
Um alerta vindo da Itália
No programa italiano Fatima non finisce qui, apresentado por Umberto Bracesi, a tragédia dos cristãos na Nigéria foi trazida a público com palavras diretas e sem atenuantes.
Citando reportagens recentes do jornal da Conferência Episcopal Italiana Avvenire e o testemunho de um bispo que vive no coração da violência, o programa afirmou aquilo que muitos evitam dizer: na Nigéria, está em curso uma perseguição sistemática contra os cristãos que já assumiu as proporções de um verdadeiro genocídio.
O rosto mais visível dessa denúncia é Dom Wilfred Chikpa Anagbe, bispo da diocese de Makurdi, no estado de Benue, no centro do país.
Em entrevista concedida a Avvenire, em 19 de janeiro último, o bispo foi categórico: “Não tenho medo de chamar o que está acontecendo de genocídio dos cristãos.”
Segundo o prelado, milhares de cristãos já foram mortos e dezenas de milhares expulsos de suas terras. A diocese perdeu ao menos 21 paróquias rurais, hoje inacessíveis depois de ataques armados.
O bispo pede explicitamente que se rompa o que chama de “conspiração do silêncio”.
Romper o silêncio exige mais do que indignação. Exige que vozes independentes continuem informando, documentando e denunciando quando muitos preferem calar.
Doe aqui e sustente esse trabalho que a Regina Fidei desenvolve.
Benue: ataques recentes e colapso das comunidades
Neste mês de janeiro, novos ataques contra comunidades cristãs no estado de Benue confirmaram uma tragédia que se repete há anos: vilarejos incendiados, famílias expulsas, agricultores assassinados e igrejas tornadas inacessíveis por causa da violência armada.
Em muitas aldeias, a celebração da missa tornou-se impossível, seja por destruição das igrejas, seja pelo risco real de ataques durante as celebrações.
O Middle Belt e a mudança de natureza do conflito
A região central da Nigéria, conhecida como Middle Belt, é uma faixa do país onde convivem populações majoritariamente cristãs e muçulmanas.
Durante décadas, essa convivência foi tensa, mas relativamente estável. Nos últimos anos, porém, a situação mudou de natureza.
O que antes era apresentado como conflito local por terras passou a assumir características de uma campanha organizada de expulsão e substituição populacional.
Milícias fulani e a lógica da ocupação
Entre os principais agentes da violência estão milícias formadas por muçulmanos fulani radicalizados. Os fulani constituem um dos maiores grupos étnicos da África Ocidental, tradicionalmente ligados ao pastoreio nômade.
Uma parte desses grupos, segundo o bispo e diversos relatórios, foi radicalizada e passou a operar de forma armada, com ataques coordenados contra vilarejos cristãos.
Dom Anagbe descreve o método com precisão: terroristas percorrem vilarejos, entram casa por casa, queimam aldeias, destroem igrejas e forçam a população a fugir.
Após os ataques, outras populações muçulmanas se instalam nas terras abandonadas, consolidando a mudança demográfica.
Para o bispo, esse não é um efeito colateral, mas parte de uma estratégia deliberada para islamizar o centro da Nigéria.
Boko Haram, ISWAP e a jihad com muitos nomes
Além das milícias muçulmanas fulani, continuam ativos no norte e nordeste do país grupos jihadistas como Boko Haram e o Estado Islâmico da Província da África Ocidental (ISWAP).
Embora diferentes entre si, esses grupos compartilham a mesma lógica: uso do terror, sequestros, massacres e destruição de comunidades cristãs.
Quando se fala em “jihad” nesse contexto, trata-se da noção de guerra religiosa para impor o Islã e eliminar a presença cristã em determinadas regiões.
Dom Anagbe já havia denunciado essa dinâmica em discursos anteriores, inclusive diante do Parlamento Europeu, onde afirmou que a Nigéria vive uma “jihad com muitos nomes: terrorismo, banditismo, sequestros, milícias”, mas com o mesmo objetivo final.
A denúncia de Avvenire e a agenda de islamização
Avvenire relata que, segundo o bispo, existe “uma agenda clara e planejada para islamizar a Nigéria central”, com ataques sistemáticos para mudar a demografia de regiões majoritariamente cristãs.
Ele questiona abertamente a narrativa oficial que tenta explicar os massacres como resultado de mudanças climáticas ou simples conflitos entre pastores e agricultores.
“Em que país se mata por causa do clima?”, perguntou o bispo na entrevista.
“Se fosse apenas disputa por terras, por que as comunidades não recebem suas terras de volta depois dos ataques?”
A escalada desde 2018 e os massacres documentados
A escalada mais grave em Benue, segundo Dom Anagbe, começou em 2018, quando mais de 70 agricultores cristãos foram assassinados.
