaldi, uma de suas filhas espirituais mais próximas, pediu-lhe: “Meu pai, ensine-me um atalho para ir a Deus.”
O Padre Pio respondeu com simplicidade e clareza imediata: “O atalho é a Virgem Maria!” E explicou que Jesus, Fonte de água viva, não chega às almas sem um canal, e esse canal é Maria.
Para ele, Nossa Senhora não era uma teoria teológica abstrata ou uma figura distante nas nuvens, mas uma Mãe viva, presente, atenta e pronta a socorrer cada um de Seus filhos.
Em outra ocasião, quando Cleonice lhe pediu uma reflexão sobre a grandeza da Mãe de Deus para que pudesse amá-L’a ainda mais, o Padre Pio sintetizou a doutrina mariana em verdades límpidas e profundas:
- todos os anjos e santos juntos não conseguem louvar a Virgem Maria dignamente; Deus é o Pai do Verbo; Maria é a Mãe do Verbo encarnado; o Senhor nada nos concede que não passe pelas mãos da Rainha do Céu; Deus é Onipotente por natureza; Maria é Onipotente por graça; ame-A e honre-A na terra, e você A contemplará no Céu. Sendo Deus o único Onipotente por Sua própria natureza divina, Ele mesmo quis conceder à Virgem Maria a prerrogativa de ser a “Onipotência Suplicante”. A oração de todos os santos reunidos não obteria de Deus o que a oração solo de Nossa Senhora alcança em um instante diante do trono divino.
O Padre Pio tinha como missão sacerdotal arrancar as almas das garras do demônio. Passava longas horas no confessionário conduzindo os homens à conversão, à penitência e à graça.
Ele sabia que nenhuma mãe terrena ama seus filhos como Maria ama os pecadores, desejando ardentemente a sua salvação. O demônio teme a Santíssima Virgem porque Deus A constituiu como a inimiga irreconciliável da serpente infernal (Gênesis 3, 15).
Certa vez, após uma noite de terríveis e violentos ataques diabólicos, o Padre Pio confiou a um frade próximo que, no meio daquela prova avassaladora, a Virgem Maria tinha vindo pessoalmente consolá-lo, devolvendo-lhe imediatamente a paz e a coragem.
Uma máxima dos santos resume com precisão o espírito que guiava a vida do capuchinho de Pietrelcina: sem Ela, você não pode vencer; com Ela, você não pode fracassar.
Para viver essa entrega filial, o Padre Pio oferecia um meio diário e prático: o Santo Rosário. Testemunhas de sua vida relatam que o terço estava continuamente entre os seus dedos. Ele rezava enquanto caminhava, enquanto esperava, no confessionário e até nos momentos de descanso.
O Rosário não era uma rotina mecânica ou um amuleto de sorte, mas a própria respiração de sua alma e uma verdadeira escola de contemplação dos mistérios da vida, morte e glória de Nosso Senhor.
O Padre Pio sofria ao ver cristãos rezando o terço de forma autômata, sem meditar nos mistérios e sem o desejo sincero de combater os próprios defeitos.
A verdadeira devoção deve transformar a vida moral e o coração de quem reza. Nas dificuldades da família, nas enfermidades longas, nas secas espirituais ou quando a tentação parecer insuportável, o terço permanece como a bóia de salvação que impede o naufrágio da fé.
Ao final de sua vida terrena, já sem forças físicas, os dedos do Padre Pio continuavam a desfiar as contas do terço. O conselho que ele repetia a todos os que o procuravam permanece vivo e urgente hoje: “Ame a Virgem Maria e faça com que A amem. Reze sempre o Rosário.”
Que a partir de hoje, acolhendo o exemplo do Padre Pio, a oração do Santo Terço seja meditada com mais fervor, amor e constância, renovando o compromisso de combater o pecado e caminhar com confiança sob a proteção do Manto Sagrado de Nossa Senhora.




