Entre a tradição e a fé: entenda o significado dessa prática que atravessa gerações no Brasil e em Portugal.

No Brasil e em Portugal, por sua herança católica, a Sexta-Feira Santa ocupa um lugar peculiar no calendário.
Mesmo que esses países, hoje, sejam marcados por um crescente secularismo, nesse dia muitos lares ainda mantêm viva uma tradição: a mesa é servida sem carne vermelha.
Peixe, saladas e frutos do mar tornam-se os protagonistas no almoço e no jantar.
Para uma parcela significativa da população, esse hábito é seguido quase que automaticamente, como um legado cultural.
No entanto, paira a dúvida: afinal, por que não se come carne na Sexta-Feira Santa?
Mais do que um simples “não pode”, a Igreja atribui a essa prática um profundo sentido espiritual.
Unir-se ao Sofrimento de Nosso Senhor
O consumo de carne, em si mesmo, nada tem de pecaminoso independentemente do dia da semana, do mês ou do ano.
A questão não é o alimento, mas o que ele representa.
Tradicionalmente, a carne vermelha é considerada o alimento de festa, de celebração, de alegria.
A Sexta-Feira Santa, porém, não é um dia festivo, mas um dia de silêncio e recolhimento para fazer memória da paixão e morte de Nosso Senhor.
Por isso, a Igreja exorta os fiéis a se privarem desse alimento prazeroso como um gesto de compaixão.
Ao fazer essa renúncia, o católico se une misticamente ao sofrimento de Cristo, que entregou sua própria carne por nós.
O sacrifício: uma forma de louvor
Para muitos pode parecer estranho pensar que ‘sacrifício’ e ‘louvor’ andem juntos.
No entanto, para a tradição católica, oferecer a Deus algo que nos custa é um dos modos mais autênticos de adoração.
Na Sagrada Escritura, o salmista já ensinava: “Oferece a Deus um sacrifício de louvor” (Sl 49,14).
Ao se privar da carne na Sexta-Feira Santa, o fiel faz exatamente isso: oferta um sacrifício de louvor fazendo uma renúncia que parte do coração.
Desse modo ele reconhece que tudo vem de Deus e que vale a pena renunciar a algo em sinal de gratidão pelo Amor que Ele testemunhou padecendo e morrendo na cruz.
Por que o peixe é permitido?
Uma pergunta surge naturalmente nesse contexto: “Se não posso comer carne, por que o peixe está liberado?”.
A resposta está na tradição judaica e na biologia simbólica da época.
Nos primeiros séculos do cristianismo, o termo ‘carne’ era associado como a carne de animais de sangue quente (mamíferos e aves), que eram considerados alimentos mais nobres e associados à celebração.
Santo Tomás de Aquino explica, na Suma Teológica, que o consumo de carne vermelha dá mais prazer, já que ela é mais saborosa e dá saciedade por longo tempo.
Abster-se dela seria, portanto, demonstração de um grande sacrifício.
O peixe, por outro lado, era classificado como alimento de penitência já que traz pouca saciedade.
Além disso, outra explicação aponta que os animais de sangue quente morrem com derramamento de sangue (lembrando o sacrifício de Nosso Senhor) enquanto os peixes, em geral, morrem sem derramar sangue.
Mais que um hábito, um lembrete
O gesto de abster-se da carne na Sexta-Feira Santa, portanto, não é apenas um costume herdado dos avós nem uma regra vazia a ser cumprida por obrigação.
Para os católicos, trata-se de cumprir o quarto mandamento da Igreja que determina: “Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja”.
Esta norma obriga os fiéis a partir dos 14 anos de idade a praticar a abstinência de carne em todas as sextas-feiras do ano, especialmente na Sexta-feira Santa.
Para quem deseja compreender melhor essas regras, já publicamos um artigo aprofundado sobre o tema.
Ao privar-se voluntariamente de algo legítimo e prazeroso, como a carne, o coração se abre para uma verdade mais alta:
Por causa de pecados causados por prazeres passageiros, Nosso Senhor sofreu na própria carne grandes tormentos.
Além disso, a abstinência de carne ensina algo essencial: o homem não vive apenas para o prazer. É necessário, muitas vezes, renunciar a eles para salvar a alma.
Assim, o que começa como um hábito familiar (o peixe na mesa da Sexta-feira Santa) pode transformar-se em um ato de fé consciente.
E é também por meio de gestos concretos que essa fé católica continua viva no mundo.




