A Igreja Anglicana do Canadá aprovou ritos litúrgicos para acompanhar a eutanásia. Com comunhão incluída. Sem se pronunciar sobre a moralidade do ato.

O sacerdote entra no quarto. O paciente está deitado. A agulha ainda não foi aplicada.
E o ministro anglicano ora. Oferece a comunhão. Pede a bênção de Deus sobre o que está prestes a acontecer.
Isso não é fake news. É o que a Igreja Anglicana do Canadá acabou de aprovar.
O documento se chama Pastoral Liturgies at the Time of Death in Contexts of Medically Assisted Dying. Autoriza clérigos anglicanos a acompanhar liturgicamente pessoas que vão ser submetidas à eutanásia, antes, durante e depois do procedimento letal, desde que com permissão do bispo diocesano.
O rito inclui comunhão. Inclui uma ladainha dirigida a Deus. Inclui a fórmula “Pomos nossa confiança em Ti”.
Confiança em Deus. No momento em que um médico injeta uma substância para matar.
O documento é cuidadoso em não julgar. Essa é, talvez, a parte mais perversa e reveladora. “Não é nossa intenção entrar nos argumentos éticos sobre a eutanásia, nem oferecer um argumento moral a favor ou contra”, diz o texto. A Igreja, cismática, segundo seus próprios autores, está apenas respondendo pastoralmente às necessidades de quem tem diante de si.
Uma Igreja que engana muitos católicos, pois é cismática, não sabe o que pensa sobre matar um paciente.
Mas sabe rezar enquanto isso acontece.
A justificativa teológica é ainda mais grave.
O documento equipara a eutanásia ao processo natural da morte. “A morte é uma parte natural da vida”, escreve. E a Igreja está “chamada a caminhar junto às instituições e profissionais de saúde” nesse momento.
Como se aplicar uma injeção letal fosse o mesmo que morrer de velhice.
Como se o médico que administra o veneno fosse o mesmo que Deus chamando a alma.
Wesley J. Smith, especialista em bioética do Discovery Institute, apontou uma mentira concreta no documento. O texto anglicano apresenta a eutanásia como uma opção para pessoas que “esgotaram todas as alternativas médicas”. Mas a legislação canadiense não exige isso. Não é preciso ter esgotado nada. Basta pedir.
E a Igreja anglicana canadiense está lá. Com a Bíblia na mão. Para abençoar.
Smith faz uma pergunta que merece ser repetida: se uma Igreja não consegue se pronunciar eticamente sobre matar um paciente, qual é o sentido de ser Igreja?
A pergunta é boa. A resposta, no entanto, já existe há dois mil anos.
A Didaqué, um dos textos cristãos mais antigos que existem, escrito por volta do ano 100 depois de Cristo, condena expressamente o homicídio. A doutrina católica sempre reconheceu que a vida humana não pertence ao homem. Pertence a Deus. E que nenhuma instituição, nenhum médico, nenhum rito religioso tem autoridade para mudar isso.
A Igreja Católica não tem dúvida sobre esse ponto.
O Catecismo é claro: a eutanásia é uma ação ou omissão que, por sua natureza ou intenção, provoca a morte para suprimir a dor. É moralmente inaceitável. Nenhuma intenção boa, nenhum sofrimento real, nenhuma compaixão sincera muda a natureza do ato.
Padre Pio acompanhou moribundos durante décadas. Ficou ao lado de pessoas em agonia. Chorou com elas. Rezou por elas. Mas nunca confundiu misericórdia com cumplicidade na morte. Porque ele sabia que o sofrimento, unido ao de Cristo, tem um valor que nenhum médico pode calcular e nenhuma agulha pode substituir.
Smith alerta para algo que todo católico precisa entender: a bênção litúrgica pode ser o fator decisivo para pessoas vulneráveis que estão em dúvida. Uma pessoa que sofre, que se sente um fardo, que já não vê saída, pode encontrar no gesto do ministro anglicano a confirmação de que Deus aprova o que ela está prestes a fazer.
Essa é a crueldade real do documento.
Não é pastoral. É abandono com aparência de cuidado.
A Igreja que Cristo fundou foi chamada para acompanhar os que sofrem até o fim. Mas acompanhar não significa validar. Significa estar presente com a verdade. Significa dizer, com amor e firmeza, que a vida é sagrada até o último segundo. Que o sofrimento pode ser oferecido. Que a misericórdia de Deus alcança todo moribundo que a invoca.
Isso é o que a Igreja Católica oferece.
Não uma bênção sobre a morte provocada. Mas uma presença ao lado da vida, até que Deus, e só Deus, decida chamar.
Que Nossa Senhora de Fátima, que apareceu para pedir penitência e conversão, interceda pelos católicos do Canadá. E que nenhum católico confunda jamais a misericórdia com a cumplicidade.