Em um ataque no vilarejo de Mbalom, durante um funeral, 16 pessoas foram mortas, entre elas dois sacerdotes.
Entre janeiro de 2023 e fevereiro de 2024, cerca de 2.600 pessoas — em sua maioria mulheres e crianças — foram mortas em ataques contra cerca de 50 comunidades no estado de Benue, segundo dados citados pelo próprio Avvenire com base em organizações internacionais como a Amnesty International.
Em 2025, a situação se agravou ainda mais, com novos massacres e deslocamentos em massa.
A “cesta alimentar” em colapso
O estado de Benue é frequentemente chamado de “cesta alimentar da nação”, por sua importância agrícola. Hoje, porém, a produção entrou em crise.
Com agricultores mortos ou expulsos, campos abandonados e insegurança permanente, a base econômica da região foi profundamente atingida. A violência religiosa produz também consequências sociais e econômicas duradouras.
Campos de deslocados e crise humanitária
Avvenire descreve a situação dramática dos campos de deslocados internos.
Milhares de famílias vivem em tendas improvisadas, sem condições adequadas de higiene, alimentação ou assistência médica. Dom Anagbe denuncia que a situação é “intolerável”.
Segundo relatos colhidos pelo jornal, há casos de prostituição forçada, tráfico de crianças, desnutrição e doenças. Algumas famílias chegaram a vender filhos para sobreviver.
Isa Sanusi, diretor da Amnesty International na Nigéria, afirmou a Avvenire que os deslocados enfrentam “campos superlotados e insalubres, sem acesso suficiente à água, com pouca higiene, pouco alimento e assistência médica precária”.
A Nigéria como epicentro mundial do martírio cristão
Relatórios internacionais confirmam que a Nigéria é hoje o país mais mortal do mundo para os cristãos.
Segundo o relatório World Watch List 2026, da agência Open Doors, 3.490 cristãos foram assassinados na Nigéria em 2025, o que representa cerca de 72% de todos os cristãos mortos por causa da fé no mundo inteiro naquele ano.
A violência também atinge diretamente o clero. Nos últimos anos, dezenas de padres foram sequestrados, alguns assassinados, outros libertados após pagamento de resgate.
Igrejas foram incendiadas, conventos fechados e comunidades religiosas forçadas a abandonar áreas inteiras.
A conspiração do silêncio
Um dos aspectos mais graves destacados por Dom Anagbe é aquilo que ele chama de “conspiração do silêncio”.
Apesar de relatórios detalhados, denúncias públicas e apelos diretos de bispos africanos, a resposta internacional permanece fraca.
Governos e organismos multilaterais frequentemente preferem reduzir a crise a fatores econômicos, climáticos ou étnicos, evitando reconhecer explicitamente o caráter religioso da perseguição.
“Somos todos nigerianos”
No programa italiano Fatima non finisce qui, essa realidade foi interpretada à luz da fé católica. A expressão “Somos todos nigerianos” não é um slogan político, mas uma afirmação de fé.
Esses fiéis perseguidos são membros vivos do Corpo Místico de Cristo. São batizados — famílias, crianças, idosos, padres e religiosos — que vivem a fé em regiões onde professar Cristo significa correr risco real de morte todos os dias.
Fátima, o sangue dos mártires e a Igreja de hoje
A ligação com Fátima, destacada no programa Fatima no finisce qui, recorda a visão final do chamado Terceiro Segredo de Fátima, tornada pública no ano 2000, em que os pastorinhos veem um cortejo de mártires — bispos, padres, religiosos e leigos — cujo sangue é recolhido por anjos e derramado sobre as almas que se aproximam de Deus.
Hoje, esse sangue continua a ser derramado também na Nigéria. O martírio não pertence apenas aos livros de história da Igreja. Ele está acontecendo agora.
Dar visibilidade a esse martírio, é sustentá-lo na memória da Igreja e impedir que ele seja soterrado pelo esquecimento.
Colabore para que a Regina Fidei continue dando voz aos cristãos perseguidos.
Um apelo à consciência cristã
Para os cristãos do mundo inteiro, esse quadro coloca uma questão de consciência. Informar-se, rezar e romper o silêncio tornaram-se deveres morais.
Não se trata apenas de um conflito local africano. Trata-se de uma perseguição religiosa real, contínua e amplamente documentada, com números que colocam a Nigéria como o principal teatro do martírio cristão no século XXI.
Enquanto o mundo se ocupa de outras agendas, milhares de cristãos continuam a ser mortos, sequestrados, expulsos e humilhados simplesmente por professarem a fé católica.
Ignorar essa realidade é, de certo modo, colaborar com ela.




